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DIABETE

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A epidemia do sangue doce

O número de diabéticos dobrou nos últimos dez anos. Já há 160 milhões de doentes, 6 milhões só no Brasil. Mas novas terapias ajudarão a cuidar dessa multidão.

Cada vez mais gente olha com desconfiança para um prato de sobremesa carregado de açúcar. São os diabéticos. As células do corpo deles não respondem mais aos estímulos da insulina, um hormônio produzido pelo pâncreas que tem a função de absorver tudo o que é doce na alimentação (veja o infográfico). Sem a insulina, o açúcar não entra nas células - para gerar energia - e fica boiando no sangue, onde o acúmulo de glicose pode até matar.

"A diabete que surge em adultos maduros tornou-se uma epidemia assustadora", diz o endocrinologista Jorge Luiz Gross, presidente da Sociedade Brasileira de Diabete. O Brasil é o sexto colocado no ranking mundial da doença. O primeiro é a Índia, com 50 milhões de habitantes diabéticos. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o total mundial dobrará até 2025.

Para evitar que o açúcar que toda essa gente come morra na praia sem chegar às células, no início deste ano desembarcam no Brasil duas novas drogas. E há terapias em estudo para acabar com as injeções de insulina - um remédio amargo demais.

 

ilucirio@abril.com.br

 

 

 

Algo mais

 

As células produtoras de insulina têm o nome de ilhotas de Langerhans porque se organizam em pequenas aglomerações de formato irregular dentro do pâncreas. O pâncreas tem cerca de 1 milhão dessas ilhas. Paul Langerhans foi o médico alemão que as descreveu pela primeira vez, em 1869.

 

A insulina é um disparador

 

O hormônio produzido pelo pâncreas se encaixa na parede da célula.

O encaixe dispara uma série de reações que ativam uma molécula chamada glut4, capaz de atrair moléculas de glicose.

 

Ativada, a glut4 puxa o açúcar do sangue para dentro da célula, onde ele é usado para gerar energia. Sem isso, o organismo pára de funcionar.

 

Gordura e idade acompanham a diabete

 

Quando se fala em diabete, é preciso lembrar que ela se divide em duas categorias. Uma delas, denominada tipo 1, é menos comum. Responde por 5% a 10% de todos os casos da doença e seus sintomas surgem por volta dos 7 anos. Aparece porque o corpo luta contra si próprio. Por algum motivo ainda desconhecido, o organismo enlouquece e suas células de defesa decidem atacar e destruir as do pâncreas, que passa a produzir pouca insulina (veja o infográfico). Se a vítima ficar sem injeções desse hormônio, morre em poucos dias.Mas a diabete responsável pelos números assustadores da página anterior é a tipo 2. Ao contrário da diabete tipo 1, aqui o pâncreas tem pouca culpa. O problema principal está no resto do corpo. Afetado por fatores externos, as células ficam insensíveis à insulina. O mais importante deles é a obesidade, cada vez mais comum. Estudos mostram que 40% da população adulta do planeta está acima do peso adequado. "Quase 90% dos diabéticos são obesos", ressalta o endocrinologista Alfredo Halpern, chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas, em São Paulo. "Até crianças com menos de 10 anos estão adoecendo devido à obesidade", diz Halpern. Assim, quem ganha barriga pode levar, de quebra, um passe livre para a doença.

A gordura afeta em cheio o fígado, que tem a função de armazenar a glicose não aproveitada pelo organismo. Mas, se ele estiver comprometido, pode devolver à corrente sanguínea um açúcar alterado, defeituoso, incapaz de entrar nas células. Aliás, basta haver moléculas gordurosas sobrando no sangue para atrapalhar a absorção de glicose pelas células. Nesse caso, mesmo que o pâncreas produza muita insulina, ela pode não ser capaz de tirar o açúcar de circulação.

Outro fator que costuma predispor à diabete é o passar dos anos. Com o envelhecimento, as células naturalmente perdem a capacidade de capturar glicose. "Acima dos 60 anos, 17% da população se torna diabética", comenta Jorge Luiz Gross, da Sociedade Brasileira de Diabete. "Como está aumentando a longevidade, é de esperar que cresça a incidência da doença", diz ele.

 

Um mal puxa outro

A diabete muitas vezes é acompanhada de outros males. O excesso de açúcar no sangue cria um desequilíbrio geral no organismo. Um dos seus efeitos mais graves é a degeneração dos vasos sanguíneos que irrigam a retina, que acarreta a perda da visão. A diabete, por isso, é a primeira causa de cegueira no mundo. O excesso de acidez também pode provocar ulcerações na pele, mau funcionamento dos rins, impotência no homem e problemas cardíacos. Cerca de 75% dos diabéticos morrem do coração, segundo a Organização Mundial da Saúde.

"Mas o paciente que recebe o tratamento adequado, com remédios e dietas, escapa de praticamente todas essas complicações", diz o endocrinologista Fadlo Fraige, médico do Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo, e presidente da Associação Nacional de Assistência ao Diabético.

Nos próximos meses chegam ao Brasil duas drogas novas. A repaglimida, produzida por um laboratório americano, dará uma força ao pâncreas aumentando a produção de insulina em minutos. As drogas existentes levam horas para fazer efeito. Já a roseglitazona, produto inglês, agirá direto nas células que não querem mais saber da insulina (veja o infográfico ao lado). "São as novidades mais animadoras dos últimos trinta anos", diz Fraige.

 

Primeiros sinais

 

Perda de pesoObesos são vulneráveis à doença. Mas, depois de instalada, o corpo passa a queimar gordura para obter a energia que lhe falta por não absorver açúcar. Mas a perda de peso não é significativa para reverter a diabete.

 

Excesso de urina

O acúmulo de glicose no sangue gera substâncias tóxicas que precisam ser eliminadas pela bexiga. Vai-se ao banheiro a toda hora. A sede aumenta.

 

Coceira na genitália

A glicose não aproveitada provoca irritação na pele do pênis e da vagina.

 

Cansaço

É uma conseqüência natural da carência de açúcar, que se traduz em pouca energia. O organismo enfraquece.

 

Melhor se precaver

 

Exercícios regularesCerca de 40 minutos de caminhada três vezes por semana queimam 500 calorias. O exercício juda a manter o peso normal e deixa o coração, o principal afetado caso a diabete apareça, mais forte.

 

Exames periódicos

Avaliando as taxas de glicose no sangue, é possível descobrir a doença ainda bem no início, o que diminui as complicações.

 

Evitar cortisona

Essa droga, também usada para aliviar a dor, aumenta os riscos de contrair o mal.

 

Menos bebês

Mulheres propensas à diabete não devem arriscar muitas gestações. Durante a gravidez, o pâncreas trabalha mais e pode ficar comprometido. Somando-se isso aos fatores externos, a probabilidade de aparecer a doença aumenta.

 

Um só nome, duas doenças

 

Diabete tipo 1Nesta variante da doença, as próprias células de defesa do organismo passam a atacar as do pâncreas. Elas produzem pouquíssima insulina ou param de funcionar. A saída é suprir artificialmente a insulina de que o organismo precisa com injeções.

 

Diabete tipo 2

Por razões ainda desconhecidas, as células do corpo criam uma barreira e não deixam a insulina se encaixar nelas. Com isso, o açúcar deixa de ser absorvido.

 

Mas uma droga, a roseglitazona, é capaz de vencer a barreira da célula por outro caminho. Ela ativa a molécula glut4, que vai até a membrana e traz a glicose para dentro.

 

A outra droga, a repaglimida, estimula as células pancreáticas. Elas passam a produzir mais insulina e tentam vencer a doença com abundância do hormônio.

 

Transplante pode acabar com as agulhas

 

É bastante dolorida a rotina de um diabético. São, no mínimo, três alfinetadas por dia para injetar insulina. Sem contar as que se aplicam na ponta do dedo para retirar a amostra de sangue e medir a quantidade de glicose presente no sangue. É o que têm de fazer os diabéticos do tipo 1, cujo pâncreas praticamente não produz o hormônio. Já a diabete tipo 2 pode ser controlada por drogas e dietas. Mas em 25% dos doentes elas não dão conta do recado e eles precisam se espetar. Seria muito mais fácil tomar insulina na forma de comprimido. Acontece que, ao chegar ao estômago, a digestão a destruiria totalmente e ela perderia o efeito. Daí a necessidade da agulha, que joga a substância diretamente no sangue. Agora, a indústria farmacêutica vem tentando evitar esse expediente dolorido.

O socorro vem de terras africanas. Trata-se de um fungo que cresce nas florestas do Congo e produz um extrato de nome pouco melodioso, L-783281. Ele se encaixa nas células do corpo, faz muito bem o papel da insulina e tem a vantagem de poder ser ingerido, pois passa ileso pelo sistema digestivo. Por enquanto, só ratos diabéticos puderam se beneficiar desse bálsamo africano, mas ele promete.

 

Bomba de insulina

Outra alternativa que está mais próxima do balcão da farmácia é a insulina inalada. Ela deve ser lançada em 2002 e aparecerá na forma de um pó bem fino, acondicionado em uma bombinha semelhante à dos asmáticos. Aspirado, o pó passa pela boca e chega rapidamente ao pulmão, onde é absorvido pelos vasos sanguíneos. Mesmo nessa forma, a insulina precisa ficar protegida até chegar ao sangue. A melhor solução até agora foi encontrada pelo pesquisador Carl Leopold, do Instituto de Pesquisa Vegetal Boyce Thomson, em Ithaca, nos Estados Unidos. Ele encapou a droga com uma cobertura de açúcares, imitando a estratégia que algumas plantas usam para proteger suas sementes.

No entanto, há médicos que vêem a insulina inalada mais como uma estratégia de marketing do que uma vantagem para o paciente. "Por causa da absorção irregular no pulmão, teremos grande dificuldade para encontrar a dosagem certa", prevê Rolf Renner, presidente da Sociedade Alemã de Diabete.

Muita gente está empenhada em encontrar uma solução duradoura. A saída mais sensacional é o implante de células pancreáticas em outros órgãos, como o fígado (veja o infográfico). Indicada principalmente para portadores de diabete tipo 1, essa terapia já está disponível no Brasil. Mas apresenta problemas. Para começar, as células implantadas param de funcionar depois de alguns meses. Além disso, o organismo ataca esses corpos estranhos e, para evitar o assalto, é preciso tomar drogas que acalmam o sistema de defesa do corpo. No fim, o tratamento acaba ficando mais incômodo que as injeções de insulina. Por isso, os médicos só costumam fazer esse transplante associado ao de rim, um dos órgãos que acabam comprometidos nos diabéticos. Nesse caso, as drogas teriam de ser tomadas de qualquer forma.

Um meio de aprimorar essa terapia é colocar uma barreira entre as células transplantadas e os defensores orgânicos. O bloqueio poderia ser feito por uma espécie de plástico, uma cápsula de silicone, que envolveria as células pancreáticas. Pesquisadores de vários institutos americanos, como a Universidade de Duke e a Universidade de Illinois, já estão testando essa idéia em animais (veja o infográfico).

Enquanto a cura definitiva não vem, o melhor é se proteger. Mesmo quem não sofre de diabete deve manter uma saudável desconfiança das sobremesas calóricas e das carnes gordurosas e prestar atenção nos ponteiros da balança. Essas ainda são as melhores couraças contra picadas.

 

Fabriquetas de insulina

 

Dublê de pâncreas1. As células pancreáticas de um doador são injetadas pela veia porta, que deságua no fígado.

 

2. Dentro do fígado, elas conseguem fabricar o hormônio. Mas, em alguns meses, são atacadas e destruídas pelas defesas imunológicas.

 

Células protegidas

1. Uma outra técnica, ainda em testes, encapsula as células do doador em uma membrana de silicone. Assim, ficam protegidas do ataque imunológico. Depois são colocadas no abdome.

 

2. A membrana tem poros com 0,00001 milímetro de diâmetro. A insulina é menor e escapa pelos buraquinhos.

 

3. Já as células de defesa, bem maiores, não são capazes de furar a barreira. A técnica está em estudo em animais.

 

 

 

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