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Aleph Zero Por Bruno Vaiano Um cara que se perdeu na Wikipedia – e nunca mais encontrou a saída – desenterra curiosidades por trás do noticiário de ciência. Ex-editor da Super, 2021 AAAS | EurekAlert! International Science Reporter Fellow. 1º lugar no prêmio IMPA-SBM de Jornalismo 2020.

Como a malária mostrou que a seleção natural ainda atua sobre humanos

A doença negligenciada (que acaba de ganhar uma vacina aprovada pela OMS) deu uma vantagem darwiniana inesperada a pessoas com a forma branda de um problema chamado anemia falciforme.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 8 out 2021, 14h54 - Publicado em 8 out 2021, 14h29

(Para saber mais sobre a nova vacina contra a malária, você pode ficar com o texto mais recente da Super, ou ir mais fundo nos arquivos e ler o perfil dos pesquisadores Ruth e Victor Nussenzweig – o casal de médicos brasileiros que fugiu da Ditadura Militar e está por trás do imunizante da GSK. Esse trabalho pode render o primeiro Nobel do Brasil: Victor ainda está vivo, tem 93 anos. O prêmio não é concedido de forma póstuma.)

Em 1949, o jovem médico sul-africano Anthony Clifford Allison, doutorando em Oxford, se voluntariou para participar de uma expedição ao Monte Quênia – uma montanha de 5.200 m de altitude no leste da África. Ele foi incumbido da tarefa de coletar amostras de sangue da população local para determinar os tipos sanguíneos mais comuns (A, B, O etc.) e a prevalência de doenças hereditárias como a anemia falciforme.

Anemia falciforme é o seguinte: as células mais numerosas do sangue são os glóbulos vermelhos – sua função é pegar o oxigênio captado pelos pulmões e distribuí-lo pelos demais órgãos do corpo. Para fazer isso, cada um dos glóbulos vem equipado com 270 milhões de cópias de uma proteína chamada hemoglobina. Cada hemoglobina é capaz de transportar uma única molécula com dois átomos de oxigênio (O2).

A anemia falciforme é causada por uma mutação no gene que armazena a receita para a hemoglobina. Essa hemoglobina defeituosa, chamada HbS, faz com que os glóbulos vermelhos, que normalmente têm a forma de uma gorda rosquinha, fiquem com a aparência de uma foice – daí o nome falciforme. A consistência das células fica rígida, e a textura, grudenta.

Todos nós temos duas cópias de cada gene, uma fornecida pela mãe, a outra pelo pai. Se uma criança recebe o gene da anemia falciforme de ambos, todas as suas hemoglobinas serão doentes. Os sintomas são graves: veias e artérias estreitas entopem com frequência, causando crises de dor, mãos e pés ficam inchados e o baço pode acumular sangue inesperadamente, cortando a irrigação de outras partes do corpo.

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Quem herda só uma cópia anômala do gene, por outro lado, tem uma versão mais branda da doença, pois ainda é capaz de produzir hemoglobinas saudáveis usando o outro gene.

E aqui voltamos a Allison. Ele percebeu que 20% da população que vivia ao redor do lago Vitória, uma região de altitude relativamente baixa, tinha a anemia falciforme mais light. Por outro lado, conforme ele subia o Monte Quênia, a incidência caía para 1%.

Como mosquitos não vivem em lugares altos, Allison levantou a hipótese de que a anemia falciforme era comum porque tornava suas vítimas imunes à malária – que infecta 200 milhões de pessoas todos os anos e mata 600 mil. Os protozoários do gênero Plasmodium, causadores da doença, se reproduzem no interior dos glóbulos vermelhos, e não conseguem fazê-lo se estiverem deformados. Nas décadas seguintes, diversos estudos comprovaram essa hipótese.

Uma criança com uma única cópia do gene para anemia falciforme tem 26% mais chances de chegar à vida adulta. Assim, a anemia está sob seleção natural neste exato momento, não só na África, mas no Oriente Médio e no Sudeste Asiático. A descoberta de Allison foi a primeira evidência empírica de que a seleção natural ainda atua sobre nós. Hoje, sabemos que a resistência a outras doenças, como a febre de Lassa, também está sob pressão seletiva.

 

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