Ir para conteúdo | Ir para menu do site | Ir para home do site

Supernovas

Superinteressante edição 190
Edição anteriorjul 2003 Edição posterior
Receba as atualizações da Super em seu RSSRSS
Outras matérias

Estado de Emergência

Santuário ameaçado

José Augusto Lemos, de Cruzeiro do Sul

 

Chico Mendes gostaria de ter visto o Encontro dos Povos da Floresta do Alto Juruá, realizado em abril em Cruzeiro do Sul, no Acre – quando índios, seringueiros, ONGs, o Ibama, a Funai e o Ministério do Meio Ambiente passaram quatro dias debatendo problemas e procurando soluções.

Tudo corria em clima amigável até entrar em debate o futuro de uma das mais ricas reservas ecológicas do mundo, motivo de briga há mais de dez anos. Ali, onde a floresta se encontra com os Andes, está o mais alto índice de espécies animais (1233) e vegetais (720) da Terra – e esses números são só o começo, falta muito o que conhecer por lá. Com isso, talvez não exista local mais estratégico para a conservação do planeta.

Em 1989, a área, de 843 mil hectares, virou o Parque Nacional da Serra do Divisor. Mas o projeto nunca saiu do papel. O impasse dura meia década. O plano de manejo do parque prevê um mínimo de presença humana, reservando-o para pesquisa, ecoturismo controlado e projetos de educação ambiental. Mas não diz como nem onde reassentar as 522 famílias que habitam a área.

Enquanto não se resolve a pendenga, o santuário permanece fechado, sem estrutura para turismo (que geraria recursos para a conservação) e espécies raras correm risco de extinção. Para piorar, o parque, na fronteira com o Peru, se tornou fonte de contrabando de madeira, carne e pele de caça, e porta de entrada de quase toda a pasta de cocaína que vem ser refinada no Brasil.

Como então desatar o nó? O Ibama prevê manter 25 famílias, contratando nas que melhor conhecem o território seus fiscais e agentes florestais. O destino das 497 restantes, chave do problema, é uma questão cercada de desconfiança. Os moradores não querem abandonar seu paraíso nem mesmo quando, segundo desabafo no encontro, os invasores aliciam seus filhos pré-adolescentes para o tráfico e a prostituição.

Em agosto do ano passado, foi criado um conselho para que representantes de todos os lados compartilhem a decisão. Aí se concentram as esperanças de um acordo até agosto de 2004 , prazo concedido pelo governo federal. Surgiram duas propostas, ambas bem recebidas no encontro.

A primeira foi apresentada pela principal autoridade acadêmica em Alto Juruá, o antropólogo Mauro Almeida, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mauro propõe transformar os entornos do parque em reservas extrativistas, modelo de conservação florestal que permite exploração econômica controlada.

A segunda alternativa foi defendida por uma lenda viva da história contemporânea do Acre, o indigenista e sertanista Antonio Luis Macedo. Ela prevê maior interferência na natureza do parque, transformando-o em "reserva mista" – o que dividiria a maior parte do território em reservas extrativistas, preservando intacta apenas a serra onde estão as nascentes do rio Juruá e as raras espécies andinas e subandinas.

Uma dessas propostas, ou a combinação de ambas, poderá, enfim, trazer um final feliz para as tragédias que rondam o parque. Parceiros há duas décadas, Mauro e Macedo são bem quistos pela população local e podem ajudar o conselho a chegar a um consenso decisivo para a história da ecologia brasileira e mundial.

 

AVES

Há no parque cerca de 485 espécies de aves. Desse total, algumas precisam de especial proteção: três são totalmente novas para a ciência, quatro estão ameaçadas de extinção, 23 de aves migratórias e seis consideradas raras

 

POPULAÇÃO

Índios katukinas, araras, nauas e nuquinis dividem o parque com caboclos. No total, são 522 famílias

 

FLORES

Destaque para a fartura de espécies de orquídeas e bromélias, acantáceas e aráceas (grande família dos filodendros e antúrios), todas de alto valor ornamental

 

INSETOS E ARANHAS

Das 299 espécies de aranhas, algumas são inéditas para a ciência. Há também 161 espécies de abelhas, vespas e formigas. Delas, 64 são do grupo das abelhas sem ferrão, número que supera todo o resto do planeta

 

ÁRVORES

Foi encontrada uma espécie nunca antes identificada de árvore. Só de palmeiras, foram encontradas 51 espécies, o equivalente a 70% do total da Amazônia Ocidental. O parque contém dez tipos diferentes de florestas

 

O PARQUE

O Parque Nacional da Serra do Divisor fica no extremo noroeste do Brasil, onde o Acre faz fronteira com o Peru. Ali se formam as cabeceiras do Rio Juruá, um dos principais afluentes do Amazonas – daí o nome pelo qual a região é conhecida: Alto Juruá

 

MAMÍFEROS

Há 98 espécies. Entre elas, o maior morcego das Américas, com um metro de envergadura. Têm valor especial as 14 espécies de primatas (de um total de 17 para toda a Amazônia), 5 delas ameaçadas de extinção

 

RÉPTEIS E ANFÍBIOS

Das 40 espécies de répteis e 100 de anfíbios, as mais ameaçadas são as que fazem parte da alimentação dos moradores do parque: jabuti e jacaretinga. O total de espécies deve chegar a 150 quando terminar a catalogação

 

 

Capa de Super 254 Leia a Super 254
Publicidade
Anuncie
topo
Superinteressante

[1987 - 2008] Editora Abril S.A.

Todos os direitos reservados.