
Não temos bola de cristal. Não houve jeito de descobrir quem será o presidente, que número vai dar na loteria ou que time ganhará o Brasileirão de 2015 (embora tudo indique que vá ser o Corinthians, claro). Nesta reportagem, não há adivinhações nem palpites. Para contar a você como será sua vida daqui a 14 anos, fomos buscar as pessoas mais abalizadas do país - as que estão sentadas na janelinha do trem expresso que vai para o futuro. O escolhido para dizer que destino terão os computadores foi Jean Paul Jacob, um brasileiro que passa os dias pensando nos próximos lançamentos da IBM. Já para dar um panorama do que nos reserva a medicina, fomos conversar com Aron Belfer, um médico que usa mais a internet que o estetoscópio para ajudar pacientes. Por falar em internet, não poderia faltar a visão do empresário Jack London. Outro que dedica seu presente ao futuro é o americano Frederic Litto, cujo trabalho é levar as novas tecnologias para a escola brasileira.
Mas tecnologia não serve só a fins nobres. Por isso, entrevistamos o especialista em tecnologia bélica Luiz Paulo Macedo Carvalho. O britânico Andrew Simpson, radicado no Brasil, é um dos maiores responsáveis pelo esforço mundial de encontrar, no nosso DNA, os genes traidores que causam o câncer. Ninguém melhor que ele para falar do futuro da mais terrível das doenças. E, já que o assunto é doenças terríveis, conversamos com o infectologista Caio Rosenthal - o mais destacado soldado na bem-sucedida guerra brasileira contra o HIV - para saber o que será da Aids. O vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Carlos Vogt, prevê o futuro da pesquisa nacional. Marcos Freitas, um dos homens que dirigem a política hídrica do Brasil, fala do que nos restará para beber em 2015. E o respeitado ambientalista João Paulo Capobianco antevê o sombrio futuro das florestas. Marta Grostein, urbanista conhecedora das metrópoles, conta como serão as cidades.
André Fischer, especialista em mercado de trabalho, diz o que vamos ser quando crescermos. Helio Gurovitz, diretor da melhor revista brasileira de negócios, voltou de uma entrevista com Bill Gates para nos dizer o que nos reserva o mundo empresarial. E, como nem tudo é matéria, fomos perguntar para Lia Diskin, a mulher que trouxe o Dalai Lama ao Brasil, como estarão nossos espíritos em 2015. Colocamos nossa mão no fogo pela seriedade e pela competência de cada um dos 14 "profetas" que entrevistamos. Mas só o tempo dirá se eles estão certos. No mínimo, você tem em mãos informações preciosas para calcular os efeitos das decisões que tomamos hoje.
Água
Marcos FreitasDiretor da Agência Nacional de Águas
Água é grátis. A conta que pagamos é só para remunerar os serviços da companhia de água - o tratamento contra impurezas, o gasto com a construção das tubulações. Mas, até 2015, isso vai acabar. A água deixará de ser essa dádiva divina, à qual todos têm acesso, para se transformar em uma mercadoria valiosa. Em breve, teremos que pagar pelo que bebemos. É o que afirma Marcos Freitas, um dos maiores conhecedores do assunto no Brasil.
Já se pode ter uma idéia do que nos reserva o futuro olhando para regiões onde a escassez de água é um problema mais sério do que aqui no Brasil. Os países árabes compram água para consumo doméstico da Escandinávia e pagam caro por isso: 150 dólares o barril - cinco vezes mais que o preço do petróleo. "Nada impede que, desde que se encontre uma forma barata de transporte, o Brasil, que é rico em recursos hídricos, venha a exportar água da bacia do Tocantins para aquela região", diz Freitas.
Mas, mesmo com toda essa riqueza hídrica, teremos que mudar nossa atitude perdulária se não quisermos virar a Arábia. Nos últimos 500 anos, desperdiçamos loucamente e poluimos tudo o que pudemos. Até 2015, precisaremos diminuir muito o desperdício para evitar a escassez, principalmente em grandes cidades como São Paulo. Também não poderemos mais prescindir de rios importantes e seremos obrigados a tratar sua água para podermos utilizá-la. Na opinião de Freitas, se os grandes poluidores forem pressionados financeiramente - com a cobrança de multas -, rios mortos como o Pinheiros, em São Paulo, e o Paraíba do Sul, no Rio de Janeiro, poderão estar recuperados em 2015. Já o Tietê, na melhor das hipóteses, só em 2030.
Ambiente
João Paulo CapobiancoSecretário-executivo do Instituto Sócio-Ambiental
Se for mantido o ritmo atual de desmatamento, nos próximos 14 anos causaremos um estrago maior na floresta amazônica do que o ocorrido desde Cabral. Quem faz as contas é João Paulo Capobianco, secretário-executivo do Instituto Sócio-Ambiental (ISA) e um dos mais respeitados ambientalistas brasileiros.
Siga o cálculo: são desmatados 17 000 quilômetros quadrados todo ano - 238 000 em 14 anos. Some os 180 000 quilômetros que serão devastados pelo projeto Avança Brasil, do Governo Federal. Agora acrescente os 15 000 quilômetros quadrados de mata derrubada ilegalmente todos os anos pelas madeireiras - 210 000 em 14 anos. Esse tipo de devastação não é detectada pelos satélites por ser seletiva - atinge apenas madeiras nobres. Assim, temos impressionantes 628 000 quilômetros quadrados de floresta amazônica derrubados em 14 anos. Isso significa 12% da floresta original. Desde a chegada das caravelas portuguesas até 2000, havíamos derrubado 588 876 quilômetros quadrados, segundo números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
E o problema não se restringe ao Brasil. Derrubar árvores implica na emissão de gases, que provocam o efeito estufa e aquecem o planeta. A restrição desses gases é um dos maiores desafios dos ambientalistas atualmente, ao lado da preservação dos recursos hídricos, do solo e do ar. O quadro é grave. Pesquisas mostram que se todos os habitantes do planeta tivessem o padrão de vida dos americanos os recursos naturais já seriam insuficientes. "Não cabe todo mundo na primeira classe. Esperamos que a educação que as novas gerações vêm recebendo nessa área possa ajudar na reversão do quadro", diz o ambientalista.
Aids
Caio RosenthalInfectologista do Instituto Emílio Ribas
O Brasil controlou a Aids. Isso não quer dizer que tenhamos vencido a doença, claro. Há cada vez mais gente com o HIV. Mas o número de novos casos, pelo menos, não está mais crescendo a cada ano, o que quer dizer que não há motivos para prever uma explosão da doença em 2015 - ao contrário do que deve acontecer em vários países pobres, principalmente os da África e a Índia, onde a taxa de infectados passa dos 30% da população adulta e, a cada ano, mais gente é contaminada.
É bem possível que até 2015 a medicina ainda não tenha encontrado a cura para a Aids. As facilidades de mutação do HIV tornam inócuos os esforços no campo dos medicamentos convencionais. A aposta é na terapia gênica. "Algumas pessoas são imunes ao vírus", diz o infectologista Caio Rosenthal, do Instituto Emílio Ribas e do Hospital Albert Einstein. "É o caso de prostitutas africanas, freqüentemente expostas a ele, que nunca manifestam os sintomas." No dia em que os cientistas descobrirem qual gene causa essa resistência, poderão implantá-lo em outras pessoas, para vaciná-las.
Apesar da incerteza quanto à cura, Rosenthal vê o futuro com otimismo. "Em 2015, quem receber um resultado de HIV positivo, saberá que porta um mal controlável pelo resto da vida", afirma. Outra boa notícia é uma nova geração de medicamentos, que deve chegar ao mercado brasileiro antes de 2003: os inibidores de fusão. Essas drogas impedem a fusão do HIV nas células e, com isso, sua proliferação. Assim, a população do vírus no corpo é mantida em níveis baixos, insuficientes para que a doença se manifeste. Pela lei brasileira, cada novo remédio de eficácia comprovada tem que ser distribuído gratuitamente a quem precisa dele.
Escola
Frederic LittoChefe do Projeto Escola do Futuro
O aluno brasileiro que tiver acesso à internet poderá optar por qualquer escola do mundo sem viajar. Hoje já é possível ter um "diploma eletrônico" da Universidade do Sul de Queensland, Austrália, sem jamais pisar na terra dos cangurus. Os cursos poderão durar seis horas ou seis meses, conforme a capacidade e o interesse do aluno, que será o responsável por montar sua grade curricular. O desafio dos professores não será mais ensinar que Cabral descobriu o Brasil em 1500, mas fazer com que o aluno consiga resolver seus problemas utilizando os meios de tecnologia e informações disponíveis. "O conceito de educação não será mais o de 'informação de possível uso caso você precise' mas o de 'como encontrar a melhor solução para problemas no momento em que eles surgem'", diz o educador americano Frederic Litto, da Universidade de São Paulo.
Internet
Jack LondonEconomista e empresário da internet
De todas as tecnologias surgidas nos últimos 14 anos, a internet, sem dúvida, será a mais presente na vida dos brasileiros em 2015. É o que afirma Jack London, um carioca com nome de escritor americano, que é um dos homens que mais entendem da web no país. Segundo ele, no lugar da inovação veremos consolidação. Haverá um envelhecimento dos usuários da rede e eles farão um uso mais utilitário da internet, fenômeno que já começa a ocorrer nos Estados Unidos. Palavras como "revolução" e "liberdade" serão substituídas por "conforto" e "convivência". O dinheiro evoluirá até se transformar num bit para transações virtuais, do mesmo jeito que já foi concha, pataca de ouro e hoje é um pedaço de papel. "Dinheiro é uma tecnologia de intermediação e, como tal, continuará em evolução e mudança", afirma London.
Medicina
Aron BelferRadiologista e empresário da internet
No futuro, a maioria das cirurgias será realizada por robôs capazes de operar cortes com precisão milimétrica, impossíveis para a mão humana, certo? Errado. Até 2015, grande parte das operações médicas, pelo menos nas principais cidades brasileiras, será feita sem corte nenhum. O bisturi tende a ser substituído por raios laser, capazes de, por exemplo, detectar tumores e extirpá-los sem que percamos uma única gota de sangue. "A tendência para os próximos 14 anos é que os tratamentos sejam menos robóticos e as cirurgias bem pouco invasivas", diz o radiologista e empresário da internet Aron Belfer, um dos maiores entendidos brasileiros de tecnologia médica.
Mas os maiores avanços surgirão na área de diagnósticos. "As pessoas terão em casa aparelhos muito mais sofisticados que o ultra-som, só que bem menores e simples de manejar, do mesmo jeito que hoje possuimos termômetros. Esses aparelhos serão capazes não só de diagnosticar a doença, mas de informar o melhor método de tratamento", afirma. Talvez eles possam até realizar alguns tipos de cirurgia, sem a necessidade de chamar um médico. Máquinas desse tipo começam a ser desenvolvidas pela Nasa, que confia nelas para cuidar, a distância, da saúde de seus astronautas em missão a Marte.
Os rincões mais isolados do Brasil serão favorecidos pelo avanço das tecnologias de comunicação. Já há, por exemplo, planos de usar a infra-estrutura de satélites sobre a Amazônia para fazer diagnósticos a distância. Segundo Belfer, mesmo nos vilarejos mais isolados as pessoas poderão se consultar com especialistas dos grandes centros urbanos, com sons e imagens em tempo real.
Negócios
Helio GurovitzDiretor da revista Negócios Exame
Dizer que a tecnologia transforma a economia e o mundo dos negócios é chover no molhado. Só que, hoje em dia, estamos de fato no limiar de uma era inédita em termos de transformação. E essa revolução vai logo chegar ao Brasil. A grande razão de tantas mudanças é o desenvolvimento da informática e das comunicações. "A era digital trará para as empresas e para toda a economia mais que uma mera mudança técnica ou uma nova forma de economizar custos e de criar produtos. Ela permitirá não apenas fazer melhor o que já se fazia, mas sobretudo fazer coisas que antes eram impossíveis", afirma o jornalista Helio Gurovitz, diretor da revista Negócios Exame.
Se os negócios antes estavam ligados a empresas estanques, agora a conexão por meio das redes de computador permite estabelecer verdadeiras teias dinâmicas de trabalho corporativo entre várias companhias espalhadas pelo planeta. Isso significa que as empresas brasileiras passarão a buscar fornecedores de matérias-primas, parceiros e consumidores em qualquer parte do mundo. Uma companhia amazônica vai poder vender seus produtos na Finlândia com um sócio sul-africano. O mesmo vale para os funcionários. Até hoje, a grande maioria deles estava fixa em um local de trabalho. No futuro, dispositivos sem fio permitirão que uma companhia brasileira conte com os serviços do sujeito mais adequado para o cargo, ainda que ele more no Tibet ou em Marrakesh. Tanta mudança vai forçar os empresários brasileiros a pensarem diferente. Para começar, terão que se acostumar a enfrentar a concorrência do planeta inteiro. "Estaremos preparados?", pergunta Gurovitz. Só o futuro dirá.
Pesquisa científica
Carlos VogtVice-presidente da SBPC
Haverá uma participação cada vez maior do setor empresarial na pesquisa científica brasileira. "Para isso, teremos que encontrar formas de transformar a ciência num valor econômico", afirma Carlos Vogt, ex-reitor da Unicamp, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e um dos pesquisadores que se dedicam a arquitetar a universidade do futuro. Com isso, haverá cada vez mais cientistas trabalhando em empresas, em vez de em universidades. Caberá ao poder público apenas definir as prioridades. Vogt acha que o Brasil entra nessa nova era em condições de participar com destaque dos grandes projetos científicos mundiais, como está participando do Genoma. "Em 2015, estaremos falando do Proteoma, o desvendamento das proteínas humanas. E o Brasil está bem aparelhado para isso", diz.
Tecnologia
Jean Paul JacobGerente de pesquisas da IBM americana
Em 2015, os computadores da forma como os conhecemos deixarão de existir - e essa nova era chegará ao Brasil simultaneamente com o resto do mundo. A previsão é do brasileiro Jean Paul Jacob, que trabalha na IBM, na Califórnia, Estados Unidos. "O conceito de computador será substituído pelo de microprocessador, que virá embutido em todo tipo de objeto. Acontecerá o mesmo que aconteceu com o motor: hoje você compra um aparelho e nem sabe quantos motores há nele", diz Jacob. Ele estima que, em 14 anos, um trilhão de objetos com microprocessadores estarão conectados via internet. Um dia, o técnico de manutenção vai bater à sua porta sem ser chamado e dizer que veio consertar a geladeira. Explicação: o eletrodoméstico avisou automaticamente a manutenção sobre um defeito que você nem sequer havia percebido.
Trabalho
André FischerEconomista da USP
No Brasil, as áreas de turismo, ambiente e internet serão campos férteis nos próximos anos. Mas, para ter sucesso em 2015, serão necessários, além do diploma, muito estudo "por fora", visão do mercado e afinidade com a função. Várias profissões irão desaparecer, em especial as operacionais, como cobradores de ônibus, caixas, recepcionistas, balconistas, enfim, tudo o que possa ser substituído por uma máquina. "Junto serão eliminadas suas chefias - aquele chefe que só cuida para que os outros trabalhem", afirma André Fischer, um dos maiores conhecedores de mercado de trabalho do país. Entre as profissões que ganharão espaço, predominarão os especialistas em selecionar dados e disponibilizá-los. "Por exemplo, alguém que descubra onde estão os fornecedores da matéria-prima que uma empresa precisa", afirma.
Urbanismo
Marta GrosteinEspecialista em metrópoles
Se viver em uma grande cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro nos dias de hoje já é ruim, imagine dentro de 14 anos, quando o número de pessoas e, conseqüentemente, de automóveis, engarrafamentos, poluição e assaltos, será ainda maior? Que tipo de lazer e que nível de qualidade de vida os moradores das possíveis Gotham Cities de 2015 terão?
Na opinião da urbanista Marta Grostein, coordenadora do Laboratório de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP), a tendência é que, se nenhuma providência for tomada, os únicos espaços para diversão sejam cada vez mais privados - shopping centers, bares e restaurantes - e menos públicos - praças, parques e ruas. Isso já pode ser notado hoje, mas a surpresa ruim que o futuro nos reserva é que não só a população de baixa renda, mas também a de classe média, tende a viver cada vez mais na rota casa-trabalho. Os ricos, claro, ainda poderão viajar.
Esse problema, hoje exclusivo das metrópoles, tende a se propagar para as cidades de porte médio, que ainda oferecem uma qualidade de vida razoável. Para isso, contribuem dois motivos: o descaso das autoridades com as áreas de convivência pública e a inacessibilidade a essas áreas por boa parte da população devido à falta de mobilidade de quem depende do transporte coletivo. "Mobilidade é diferente de acesso. Não adianta ter espaços adequados se a população não consegue chegar até eles", diz a urbanista. E não adianta pensar que levar o lazer para dentro da casa e do carro via internet, TV a cabo e DVD resolverá o problema. "Não podemos viver só na conexão casa-trabalho. Isso leva à segregação, à exclusão. O isolamento contraria a natureza humana", afirma Marta.
Câncer
Andrew SimpsonCoordenador do Projeto Genoma do Câncer
Infelizmente, se depender dos avanços terapêuticos advindos do Projeto Genoma, o câncer continuará a causar a morte de milhões de brasileiros em 2015. "Sim, em 14 anos nós ainda vamos morrer de câncer. Podem chamar de pessimismo. É realismo", afirma o britânico Andrew Simpson, que lidera o esforço brasileiro de seqüenciamento de genes, o maior e mais bem-sucedido projeto da história da ciência nacional.
"Até agora, nenhuma terapia gênica para tratamento do câncer funcionou e existem evidências científicas de que esse não é o caminho certo", diz o pesquisador. Para Simpson, porém, graças ao Genoma os médicos poderão detectar de forma cada vez mais rápida, simples e barata o surgimento da doença. Em vez das agressivas e, às vezes, imprecisas biópsias, tumores serão descobertos por meio do estudo das alterações genéticas do DNA retirado do sangue, da saliva ou da urina. Será uma espécie de check-up genético. Assim, os tumores malignos serão combatidos antes de a doença se espalhar pelo corpo, o que aumentará enormemente as chances de recuperação e a qualidade de vida dos pacientes. Além disso, os resultados dos exames serão mais precisos e detalhados. Essa técnica já é usada de forma experimental nos diagnósticos de câncer de próstata.
O tratamento também vai melhorar muito. "Poderemos definir os tumores conforme sua identidade genética. O câncer não será mais essa 'entidade' única. Teremos abordagens personalizadas para cada caso, enquanto hoje a doença é tratada com base em protocolos genéricos", diz Simpson, referindo-se aos tratamentos atuais que, por não serem específicos, causam efeitos colaterais quase tão dolorosos e letais quanto o próprio mal.
Defesa
Luiz Paulo Macedo CarvalhoEspecialista em tecnologia bélica
O Brasil vai precisar adquirir armamentos poderosos se quiser se proteger de algum eventual inimigo externo. Mas não estamos falando de bombas atômicas - essas talvez nunca sejam produzidas em território nacional. "A linha demarcatória entre armas nucleares e convencionais desaparecerá. Armas convencionais, desenvolvidas com base em princípios modernos e com grande poder destruidor, devem substituir as atômicas em todo o mundo", diz o coronel Luiz Paulo Macedo Carvalho, o maior entendido em tecnologia bélica do Exército nacional.
O desenvolvimento da microeletrônica e de novas formas de energia permitirá a construção de armas de enorme precisão, automáticas e muito difíceis de detectar. Um exemplo disso é uma nova granada americana que está em fase de testes. Em vez de estilhaços, ela espalha chispas de energia eletromagnética, com poder letal muito maior. Até 2015, ela deve estar nas mãos dos soldados brasileiros. A guerra corpo-a-corpo tende a acabar. As novas armas serão controladas de navios, aviões, ou mesmo do espaço. Com isso, o soldado do futuro será mais um cientista ou um engenheiro do que aquele misto de Rambo com exterminador do futuro que o cinema costuma mostrar.
Isso significa que o número de mortos nas guerras diminuirá? Talvez sim, mas surgirá outro problema. "Com ataques precisos e conduzidos a distância contra alvos previamente selecionados, cai o número de baixas, mas aumenta o risco de ocorrer a desintegração do sistema político, por causa dos danos graves nas usinas de energia, nos centros de comunicação e na rede de transportes", diz Macedo. Com isso, a população civil sai mais prejudicada que a militar.
Espiritualidade
Lia DiskinCo-fundadora da Associação Palas Athena
A professora Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas-Athena e responsável pela vinda do Dalai Lama ao Brasil, antevê um futuro de anseio espiritual. "Hoje nos relacionamos com os outros e com o universo de forma utilitária. Pessoas e coisas existem para atender aos nossos interesses. Essa é a grande patologia contemporânea, mas é também o que pode levar à busca espiritual", afirma. Entenda-se por anseio espiritual a busca de mecanismos para compreender o propósito da existência. Esses mecanismos podem ou não vir das religiões. A propósito, as religiões dogmáticas e exclusivistas deverão perder espaço no Brasil, na visão de Lia. "Estamos presenciando uma abertura, por parte das tradições religiosas, a um reconhecimento mútuo. Elas não pranteiam um paraíso perdido, mas celebram a possibilidade de ele existir na mente e no coração humanos", diz.