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O último projeto de Steve Jobs

Steve Jobs idealizou o Apple Park ainda antes de morrer. Conheça os bastidores da obra mais ousada do planeta: a nova casa da Apple.

“É um pouco parecido com uma nave espacial”, explicou Steve Jobs diante do conselho municipal da cidade de Cupertino, na Califórnia, em 7 de junho de 2011. Já bastante enfraquecido pelo câncer, Jobs reuniu forças para ir pedir à cidade autorização para realizar seu grande sonho: construir uma nova sede para a Apple. Uma sede que fosse elegante, funcional e diferente – o mesmo que os produtos da Apple buscam ser. Depois de reinventar os computadores e os celulares, Jobs queria reinventar os escritórios. “Nós temos a chance de construir o melhor prédio comercial do mundo”, argumentou. Foi sua última aparição pública. Quatro meses depois, em 2011, Jobs morreu. No final de 2013, a cidade finalmente deu permissão para a obra – que é uma das mais ambiciosas de todos os tempos. E caras também. O complexo, que se chama Apple Park, e será inaugurado em abril de 2017, tinha previsão de custar astronômicos R$ 11,6 bilhões. É três vezes mais do que o Burj Kalifa, em Dubai, prédio mais alto do mundo.

Para tocar o projeto, a Apple contratou em 2010 o escritório do arquiteto britânico Norman Foster, o Foster + Partners, que tem no currículo obras como o aeroporto de Hong Kong, o novo estádio de Wembley, em Londres, a Hearst Tower, em Nova York, além do projeto de restauração do parlamento alemão, em Berlim. A empresa montou uma equipe de 50 arquitetos, que se reunia a cada três semanas com Jobs para tentar dar forma àquilo que ele tinha em mente. O que ele queria? Uma característica típica dos produtos da Apple: o mínimo possível de emendas. Jobs sonhava com um imenso disco de vidro que parecesse formado por uma só peça. Para atender a esse pedido, os arquitetos procuraram a Seele, uma fábrica alemã de vidros. Ela criou as famosas escadas “invisíveis” presentes em muitas lojas da Apple e também construiu o cubo de vidro que envolve a principal loja da marca, em Nova York.

Não foi uma tarefa fácil. As paredes da nova sede da Apple serão formadas por enormes placas de vidro côncavo com 12 metros de altura cada uma, que serão dispostas lado a lado. No total, serão precisos 6 quilômetros de vidro para formar o anel. A Seele teve que dobrar sua capacidade de produção, e criar uma técnica especial que permita dobrar o vidro sem precisar aquecê-lo, como normalmente é feito. A fachada de vidro será toda construída na fábrica da empresa na cidade de Gersthofen, na Alemanha, e despachada para a Califórnia. “Não há uma única peça de vidro plano em todo o prédio”, se gabou Jobs.

O chefão da Apple se envolveu muito com o projeto, e foi difícil bater o martelo sobre o design final. Ele mudava muito de opinião, repetindo um padrão clássico de comportamento. Jobs sempre foi conhecido por grandes mudanças de ideia – aquilo que um dia era ótimo, no próximo podia virar “merda” (termo que Steve adorava usar). E vice-versa. Inicialmente, o prédio não era circular. Sua forma era alongada, mais parecida com a de um circuito oval de corrida, e ele tinha um grande corredor no meio. Mas um comentário de Reed Jobs, filho de Steve, mudou tudo. Ao ser apresentado ao projeto, o garoto, então com 19 anos, olhou o corredor central e foi franco: “parece um pinto!”. Na hora, Jobs pai ignorou a obervação, mas, no dia seguinte, mandou os arquitetos mudarem completamente o desenho. “Infelizmente, uma vez dito isso, vocês nunca conseguirão tirar a imagem (de um pênis) da cabeça”. Foi aí que o prédio evoluiu para sua forma definitiva.

Aniversário de Steve Jobs (nasceu em 1955)

(Divulgação)

Além do edifício principal, apenas quatro outros elementos serão visíveis: uma entrada para um auditório subterrâneo com capacidade para mil pessoas, um edifício garagem de quatro andares, uma academia e dois laboratórios para a realização de testes (como experiências com as antenas do iPhone). Visto de cima, o complexo é minimalista.

“A forma de anel permite o contato simultâneo do interior com o exterior, estabelecendo um nível de permeabilidade visual, sem um efeito de clausura”, diz Mario dos Santos Ferreira, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC-RS. Para ele, a nova sede da Apple não se encaixa em nenhum estilo arquitetônico existente. “Assim como as grande obras hoje, a arquitetura proposta para a Apple segue a linha de atuação da própria empresa: inovação, tecnologia e design”, diz.

Como a sede é muito grande, terá apenas quatro andares, mas mesmo assim capacidade para 12 mil pessoas. Isso vai na contramão da tendência atual, que é empilhar pessoas (dos dez prédios mais altos do mundo, sete foram construídos na última década). Além disso, cerca de 80% da área do local será coberta por vegetação. Serão nada menos do que 7 mil árvores (o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, tem aproximadamente 16 mil). Trezentas e nove espécies foram selecionadas. Na parte externa do círculo, serão vários tipos de carvalho e oliveiras. No miolo, espécies frutíferas que formarão um espécie de pomar. Será possível encontrar cerejas, ameixas, caquis e maçãs. Próximo ao café, serão plantados vários tipos de ervas, que servirão para fazer chás. Os funcionários poderão se alimentar num gigantesco refeitório, com nada menos do que 2.750 lugares, ou em 1.750 bancos dispostos pela área externa, para refeições ao ar livre.

Aniversário de Steve Jobs (nasceu em 1955)

(Divulgação)

Os jardins estão a cargo do arborista Dave Muffly, da Universidade Stanford. Ele tem viajado pelos Estados Unidos buscando produtores que ofereçam todas as espécies necessárias de árvore e, para não chamar muito a atenção, às vezes se identifica usando pseudônimos. Atualmente, o terreno onde a sede será erguida tem 4.506 árvores. Cerca de mil delas serão extraídas, plantadas em outros lugares e transplantadas de volta para o local original quando a obra estiver pronta, em 2016. O destaque são os pés de damasco, um pedido especial do fundador da Apple. “Você podia vê-los em todos os lugares, até nas esquinas. Eles são parte da tradição do vale (do Silício)”, disse em sua biografia, Jobs.

Não serão apenas as plantas que deixarão o Campus 2 mais verde. O prédio foi concebido para ser o menos agressivo possível ao meio ambiente. Quase 80% do lixo será reciclado, e o complexo tentará ser autossuficiente na produção de eletricidade. O telhado do disco principal será coberto por 65 mil metros quadrados de células fotovoltaicas, capazes de transformar a energia solar em até 8 megawatts de eletricidade (o suficiente para alimentar 4 mil casas). Talvez não seja o bastante, e por isso a Apple está buscando fornecedores de mais energia – mas só de fonte solar ou eólica. A região, sul da Baía de San Francisco, ajuda: não faltam sol e vento. O prédio também será capaz de responder ao clima para economizar energia. Durante a maior parte do ano, usará ventilação natural, e suas janelas se abrirão e fecharão automaticamente para controlar temperatura e iluminação nas áreas internas.

NÓ NO TRÂNSITO

Mesmo com todas as precauções, o Campus 2 terá um impacto gigantesco sobre a cidade. A atual sede da Apple, que foi construída em 1993 (quando Steve Jobs estava fora da empresa) e também fica em Cupertino, tem 79 mil metros quadrados e abriga 4.800 funcionários. Mas a nova sede será muito maior: terá 260 mil metros quadrados e reunirá 14 mil pessoas. Por isso, segundo um estudo feito pela prefeitura, o Apple Campus 2 poderá dar um verdadeiro nó no trânsito local. O complexo terá 10.500 vagas de estacionamento, e deverá gerar 35 mil novas viagens de carro por dia, o que é muito para uma região já sufocada por congestionamentos (gerados, em boa parte, pelas empresas do Vale do Silício).

Aniversário de Steve Jobs (nasceu em 1955)

(Divulgação)

Isso provocará fortes consequências ambientais. Os carros e a operação da sede irão emitir 38 mil toneladas de CO2 a cada ano, equivalente à poluição gerada por 2 mil casas. Para tentar amenizar isso, a Apple investirá US$ 66 milhões para melhorar estradas, ruas, calçadas, ciclovias e parques e US$ 35 milhões em programas que incentivam os empregados a deixar o carro em casa. A empresa espera que 4 mil funcionários se locomovam a pé, de bicicleta ou transporte público. Para não atrair ainda mais gente, como curiosos e turistas, o Campus 2 será fechado ao público (se você queria visitar, esqueça).
Quando o complexo ficar pronto, vai fechar um ciclo. Isso porque o terreno onde será construído pertenceu à HP, uma das fundadoras do Vale do Silício – e empresa que inspirou Jobs durante toda a sua vida. “Steve botou muito amor e atenção (no projeto) antes de morrer”, disse Tim Cook, CEO da Apple. Construir um prédio ali tinha um sabor especial para Jobs porque ele admirava a história da HP, como William Hewlett e Dave Packard haviam conseguido criar uma empresa na garagem de casa, em 1939, e transformá-la em gigante. Exatamente o mesmo que Jobs fez com a Apple, 37 anos depois.

Casas rivais

Outras gigantes da tecnologia também preparam novas sedes

GOOGLE

Onde – Mountain View, Califórnia

Como é – O Google recuperou 168 mil metros quadrados de terreno pantanoso, que não era adequado para construção, e irá erguer um conjunto de nove prédios, dispostos em formato de bumerangue. O complexo terá vários sistemas de controle ambiental (como a própria estação de tratamento de esgoto).

FACEBOOK

Onde – Menlo Park, Califórnia

Como é – Vai abrigar 2.800 engenheiros em um enorme galpão, sem paredes nem divisórias, onde as mesas poderão ser movidas e reconfiguradas de acordo com a necessidade dos projetos. Terá um grande jardim suspenso na área externa e uma trilha para caminhadas no telhado. A inauguração está prevista para o primeiro semestre de 2015.

SAMSUNG

Onde – San Jose, Califórnia

Como é – Um complexo de prédios com capacidade para 2.500 funcionários, 335 mil metros quadrados e muitos espaços abertos, com jardins em quase todos os andares. A construção será feita de aço branco, que reflete o calor e reduz o uso de ar-condicionado. A obra vai custar US$ 300 milhões e deve ficar pronta em 2015.