
Hitler venceria a batalha de Stalingrado, durante a Segunda Guerra Mundial, e a Alemanha dominaria a Rússia. A luta na Rússia teria sido rápida, conforme o planejado. Cerca de 150 anos antes do líder nazista, Napoleão não teria sofrido, no mesmo local, sua maior derrota. O destino desses grandes personagens da história teria sido outro se não fosse por um importante vilão: o inverno russo. Hitler perdeu cerca de 600 mil homens por causa do frio. Napoleão, mais de 300 mil. As baixas marcaram a derrota dos dois. Mas tudo teria sido diferente se não houvesse as quatro estações do ano tal qual conhecemos hoje.
E seria possível não haver as estações? Sim. Na verdade, a atual distribuição das estações é mantida por um acaso astronômico: o eixo de rotação da Terra é levemente inclinado em relação ao plano do Sol. Esse pequenino detalhe, definido há bilhões de anos, é que gera as estações (leia infográficos). Se o eixo da Terra fosse perpendicular ao Sol, o clima seria constante em cada região do planeta. A falta de variação reforçaria os climas em cada região. Os trópicos seriam ainda mais quentes e riquíssimos em vida vegetal e animal (as horas a mais de sol favoreceriam a fotossíntese).
As regiões de clima temperado, que, no Brasil, vai de São Paulo ao Rio Grande do Sul, viveriam uma eterna primavera. E os pólos, onde só haveria um sol fraquinho o ano todo, ficariam frios e desertos. A temperatura seria mais baixa que a média atual, entre -30 0C e -40 0C, e a vida que hoje existe por lá desapareceria, ou migraria para regiões mais quentes. Os banhistas de Mar del Plata, no litoral argentino, talvez disputassem espaço na areia com pingüins e leões marinhos. No mundo animal, haveria outras mudanças. As grandes migrações, por exemplo, não existiriam. Afinal, o que faz gansos voarem por milhares de quilômetros todos os anos é o inverno e a escassez de comida e calor que ele traz.
Para nós, brasileiros, a mudança eliminaria alguns maus hábitos causados pela importação de costumes do hemisfério norte. Nossa ceia de Natal, por exemplo, deveria ser leve, já que aqui a data coincide com o verão. Mas copiamos a ceia do norte, feita para o inverno, com carnes gordas e frutas secas. Essa defasagem desapareceria, já que regiões de mesma latitude, ao norte e ao sul, teriam clima parecido.
Os calendários também seriam diferentes e talvez o ano nem tivesse a duração atual. O ano de 365 dias foi criado pelos babilônios, um povo que viveu há 6 mil anos onde hoje fica o Iraque. Com relógios de sol, eles perceberam que a sombra dos objetos variava com a passagem dos dias, completando um ciclo a cada 365 dias. E viram que havia quatro mudanças de clima nesse período. Nasceu assim o ano das estações. Sem essa variação, a passagem do tempo poderia ser organizada de outra forma, e hoje poderíamos ter um ano mais longo ou menor.
Algumas datas religiosas teriam que ser revistas. A Páscoa cristã, que comemoramos este ano no dia 20 de abril, precisaria de outro critério para ser marcada. Embora seja uma data cristã, ela é calculada com base nas estações: acontece no primeiro domingo depois da primeira lua cheia após a entrada da primavera no hemisfério norte. Adeus, coelhinhos de chocolate.
Sempre frio
Sem a variação de luminosidade, os pólos seriam ainda mais frios do que hoje, e provavelmente as calotas polares seriam mais espessas e extensas. Em um clima assim, nem pingüins conseguiriam viver. Eles migrariam para regiões mais quentes, ou simplesmente seriam extintos
Eterna primavera
Nas regiões onde hoje as estações são bem marcadas, o clima ficaria estacionado no que hoje se conhece como primavera ou outono, ou seja, uma meia estação. A paisagem, que atualmente varia ao longo do ano seguindo as estações, seria permanente, como é nas regiões tropicais, onde não há tanta variação de temperatura
Calorão
Aqui os raios solares incidiriam verticalmente durante o ano todo. O deserto do Saara provavelmente seria ainda mais seco e quente. Mas o mar, coalhado de algas, seria ainda mais rico nos trópicos, sustentando boa parte da vida do planeta
A representação do globo terrestre seria diferente, sem a inclinação
Mais luz no norte
Em julho, a luz solar incide mais diretamente sobre o hemisfério norte. É verão por lá. Na Groenlândia, o gelo se derrete e a vegetação cresce. Londrinos, nova-iorquinos e berlinenses tomam sol nos parques
Verão brasileiro
Em janeiro, é o hemisfério sul que está mais exposto à luz solar. É verão no Brasil, na Austrália e na África. As calotas de gelo que circundam a Antártida recuam, os pássaros migram para o sul e as praias ficam cheias
Sempre igual
Se o eixo de rotação da Terra fosse perpendicular ao Sol, cada região do planeta receberia a mesma quantidade de calor durante o ano todo. O clima de cada região seria determinado apenas pela latitude, ou seja, a distância da linha do equador