A poderosa ciência de fundo de quintal

Mísseis, turbinas, robôs e microscópios poderosos - tudopode ser feito por você mesmo nas horas vagas. Conheça os aventureiros que estão mudando a ciência sem sair de casa

por Eduardo Azevedo

Desde que o capitão Nemo construiu seu submarino particular, o sofisticadíssimo Nautilus, e o doutor Frankenstein criou seu próprio monstro, a literatura, o cinema e outras formas de arte não pararam mais de encantar o ser humano com a idéia de possuir algo feito com as próprias mãos. Nos quadrinhos ou em Hollywood, sempre se apostou no item exclusivo, construído artesanalmente e que muitas vezes não é permitido ao cidadão comum. Algo que o herói faz sozinho em seu esconderijo e que está longe de se parecer com os artigos aprovados pelos órgãos de defesa do consumidor. Afinal, por mais que o apoio de um conglomerado financeiro facilite as coisas, dificilmente o público aceitaria a idéia do Batman ter construído seu carrão negro cheio de metralhadoras graças ao patrocínio de uma montadora.

Mas até onde iria uma pessoa para ter, na vida real, o prazer de se tornar um inventor digno das melhores obras de ficção? A maioria talvez se contente em, de vez em quanto, construir uma casinha nova para o cachorro. Mas um olhar profundo nas residências do planeta Terra revela que existe, sim, quem veja o quintal como um laboratório de ponta. São pessoas de diversas nacionalidades e classes sociais que têm em comum a crença de que nenhum experimento é ousado demais. Não hesitam em encarar projetos que envolvam alta tecnologia, equipamentos de última geração e que, por isso mesmo, geralmente são realizados apenas por universidades, grandes empresas e seus pesados orçamentos.

A vitrine e a universidade desses inventores é a Internet. Lá eles encontram sites e fóruns para trocar experiências e tirar dúvidas sobre assuntos que não são tratados em nenhum outro lugar. Mesmo que nenhuma livraria tenha o manual Como Encontrar Material Radioativo, essa e outras questões podem ganhar uma resposta se você digitar as palavras certas em um site de busca ou fazer perguntas em listas de discussão. Pode até demorar um pouco, mas inevitavelmente aparece alguém explicando como comprar e quanto custa um torrão de urânio.

O maluco do míssil

Até onde você iria para se vingar de alguém que o chamou de mentiroso? Provavelmente não tão longe quanto o neozelandês Bruce Simpson: ele construiu um míssil. É um cruise missile – um projétil de médio alcance, até então exclusivo das forças armadas de superpotências. O míssil de Simpson é capaz de voar uma distância de 150 quilômetros a uma velocidade de 600 quilômetros por hora, transportando uma carga de até 10 quilos. Mas, segundo o inventor, poderia evoluir para uma unidade bem maior e mais potente.

Tudo começou quando Bruce escreveu um artigo em que afirmava que terroristas não precisavam roubar aviões para causar destruição em grande escala. Eles poderiam simplesmente construir um míssil e lançar armas químicas em um ponto estratégico. Muita gente ridicularizou sua afirmação, dizendo que um míssil caseiro e barato era algo impossível de ser feito, mesmo que por terroristas bem equipados. “Virou questão de honra. Eu tinha que mostrar pra eles quem é que estava certo”, diz. E foi para a sua garagem provar o que estava dizendo.

A descrença foi tanta que até a CIA (Agência de Inteligência americana) e o governo da Nova Ze-lândia ignoraram as cartas que o “maluco do míssil” – como Simpson ficou conhecido – enviou pedindo permissão para seu projeto. O que eles não sabiam é que o sujeito não era um simples inventor, mas uma espécie de ícone para os amantes da ciência do “faça você mesmo”. Ele já havia demonstrado ser capaz de elaborar projetos inovadores (e praticamente impossíveis) em áreas completamente distintas – e até ganhar bastante dinheiro com isso. Em 1977, havia criado um sistema de navegação por satélite, um anos antes do primeiro satélite de GPS subir ao espaço e muito antes dos primeiros aparelhos de localização por satélite se tornarem populares. Em 1991, desenvolveu um sistema pelo qual todo aparelho de fax poderia ter seu endereço de e-mail, possibilitando que uma pessoa mandasse e recebesse mensagens eletrônicas mesmo não tendo um computador. E em 1999, fez fortuna com a criação de uma empresa virtual para envio de notícias a mais de 250 mil sites da web.

Simpson concluiu o protótipo de seu míssil em 1993 e começou a divulgar o feito. Colocou um anúncio na Internet dizendo estar disposto a viajar para qualquer país e construir o projétil para quem estivesse interessado, não importando a ideologia política ou religiosa. O comprador precisaria apenas pagar sua passagem e hospedagem, além da matéria-prima necessária. Ele rapidamente se tornou uma celebridade e conseguiu a publicidade que queria, além do assédio de potenciais compradores. Uma empresa iraniana chegou a oferecer 100 mil dólares pelo repasse da tecnologia, mas a proposta não foi aceita porque, segundo Simpson, parecia muito arriscado, já que não estava claro o que eles pretendiam fazer com o míssil.

O caso deixou o Pentágono boquiaberto. Não tardou até que militares americanos mandassem mensagens para as autoridades neozelandesas e para o próprio Simpson, pressionando para que tamanha insensatez acabasse imediatamente. Conhecido por seu posicionamento pacifista, o governo da Nova Zelândia resolveu acatar o conselho norte-americano e intervir diretamente. Como não havia nenhum artigo na Constituição que proibisse um cidadão de montar e testar seu próprio projétil, as autoridades locais inventaram uma “taxa de construção de míssil”, que deveria ser paga em parcelas mensais por dois anos. Apesar do altíssimo valor, Simpson afirma ter pago a taxa rigorosamente por um ano e três meses, sendo então surpreendido por uma brusca mudança nas regras. “O governo neozelandês percebeu que eu ia mesmo vencer, daí resolveu que as nove parcelas restantes deveriam ser quitadas de uma só vez, o que me levou à falência”, diz o inventor.

Apesar de esse ser o verdadeiro motivo para Simpson estar proibido de testar seus mísseis em território neozelandês, algumas páginas na Internet chegaram a especular que ele tivesse sido assassinado pelo governo americano. “Eu estou vivo, sim, e não desisti da idéia de fazer meus mísseis. Basta que apareça um comprador em que eu confie, não um terrorista”, diz Simpson. Enquanto isso, ele se dedica a outro projeto de fundo de quintal: quebrar o recorde de velocidade em terra de seu país com um superveículo a jato que está construindo.

Jackass da ciência

O americano Erik Hunter parece um jovem normal, prestes a terminar seu curso de engenharia na The Colorado School of Mines. Mas, entre os estudantes dessa universidade, ele é mais conhecido como o imprevisível criador do site Dangerous Laboratories (“laboratórios perigosos”, no endereço www.dangerouslaboratories.org), uma espécie de versão científica do seriado de TV Jackass. É uma página destinada aos experimentos científicos com um pouco mais de pólvora – às vezes literalmente – no conceito. Lá está como achar urânio e outros elementos radioativos, qual a maneira correta de construir emissores de raios-laser ou como fabricar combustíveis orgânicos utilizando liquidificadores. Quando questionado sobre acidentes, Hunter afirma que nunca sofreu nada muito grave. Cita apenas alguns imprevistos com aparelhos de difícil controle, como quando desceu uma ladeira com sua jet bike (nada menos que uma bicicleta equipada com um motor a jato na garupa) sem ainda ter os freios adequados para pará-la. A experiência foi por uma boa causa: “Fazendo experimentos interessantes com baixo orçamento, pessoas como eu estão ajudando a elevar os patamares da ciência”, afirma Hunter.

Além de fazer muito barulho, deixar as pessoas assustadas e ter grande poder de impulsão, os motores a jato são o campo de estudos de muitos outros cientistas caseiros que, como Erik Hunter, não se importam com arranhões e pêlos chamuscados. O neozelandês Simon Jansens começou a estudar o assunto há pouco tempo e ficou convencido de que um motor desses melhoraria muito a sua vida. Desempregado, Jansens passa a maior parte do tempo na garagem inventando coisas. Segundo ele, esse “trabalho” é bastante desgastante e impossível de ser feito sem o combustível ideal, a cerveja. Como sua garagem é muito quente, ele percebeu que precisaria de uma maneira eficaz e rápida de gelar seu líquido predileto, isso, claro, sem ter que apelar para uma solução banal – e, portanto, sem mérito – como comprar uma geladeira. Conclusão: Jansens inventou uma turbina a jato capaz de gelar cerveja. “Na verdade, o cilindro de gás que vai para a turbina tem como efeito colateral roubar calor do ambiente, esfriando assim a água onde estão as latinhas”, diz o inventor, olhando com orgulho para suas latas de Guinness a 2 graus centígrados. Segundo ele, esse projeto chegou a um equilíbrio perfeito, já que a cerveja exige a existência do motor a jato e, uma vez que se tenha um motor a jato soltando fogo na garagem, é impossível ficar lá dentro sem tomar a cerveja. “Uma coisa puxa a outra. É muito bonito”, afirma.

Mas nem todos os casos de ciência transviada acabam com bom humor e bebedeira. Em 1995, David Hahn, um americano de então apenas 16 anos, tentou construir em casa seu próprio reator nuclear. Utilizando como base a obra The Golden Book of Chemistry Experiments (cuja tradução literal seria “O Livro de Ouro dos Experimentos Químicos”) e a ajuda de seu professor de física, David juntou equipamentos para montar um reator como os utilizados em 1950 – ironicamente, o mesmo modelo de Chernobyl. Ele não conseguiu concluir sua obra, mas juntou material radioativo suficiente para fazer as autoridades norte-americanas acreditarem que os 40 mil habitantes de Golf Manor, sua cidade, no Estado de Ohio, estivessem contaminados. O próprio garoto teve vários ferimentos e uma explosão quase o deixou cego.

O que mais chocou os especialistas em contenção desse tipo de acidente é que o garoto não teve que apelar para organizações terroristas ou coisas do gênero para conseguir material radioativo. Suas amostras de rádio, tório e outros elementos perigosos vieram de lanternas de camping, detectores de fumaça, relógios antigos e outros objetos comuns. Seus pais, em processo de divórcio, não viram o que se passava no quintal e só perceberam a gravidade da coisa quando homens vestidos com roupa de astronauta e emblema de “perigo, radiação” invadiram sua casa e levaram os materiais de David para o deserto, onde foram trancados em caixas de aço.

Desafiando a grande indústria

Nem tudo o que os cientistas amadores fazem necessariamente solta fogo ou explode – apesar de, convenhamos, isso ser bastante comum. Alguns projetos, mesmo que sofisticados, não têm o apelo de uma bicicleta a jato ou de um míssil e dão mais satisfação para quem faz do que para quem vê. As invenções do texano David Anderson, por exemplo, raramente são notadas. De vez em quando, recebem um ou outro olhar desconfiado quando ele as leva para dar uma volta nas ruas áridas de Dallas. Anderson é geólogo, mas seu passatempo é construir robôs, sendo o mais recente deles chamado de nBot. Para quem não é do meio, o nBot não passa de um ser de metal baixotinho que, apesar de só ter duas rodas, não cai nunca, mesmo que você o empurre para trás. Mas, no ramo da robótica, isso é muita coisa. Essa habilidade de se auto-equilibrar sem a ajuda de orientação humana, inclusive em terrenos irregulares, deu ao nBot destaque em revistas especializadas e um prêmio da NASA no quesito “robôs caseiros”.

Quando Anderson concluiu o nBot não havia nenhum outro com as mesmas habilidades em todo o planeta. “Existia apenas um na Europa, chamado Joe le Pendule, que tinha o mesmo princípio de equilíbrio, mas era guiado por controle remoto. Ou seja, não era independente como o nBot”, diz. O simples desafio de provar para si mesmo que ele podia construir uma máquina dessas levou Anderson a se trancar em sua garagem por meses até que conseguisse alcançar seu objetivo. Segundo ele, vários especialistas em robótica concordam que hoje os robôs feitos em casa estão no mesmo patamar tecnológico de alguns feitos por grandes laboratórios. “Ou seja, pessoas como eu estão ajudando de alguma maneira a melhorar essa área do conhecimento humano”, diz Anderson.

Outro grupo que também consegue rivalizar com os grandes centros de pesquisa são os alemães do SXM Team, da Universidade de Muenster. Eles criaram uma página na Internet que ensina a construir um dos aparelhos que mudou o jeito de se fazer ciência no mundo: o microscópio de tunelamento ou STM (Scanning-Tunneling-Microscope). Invenção que rendeu o prêmio Nobel de física de 1986 aos pesquisadores Heinrich Rohrer e Gerd Binnig, do laboratório da IBM em Zurich, Alemanha, o STM é um instrumento que revela ao olho humano elementos em nível molecular e mesmo atômico, desvendando assim a estrutura de cada ser vivo, rocha ou mesmo do ar.

A idéia inicial do projeto surgiu em 2001 quando um dos apresentadores do Quarks & CO – programa de televisão sobre ciência, bastante popular na Alemanha – disse que, apesar de revolucionário, o STM parecia um aparelho simples e perguntou por que um cientista não desenvolvia um desses a baixo custo e de fácil manuseio, que pudesse ser operado por qualquer estudante. O desafio estava no ar e, um mês depois, o SXT Team apareceu em rede nacional com o seu protótipo. O próximo passo foi colocar a receita do STM caseiro na Internet e disponibilizar um kit a preço de custo, com o material necessário para a montagem.

O número de interessados superou as expectativas, bombardeando os pesquisadores com mais de 1 000 e-mails pedindo esclarecimentos – além de cerca de 100 encomendas do kit. “São estudantes universitários, até mesmo de graduação, interessados em ciência, mas que de outro modo jamais poderiam comprar uma microscópio desses”, afirma Oliver Panzer, um dos mentores do SXT Team. Segundo ele, um STM convencional pode custar a bagatela de 100 mil dólares, enquanto a versão feita à mão não chega a mil dólares. Segundo ele, esse instrumento permite que um aspirante à carreira acadêmica comece a entender como a ciência funciona, qual o método de trabalho para se chegar a um determinado resultado e, o mais importante, se essa é mesmo a escolha certa para ele. “Só descobrimos se temos as qualidades certas para a ciência quando tentamos praticá-la. Seja nos quintais ou nas salas de aula, é preciso tentar”, diz Panzer.

Disney de jardim

O americano Jeremy Brent Reid é uma dessas pessoas que causa estranheza nos vizinhos, mas que é citado com admiração em muitos endereços virtuais. Em vez de simplesmente comprar um ingresso para a Disney, como faria um cidadão comum de seu país, Reid tomou uma atitude um pouco mais agressiva para se divertir: construiu sua própria montanha-russa no quintal de casa. Foram quatro anos de trabalho divididos entre a missão de che-gar aos cálculos matemáticos corretos, serrar 4,75 toneladas de tábuas de madeira e fixar 7 500 parafusos. O resultado foi uma engenhoca de 135 me-tros de comprimento e três quedas – além de uma silhueta diferente para o horizonte da sua rua. “Até tudo estar pronto, quando eu tocava no assunto as pessoas achavam que eu estava fazendo apenas uma maquete, não uma montanha-russa de verdade”, diz Jeremy Reid.

A idéia inicial era, segundo Reid, rechear melhor seu currículo com algo grande, complexo e que, principalmente, ninguém tivesse feito antes. Daí pra frente desenvolveu softwares 3D para construção e simulação do funcionamento de montanhas-russas que, segundo ele, trazem significativas melhorias em relação aos programas existentes e geram uma nova maneira de pensar o formato desses gigantescos brinquedos.

“Lembre-se: é mais fácil pedir perdão do que pedir permissão”

Bruce Simpson (ao lado)– construtor de um míssil

"Não ligue para o que os outros dizem. Se tivessem capacidade, eles estariam fazendo a mesma coisa que você”

Erik Hunter (ao lado) – fundador do site Dangerous Laboratories

“Ter mais equipamentos que o Dr. Frankenstein não ajuda a arrumar mulher. Mas o que faz a diferença na humanidade é a ciência, não jogar futebol americano”

Oliver Panzer – um dos criadores do microscópio de tunelamento feito em casa

“É muito mais desafiador construir uma coisa quando não existe nenhum manual dizendo como fazê-la”

Jeremy Reid – Projetou e construiu uma montanha-russa em sua própria casa

 

Vale a pena

sxm4.uni-muenster.de

www.interestingprojects.com

www.jeremyreid.com

 

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