Tecnologia

Supersecreto: Começa a surgir o avião invisível

Vem aí a nova geração de caças e bombardeiros para revolucionar as táticas da guerra no ar neste final de século: são os temíveis aviões que o inimigo não detecta.

por Pedro Cavalcanti

Como qualquer arma supersecreta que se preze, o revolucionário caça F-19 da Força Aérea dos Estados Unidos oficialmente não existe. A Companhia Lockheed não admite ter construído um aparelho como esse, capaz de mudar por completo as regras dos combates aéreos no planeta. E o próprio Departamento de Estado, embora tenha anunciado o lançamento do projeto em 1981, recusa-se agora, terminantemente, a falar do assunto.

Apesar desse mistério todo --- ou talvez por causa dele --, o interesse pelo avião-fantasma e a certeza de que existe mesmo não param de crescer. O fato de nunca ter sido visto nem fotografado só faz aumentar a curiosidade. Até porque essa invisíbilidade parece uma qualidade muito desejável para o avião como o F-19, cujo objetivo principal é justamente esse: passar despercebido. Primeiro representante de uma nova geração de aviões do tipo stealth, que em inglês significa furtivo, discreto, o F-19 pretende realizar o velho sonho dos pilotos de guerra de atravessar os sistemas de defesa inimigos sem ser detectado. Os especialistas em aviação militar afirmam não só que o F-19 é real como também é apenas um entre vários tipos de aviões invisíveis. Eles falam, por exemplo,do caça ATF (Advanced Technology Fighter), também da Lockheed, e de um bombardeiro conhecido como ATB (Advanced Technology Bomber) fabricado pela companhia Northrop. cujo primeiro protótipo deve voar no fim do ano. Seria um avião de 180 toneladas, dotado de quatro turborreatores 404 e autonomia de vôo de 10 mil quilômetros. Na forma, lembraria uma asa voadora semelhante à velha YB-49, construída pela própria Northrop nos anos 40.

É muito possível, no entanto, que esses aviões tenham formas ainda mais inesperadas do que se imagina. Segundo o engenheiro Guido Pessotti, diretor técnico da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), do ponto de vista técnico é muito possível que essa grande asa seja colocada na parte de trás do avião e a empenagem, ou seja, a asa menor na parte da frente, dando a impressão de um vôo ao contrário, como o 14 - BIS de Santos Dumont. Além disso. a asa seria flexada para a frente e não para trás, completando um desenho aparentemente esdrúxulo mas extremamente compacto - e por isso mesmo, pouco visível ao radar. "Com o progresso dos computadores de bordo consegue-se fazer voar qualquer coisa", diz o engenheiro. Numa perspectiva mais ampla, o termo stealth não se limita a esse ou àquele modelo determinado, mas designa uma filosofia que orienta atualmente os construtores ligados à aviação militar. Como explica Guido Pessotti, todos os novos aviões - e o caça ítalo-brasileiro AMX é um bom exemplo procuram incorporar o maior número possível de características invisíveis. Isto é, características que permitam ao avião enganar todos os meios de detecção, sejam eles eletromagnéticos, como o radar, a laser, infravermelhos, acústicos ou visuais. Com essa invisíbilidade, o avião poderá penetrar em qualquer sistema de defesa aéreo.Que isso é perfeitamente possível foi demonstrado pelo jovem piloto alemão Mathias Rust no último dia 28 de maio.

Rust decolou, não com algum ultramoderno caça invisível, mas com um aviãozinho Cesna 172, de Helsinki, na Finlândia. e foi aterrissar em plena Praça Vermelha, no coração de Moscou. Nos 650 quilômetros que percorreu em território soviético, atravessou, sem ser incomodado, um sistema de defesa que inclui 1500 aviões de interceptação, sete mil sistemas de alerta - desde satélites a postos de radar fixo, passando pelo avião-radar Moss - e mais dez mil mísseis antiaéreos servidos por cerca de 500 mil homens.A vitória do pequeno Cesna sobre esse formidável sistema foi talvez facilitada por falhas humanas. No dia 28 de maio, comemora-se na União Soviética o Dia da Policia das Fronteiras e, ao que parece, houve um excesso de vodca derramado em certas guarnições. Seja como for, a grande maioria dos peritos ocidentais concorda que, com a possível exceção dos aviões-radar norte-americanos AWACS, perpetuamente se alternando no ar e que examinam o espaço de cima para baixo, não há nenhum sistema capaz de detectar um pequeno avião voando devagar a baixa altura.Projetados para localizar mísseis velozes, caças supersônicos e gigantescos bombardeiros deslocando-se a milhares de metros de altitude, tais sistemas se comportam como redes de malhas grossas que apanham os tubarões mas deixam passar as sardinhas. Exemplo claro é o sistema de radares brasileiros CINDACTA.

Durante a guerra das Malvinas, em 1982, entre a Inglaterra e a Argentina, o CINDACTA foi capaz de descobrir um dos temíveis caças ingleses Vulcan, que rumava para o Rio de Janeiro, com problemas de combustível. Mas nunca mostrou grande utilidade para localizar as inúmeras rotas de contrabando freqüentadas por pequenos aviões nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.O objetivo número um da tecnologia stealth consiste, portanto, em transformar uma portentosa aeronave militar, de tal maneira que ela se comporte com a discrição de um pequeno avião de turismo. Essa transformação inclui os mais sofisticados truques, começando pelo mais óbvio, que é a aparência geral a olho nu: já que não se pode reduzir as dimensões do avião, apela-se ao velho recurso da pintura de camuflagem adaptada ao meio em que o avião deve combater - branca para regiões geladas, verde para evoluções a baixa altitude sobre matas, cinza e azul para aviões da Marinha. Outra providência é redesenhar a silhueta para que o estrondo provocado pelo rompimento da barreira do som seja o mais baixo possível. Em seguida, cuida-se dos motores, que também devem emitir pouco ruído e - mais importante do que isso - pouco calor. Esse ponto é essencial, pois é o calor dos reatores que atrai o armamento inimigo dirigido por raios infravermelhos. E uma pequena variação na temperatura produz uma diferença muito grande na discrição do aparelho. Várias soluções já foram sugeridas: colocar os reatores no dorso do avião, reforçar o sistema de refrigeração, pintar as partes mais quentes com pinturas que reduzem a emissão de raios infravermelhos - e até mesmo renunciar aos vôos supersônicos. Uma tinta especial, por exemplo, é feita de bilhões de microscópicas bolinhas que conduzem eletricidade e assim neutralizam as ondas de radar.

Os diversos tipos de rádios e radares que os aviões de guerra transportam a bordo também são uma fonte de indiscrição, na medida em que suas ondas podem ser captadas pelo inimigo. Por isso, a idéia é, na medida do possível, substituir as comunicações eletromagnéticas por comunicações a laser, mais discretas, e, nos momentos críticos, simplesmente desligar toda a aparelhagem eletrônica que não for essencial.Depois disso tudo, resta ainda o mais importante e o mais difícil: fazer com que o avião passe despercebido pelas ondas do radar. Basicamente, o radar é uma espécie de emissor de raios invisíveis; uma antena parabólica giratória que emite ondas eletromagnéticas, similares às do rádio ou da televisão, mas com um comprimento de onda muito menor. Qualquer objeto que esteja dentro de seu campo de ação recebe um banho de ondas e, ao ser iluminado, atua como um espelho, refletindo-as em direção à terra, onde são captadas por uma antena.

Como se conhece a velocidade das ondas refletidas, similar à da luz é fácil determinar a distancia em que se encontra qualquer objeto. a partir das frações mínimas de tempo que transcorrem entre a emissão e a recepção. Só uma pequena parte das ondas refletidas consegue chegar de volta à antena receptora; todo o resto se dispersa pelo espaço. Se a quantidade captada de volta é maior ou menor, depende, entre outras coisas, da forma do objeto em que as ondas se refletiram. Pode-se compreender facilmente esse fenômeno com a ajuda de um espelho de bolso, que reflete os raios solares na direção que escolhermos. Se em vez do espelho plano usarmos uma esfera coberta por uma superfície refletora, como uma bola de árvore de Natal, veremos que os raios solares se dispersam em todos os sentidos. Por esse motivo, quanto mais arredondadas forem as formas de um avião, menos ondas ele enviará de volta à antena receptora do radar e mais invisível ele será.Como um avião é feito de inúmeros tipos de superfície, como planos, esferas, cones e ogivas, é difícil calcular com exatidão a percentagem de ondas que serão recaptadas, mesmo porque variam em função do Ângulo de incidência e do seu comprimento. Dependem também do tipo de material de que é feita a fuselagem. Ligas metálicas de alumínio e titânio são altamente refletoras Plásticos à base de fibras de carbono são muito discretos. Levando em conta todas essas variáveis, é possível chegar a uma medida conhecida como SER— Superfície Equivalente Radar -, que dá uma boa idéia da visibilidade menor ou maior ao radar de determinado avião.A antiga fortaleza voadora B-52, com sua fuselagem de três metros de diâmetro, cauda de quinze metros de altura e quatro enormes motores presos nas asas, oferecia até sessenta metros quadrados de SER. Um caça dos anos 50 apresentava uma SER entre 0,11 metros quadrados e 16 metros quadrados.

Em compensação, a SER de um pássaro do tamanho de uma gaivota não vai além de 0,01 metros quadrados. Calcula-se que a SER do F-19, do caça ATF e do bombardeiro ATB norte-americanos fique nessa faixa entre a da mosca e a da gaivota. Dificilmente se poderia imaginar objetivo mais ambicioso. Para atingi-lo, o primeiro passo foi arredondar a forma do aparelho. O bombardeiro costuma ser repre- sentado como uma asa voadora, com a parte inferior convexa, de modo a espalhar as ondas de radar por todos os lados. Mas há muitas outras medidas que os seus projetis-tas devem ter tomado. Entre elas, a eliminação de certos pontos brilhantes, que atuam como espelhos retrovisores para as ondas de radar. São eles os ângulos, as cavidades como as entradas dos reatores, os cantos, as saliências dos motores ou das asas. Outra preocupação dos dese-nhistas foi com as pontas, que se comportam como antenas reemitindo a energia absorvida e veiculada pelas correntes de superfície.

Em resumo, a forma de um avião stealth deve obedecer não mais às leis da aerodinâmica e da estabilidade, mas às leis de reflexão das ondas de radar. O resultado é que o avião invisíveis é intrinsecamente instável. Isso poderia tornar muito precária a segurança do piloto, sobretudo em vôos rasantes a alta velocidade. O problema, porém, foi neutralizado pelos computadores de bordo, capazes de corrigir automaticamente qualquer engano de manobra. Em compensação, a aparelhagem eletrônica para manter o avião em segurança na rota é tão barulhenta que o avião acaba sendo captado pelos radares de terra; perde-se, assim, parte da vantagem que ele obtém por voar a baixa altura. Esse ganha-perde é rotina na inter-minável batalha que vem se travando ao longo das últimas décadas entre aviões e radares. Cada progresso conseguido por um dos lados é logo contrabalançado por uma nova conquista do adversário.

Empregados pela primeira vez durante a Segunda Guerra Mundial, os radares de início pareciam imbatíveis. Qualquer avião que sobrevoasse território inimigo caía inevitavelmente em seu campo de visão. Mas logo se imaginou uma maneira de contra-atacar. Os aviões passaram a deixar cair uma chuva de pedacinhos de papel de estanho que eram captados pelas ondas do radar. O observador via na tela uma chuva de pontos brilhantes e não sabia mais quais deles correspondiam ao avião e quais ao papel de estanho. Ainda hoje, os aviões de caça utilizam esse estratagema para desorientar os radares de mísseis adversários.

Em compensação, há muito tempo que os radares de terra mais sofisticados já não se deixam enganar por um golpe tão simples. Os operadores de radar aprenderam a analisar de diversas maneiras as ondas eletromagnéticas. Verificou-se, por exemplo, que havia uma modificação no comprimento das ondas depois que elas se refletiam num objeto metálico deslocando-se em alta velocidade. É o chamado efeito Doppler, que aparece nitidamente nos ecos provenientes de um avião, mas não se manifesta no caso do papel metálico, cuja velocidade é muito inferior. No momento em que são soltas no espaço, as tiras de papel metálico são detidas pelo ar e caem lentamente em direção ao solo. Resultado: o avião aparece claramente na tela, enquanto as imagens confusas dos papeluchos de estanho podem ser filtradas e eliminadas.

Em pouco tempo surgiram novas armas eletrônicas para enganar o radar. Uma das mais importantes foi o aproveitamento dos feixes laterais. Feixes são os pacotes de ondas emitidos pelo radar. À medida que se afastam, vão se tornando maiores. Além do feixe principal, as antenas emitem feixes laterais com energia menor. Quando um feixe lateral atinge um avião preparado para driblar a vigilância do inimigo, o piloto liga os circuitos eletrônicos que medem o comprimento da onda recebida e, automaticamente, devolvem um impulso muito mais potente.

O observador do radar acredita então que localizou o apareIho no campo do seu feixe principal - portanto, numa direção completamente diferente da qual se encontra. Se o avião entra, realmente, no âmbito do feixe principal, seus sistemas eletrônicos também dispõem de uma defesa. Podem retardar o impulso e devolvê-lo um milésimo de segundo mais tarde, de tal maneira que o observador se engane ao medir a distância. O efeito Doppler ainda pode ser utilizado para enganar o radar quanto à direção e o sentido do vôo. Comprimentos de onda maiores indicam ao observador que o avião se afasta, enquanto as ondas mais curtas significam que ele se aproxima. Mediante a manipulação desses comprimentos, é possível iludir o operador do radar, levando-o a crer que um avião está se afastando, quando, na verdade, se aproxima.

Esses estratagemas todos têm vida breve. Logo acabam descobertos pelos sistemas eletrônicos de controle das redes de radar. Às vezes, no entanto, criar um instante de ilusão é o quanto basta para decidir o destino de um combate. Se assim não fosse, os norte-americanos não estariam gastando mais de 10 bilhões de dólares nos projetos dos caças e bombardeiros invisíveis.

 

 

 

Para saber mais:

Guerreiros do ar

(SUPER número 7, ano 2)

 

Videogame voador

(SUPER número 7, ano 6)

 

Os dias dos caças

(SUPER número 10, ano 6)

 

Quando morrer era uma arma de guerra

(SUPER número 10, ano 8)

 

 

 

 

O caça fantasma ítalo - brasileiro

Na chefia de oitocentos engenheiros e responsável número um pela qualidade dos 3500 aviões que já deixaram os gigantescos hangares da Embraer, em São José dos Campos, desde 1971, o engenheiro Guido Fontegalante Pessotti, 55 anos, paulista de Piracicaba, é um entusiasta do caça a jato ítalo-brasileiro AMX -um projeto de 1 bilhão de dólares. "Na sua categoria", diz ele, "o AMX é imbatível. Dispõe de todos os recursos tecnológicos já anunciados pela imprensa e mais alguns que ainda não posso revelar."

"Desde o início do projeto", acrescenta. "tomamos todo o cuidado para fazer dele um avião com múltiplas características stealth". Algumas dessas características estão ligadas à própria natureza do aparelho. Tendo como objetivo principal o ataque a alvos no solo em plena zona de combate ou na retaguarda do inimigo, o AMX foi projetado para dar o melhor de si em vôos de baixa altura. o que lhe permite aproveitar as irregularidades do terreno para esconder-se das ondas do radar. Seus dois motores Rolls Royce RB 168-807 foram escolhidos, entre outros motivos, porque apesar da potência de 5 mil quilos, têm uma fraca emissão de raios infravermelhos.Um ponto altamente positivo foi a utilização de material compósito de fibras de carbono nas asas e em outras partes da fuselagem produzidas em São José dos Campos pela Embraer.

A utilização do material de fibra de carbono no AMX tem uma tripla vantagem: ele é mais leve que o alumínio, mais resistente que o aço e absorve as ondas de radar. Mas o que aproxima essencialmente o AMX da nascente geração de aviões invisíveis são seus vários radares de bordo, acoplados a um sistema de computadores.Ninguém fornece detalhes sobre essa tecnologia considerada altamente sigilosa. Apesar disso, sabe-se muito bem quais são as suas funcões e possibilidades. Pois o AMX vai ser empregado não apenas pela FAB mas também pela Força Aérea Italiana, que pertence à NATO. E as esquadrilhas da NATO têm algumas características comuns.É graças a esses radares e computadores de bordo que o AMX poderá, em primeiro lugar, manter se em permanente contato com as bases e outros aviões amigos, através de um código secreto; sem ele, poderia atacar ou ser atacado pelos próprios aliados. O segundo objetivo do sistema é desorientar os radares inimigos, recebendo as ondas que chegam até o avião e mandando-as de volta, depois de manipulá-las, de maneira a parecer que o aparelho está onde realmente não se encontra ou que está vindo, quando na verdade está indo. Se conseguir captar as comunicações entre aviões inimigos, poderá ainda decifrar o seu código e, então, fazer-se passar por um deles - o que é uma das maneiras mais sofisticadas de se tornar invisível.

 

 

 

A arma definitiva pode ser uma tinta

Demora tanto a aparecer visível que corre o risco de ser ultratrapassado por uma novidade ainda mais sensacional. Robert Birge, um cientista de Pittsburgh, Estados Unidos, assegura que daqui a 3 anos será possível desenvolver uma arma fulminante anti-radar. Trata-se de um tipo especialíssimo de tinta baseado em elementos químicos como os que participam das reações a estímulos luminosos no olho humano. Essa tinta seria capaz de tornar virtualmente invisível ao mais avançado sistema de radar qualquer avião, míssil, navio ou tanque pintado com ela. Ou seja, mesmo um equipamento convencional, sem o desenho típico do stealth, poderá reduzir em larga escala os reflexos do radar, desde que pintado com a tinta certa.

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