
Arqueólogos são cientistas acostumados a extrair leite de pedras: para eles, o desgaste de um dente pode revelar se um fóssil pertence a um animal vegetariano ou carnívoro. É de se esperar, portanto, uma quantidade colossal de informações a partir dos exames que estão sendo realizados não num fóssil, mas em um homem mumificado de 4 000 anos, descoberto em setembro por dois alpinistas, durante uma escalada nas montanhas do Tirol, no sudoeste da Áustria. O machado ao lado da múmia indica que o indivíduo viveu na Idade do Bronze, quando o homem aprendeu a usar o metal. Existem poucos dados sobre esse período da História na Europa, enquanto no Egito havia até múmias de faraós. Por isso, algumas pessoas comemoraram, talvez precipitadamente, a descoberta do homem congelado como a mais importante revelação arqueológica dos últimos tempos. "Sua importância é mais por estar o corpo inteiro, conservado pelo gelo, do que por ser da Idade do Bronze", adverte a arqueóloga Sílvia Maranca, da Universidade de São Paulo. De fato, já se encontraram ossos e instrumentos pertencentes a esse período na Europa e cada peça, por menor que fosse, ajudou a montar o quebra-cabeça do passado. "É claro que um corpo íntegro pode trazer uma quantidade maior de respostas" admite Sílvia. Graças à pressão das geleiras, esse corpo se transformou em um material ceroso.
Os primeiros exames na múmia revelaram que se tratava de um homem entre 25 e 35 anos, trajando roupas de couro e lã, apropriadas para escalar os Alpes. Os europeus da Idade do Bronze exploravam os minérios das montanhas. A autópsia, que utilizou até tomógrafo computadorizado, deve revelar a causa da morte desse provável explorador. Mais do que isso, dará informações sobre sua saúde e até sobre sua última refeição. A partir da análise do DNA de suas células, os cientistas esperam conhecer as linhagens genéticas dos europeus. Afinal, até então, a múmia européia mais antiga era a do homem de Lindow, encontrado na Inglaterra, com 2 000 anos, ou seja, metade da idade do homem dos Alpes.