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Copa é gincana. Não é campeonato.

A natureza do futebol só permite placares relativamente baixos, você sabe. Não tem os 40 x 30 do futebol americano, os 110 x 108 do basquete. Cada ponto é extremamente difícil de obter. Tanque que, em média, só acontecem três gols por partida – geralmente dois para um lado, um para o outro, o placar mais comum.

Dois times equivalentes chegarão muito, muito perto do gol adversário algumas dezenas de vezes. Só uma fração delas se converterá em gols de fato. Isso torna o jogo extremamente sensível ao efeito borboleta: uma lufada de vento ou uma imperfeição do gramado podem converter uma dessas dezenas de tentativas no ponto que vai definir o resultado.

Num campeonato por pontos corridos, o efeito borboleta acaba soterrado pela quantidade de partidas. Numa competição de tiro curto, não: o acaso pode, e vai, determinar o sucesso do seu time.

Mais do que isso: o efeito borboleta não muda apenas o futuro de uma equipe; muda o passado dela também.

A lufada de vento ou a imperfeição no gramado transformam o técnico genial num imbecil completo. Convertem jogares medíocres em heróis, e craques incontestáveis em vilões.

Uma Copa acaba funcionando, pelo menos em parte, como um Carnaval. Uma festa de inversão. Messi e Cristiano Ronaldo vestem a fantasia de derrotados. Um Tite vira um Dunga. Uma Rússia, que seria rebaixada no Campeonato Paulista, surge travestida como um dos oito melhores times do planeta.

Tudo isso é parte da graça de uma Copa. E o campeonato de tiro curto serve, de fato, para “separar meninos de homens”, já que não mede apenas a habilidade do sujeito em lidar com a bola, mas também em lidar com as armadilhas da própria mente, sob a pressão insana que é disputar uma sequência de mata-matas sem jogo de volta.  Mesmo assim, também é fato: definir carreiras de profissionais que entram em campo 50 vezes por ano com base nos resultados desse Jogos Vorazes futebolístico não tem nada de racional. Messi é um jogador menor por nunca ter levantado a taça? Não. CR7 deixou de ser o jogador mais vertiginoso de 2018 porque foi embora cedo? De jeito nenhum. Neymar virou um Robinho? Vá catar coco na Praia Grande, meu irmão.

Por outro lado: desde quando o futebol precisa ser racional? Um campeonato por pontos corridos pode até ser mais justo. Mas o objetivo final do futebol não é exatamente a justiça. É o ludismo. E ainda não inventaram nada mais brilhantemente lúdico do que essa gincana quadrienal. Que venha a próxima.

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  1. André de Souza

    O futebol é, como, aliás, sempre foi, um esporte onde o fator decisivo é a força coletiva (muito embora, realmente, o “efeito borboleta” vez por outra se intrometa e decida a partida). Esta estória de craque decidindo a partida sozinho é tão anacrônica quanto ilusória. E injusta para com os outros jogadores. Afinal, será que o Romário ganhou o tetra sozinho? Isto só existe na cabeça e na retórica manipuladora e ufanista dos “especialistas” comentaristas da mídia futebolística. Para eles, a seleção brasileira sempre perde porque joga mal; nunca é mérito do adversário! Esta copa mostrou isto de forma inequívoca. Seleções como Croácia, Rússia, Bélgica e França chegaram tão longe não pelo talento individual de seus craques (a Rússia, aliás, até a copa era tida como uma das piores no ranking FIFA). Foi a força coletiva o fator preponderante. Grandes expectativas (mesmo as criadas artificialmente) têm o potencial de gerar grandes frustrações. Neymar chegou como uma das grandes atrações e acabou como uma ótima matéria-prima para memes na Internet. Messi nem sabe o que foi fazer na Rússia. A Alemanha e sua constelação foi embora melancolicamente, perdendo a ultima partida da fase de grupos para a “azarona” Coreia do Sul. E o Japão, uma das “pequenas”, acabou dando mais trabalho à Bélgica do que a “favoritissima” seleção brasileira. É isso aí! Os “cracões” de milhões de dólares, no que se refere aos seus superpoderes de definir uma partida sozinhos, são, na verdade, uma falácia criada no marketing esportivo para valorizar seus garotos-propaganda.

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