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Conteúdo extra da edição 225 da Superinteressante

A língua solta

Enquanto você lê esta frase, o idioma se transforma - e nada pode ser feito contra isso. Portanto, relaxe e conheça os fascinantes mecanismos que mantêm a língua viva

Marcos Nogueira
Você fala direito? Aposto que sim. Mas aposto também que, no calor de uma conversa animada, você já se flagrou engolindo o "r" de um verbo no modo infinitivo. A letra "s", quando indica plural, costuma ser devorada nas rodas mais finas de bate-papo - especialmente em São Paulo. Já os mineiros (até os doutores!) traçam sem piedade o "d" que compõe o gerúndio. No país todo, come-se às toneladas o primeiro "a" da preposição "para". A primeira sílaba de todas as formas do verbo "estar", então, essa já é uma iguaria difícil de achar. Portanto, poucos se espantam ao ouvir uma frase assim:

- Num vô consegui durmi purquê os cara tão tocano muito alto.

Isso é errado?

Depende. Se os seus olhos quase saltaram da órbita ao fitar a frase acima, leia em voz alta para perceber que ela não soa tão absurda. Expressões como "tocano" e "vô consegui" atentam contra a norma-padrão da língua portuguesa - ensinada na escola para preservar um código comum a todos os falantes do idioma. Do ponto de vista da lingüística, entretanto, elas são só objetos de estudo. Retratam fielmente aquilo que o português brasileiro é hoje. E fornecem pistas sobre o que a língua padronizada pode vir a ser daqui a 10, 100 ou 1 000 anos.

"Um biólogo nunca diria que uma bactéria está errada", afirma o lingüista Ronald Beline, da USP. A lingüística - ciência que estuda a linguagem assim como a biologia se ocupa dos seres vivos - tampouco pode dizer se uma palavra está certa ou errada. De certo modo, a linguagem também é um organismo vivo. Elementos lingüísticos, como células, nascem e morrem o tempo todo, modificando o sistema. Em todos os idiomas, palavras se alongam, encurtam e trocam de significado; expressões são criadas enquanto outras perdem a razão de existir; substantivos, verbos, adjetivos e advérbios emprestam sentido uns aos outros.

Embora a lingüística esteja longe de ser uma ciência exata, ela já foi capaz de identificar regras mais ou menos fixas no comportamento errático da linguagem verbal. Os mecanismos que regem essas metamorfoses são analisados no livro The Unfolding of Language ("O Desdobramento da Linguagem", sem tradução para o português), uma das poucas obras digeríveis para quem não é familiarizado com o tema nem com o jargão de quem o estuda. Segundo seu autor, o israelense Guy Deutscher, a linguagem é "um recife de metáforas mortas". Mergulhemos então para explorar esse recife.

 

 

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