Ir para conteúdo | Ir para menu do site | Ir para home do site

Encarte - Prêmio Super Ecologia 2003

Superinteressante edição 190
Edição anteriorjul 2003 Edição posterior
Receba as atualizações da Super em seu RSSRSS
Outras matérias

Comunidades ONG

Banana que vale ouro

Em um quilombo na região mais pobre de São Paulo, a esperança retorna com um projeto que agrega valor à fruta, maior fonte de renda da comunidade

Por Bruno Leuzinger, de Ivaporunduva, SP

 

No Vale do Ribeira, região mais pobre de São Paulo, fica o Quilombo de Ivaporunduva, onde vivem 70 famílias. Para chegar lá, você deve dirigir por cinco horas (até Jacupiranga pela BR-116, seguindo depois rumo a Iporanga) e ainda precisa cruzar de canoa o rio Ribeira de Iguape. Longe do centro urbano, mora seu Silvestre. É o típico contador de história que só se acha no interior do Brasil, daqueles que gostam de receber as visitas para um cafezinho. A casa é simples, de pau-a-pique, mas a TV parece nova. Com a antena parabólica, dá para assistir aos jogos do São Paulo. Seu Silvestre é um dos beneficiados do projeto do Instituto Socioambiental (ISA), que vem mudando a vida da comunidade ao agregar valor ao produto que é a maior fonte de renda local: a banana.

Antes do ISA, o comércio da fruta sofria com uma praga terrível – o atravessador. "Chegava-se a vender 1 tonelada por 50 reais", diz Fábio Graf, do ISA. Junto com a associação dos moradores, o instituto deu autonomia à comunidade. Os quilombolas ganharam um caminhão, com o qual fazem entregas para a capital paulista e cidades da região. Toda semana é despachado um carregamento de 6 a 7 toneladas de banana verde. Sem o atravessador, o preço da caixa de 20 quilos pulou de 2 reais para 5 reais, um aumento de 150%. E o valor deve chegar a 9 reais em dois meses, quando estiver funcionando a câmara de climatização, que possibilitará que a banana seja vendida madura.

O artesanato de fibra da bananeira é outra alternativa de renda. O ISA doou teares e ofereceu um curso de capacitação. Na etiqueta das bolsas de palha e outros produtos do gênero, aparece a logomarca do quilombo, criada voluntariamente por uma empresa de publicidade, a Art Urb. Os moradores escolheram a imagem. "Nada é imposto, tudo é discutido", afirma Fábio. A coordenação das tarefas foi delegada aos jovens. Alexandro é encarregado do comércio da banana, Paulão cuida do artesanato e a coleta seletiva de lixo fica com Olavinho, o mais falante dos três. Com a eloqüência desenvolvida como guia turístico na região, ele dá palestras na escola local sobre reciclagem. "Se a gente não ajuda, o pessoal fica cego, sem informação", diz Olavinho.

Recentemente, o quilombo alcançou outra grande conquista: a certificação orgânica de 39 produtores de banana, que lhes permitirá cobrar um preço melhor por seu produto, graças ao valor cultural, social e ambiental embutido. Seu Silvestre é um desses produtores. "O projeto é ótimo", afirma. "Antes, sobrava banana, acabava estragando. Agora, chega a faltar." Ele conta que até tentou a sorte no Rio de Janeiro, buscando fugir das dificuldades, mas ficou lá apenas 17 dias. Hoje, está feliz em Ivaporunduva. "Só saio daqui quando morrer." A vida continua difícil, mas já existe esperança nos sorrisos quilombolas.

 

 

Capa de Super 254 Leia a Super 254
Publicidade
Anuncie
topo
Superinteressante

[1987 - 2008] Editora Abril S.A.

Todos os direitos reservados.