
Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão
Além dos planetas, objetivos prin-cipais das sondas interplanetárias, o sistema solar possui uma infinidade de pequenos corpos agrupados em dois conjuntos: os asteróides e os cometas. Mas só em 1986, com o Halley, é que começou a exploração espacial destes corpos celestes. Do ponto de vista científico, o estudo dos cometas é da máxima importância, pois eles pode-rão esclarecer inúmeros fatos relativos à origem do sistema solar, uma vez que parecem ter se formado na mesma épo-ca, no interior da nebulosa proto-solar. Do ponto de vista prático, existe a pos-sibilidade de utilizá-los como fonte de matéria-prima para os futuros explora-dores do espaço. No momento, três se-rão os procedimentos usados para pes-quisar tais objetos: sobrevoo, encontro e retirada de amostras.
O primeiro, mais simples tecnica-mente, é semelhante ao realizado em março de 1986 para estudar o Halley. Há vários programas desse tipo, mas o mais avançado é o franco-soviético Vesta: são duas sondas que serão lan-çadas em 1994 pela União Soviética, cada uma com a missão de sobrevoar três asteróides de diferentes famílias e o núcleo de um cometa. Durante o vôo, os instrumentos de bordo deter-minarão a massa e densidade do objeto, a composição superficial, a forma e. com o auxílio de uma câmera de TV, realizarão uma série de fotos. Planeja-se também a instalação na sonda de um espectrômetro de massa, que permitirá a análise dos grãos que a nave venha a encontrar em seu per-curso, mais especialmente nas proxi-midades desses objetos.
O encontro com o asteróide ou com o cometa, o segundo procedimento, consistirá em colocar a sonda em órbi-ta ao redor de um objeto que ele acompanhará em sua trajetória. A di-ficuldade será escolher um objeto cuja velocidade relativa no momento do encontro seja suficientemente fraca, a fim de permitir uma freagem e a en-trada em órbita. A NASA tem um projeto dessa natureza, o Comet Rendez-vous e Asteroid Fly-by (CRAF). Seu objetivo será realizar um encon-tro cometário a cerca de 750 milhões de quilômetros de distância do Sol — nada menos que cinco vezes a distân-cia da Terra ao Sol.
Assim, os astrônomos da NASA esperam acompanhar a evolução do núcleo de um cometa ainda pouco ativo até sua aproximação do Sol, quando ele desenvolve a cabeleira e a cauda.
Nessa missão, a NASA deverá usar um veículo espacial em desenvolvi-mento, o Mariner Mark II. Os come-tas a serem contatados vão depender da data de lançamento. Na mira dos astrônomos estão o Tempel 2 e o Kopff (ou Wild 2). cujos encontros deverão acontecer em 1999, 2001 e 2003, após uma viagem que pode du-rar de quatro a sete anos, dependendo do tipo de trajetória programada: direta ou indireta. Na última hipótese será usado o impulso gravitacional, que permitiu o sucesso das naves Voyager. O terceiro procedimento, a re-tirada da amostra de asteróide ou do núcleo de um cometa, é bem mais am-bicioso. Chamado Cometary Nucleus Sample Return (CNSR), é uma das principais missões da Agência Espa-cial Européia (ESA).
A NASA tem projeto semelhante previsto para o início do século XXI. Porém, os problemas de uma missão como essa são enormes, tendo em vista a natureza dos componentes do núcleo de um cometa. Realmente, além da escolha do cometa e do ponto de prospecção para colher a amos-tra, existem dificuldades relativas à propulsão, às técnicas de encontro e à técnica de preservação da integrida-de das amostras — em geral, grãos, gelo e compostos orgânicos em forma de gases — até retornarem à Terra, para estudo. Os defensores desse projeto baseiam-se nos progressos que alcançaram as análises em laboratório de material extraterrestre lunar e meteorítico, que atualmente é analisado e datado com grande precisão. Por outro lado, é possível determinar a composição de compostos orgânicos de teor muito fraco. Desse modo. reconstrói-se a química primordial na época do surgimento do sistema so-lar, se considerarmos que os cometas são os fósseis da nuvem proto-solar de onde se originou nosso sistema planetário.
O astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é membro da Comissão de Estrelas Múltiplas e Duplas, de História da Astronomia e de Asteróides e Cometas da União Astronômica Internacional.