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Nas eleições, deixe seu cérebro reptiliano longe da urna

Tudo o que você chama de “inteligência” mora na camada mais externa e intrincada do cérebro, o neocórtex. Temos um belo neocórtex, um pouco mais rechonchudo que o dos chimpanzés, orangotangos e golfinhos. Graças a ele, criamos a agricultura, a matemática, a ONU e as barbearias que vendem cerveja de alto teor alcoólico.

Tamanhas conquistas, porém, não bastam para que o neocórtex reine em paz dentro dos nossos crânios. Ele tem dois concorrentes de peso ali: o córtex reptiliano e o sistema límbico – que, juntos, formam a parte primitiva do cérebro. Eles cuidam das nossas necessidades básicas – alimentação, reprodução, sobrevivência. Não estão ali para pensar, mas para fazer. São como aquelas universidades de baixo teor educacional: 100% prática, zero teoria.

É por conta desse setor menos sofisticado do cérebro que a ideia de tomar cerveja forte na hora de cortar o cabelo pode parecer bacana. E é ele também que está por trás do sentimento que os alemães chamam de “Schadenfreude” – o prazer pelo sofrimento alheio.

Mas, claro, se você não for um sociopata completo, só vai sentir prazer com o dissabor alheio se o tal alheio deixar claro que é digno de Schadenfreude. E isso aconteceu recentemente, no fim de semana do Dia das Mães. Kátia Sastre levou a filha de 7 anos para a escola, em Suzano (SP), e foi surpreendida, com outras mães e crianças, por um assaltante armado. Kátia, você sabe, era uma cabo da PM à paisana, de folga, e causou uma surpresa bem maior ao bandido quando sacou sua arma e disparou. A cena gerou um caso de comoção pública, só que ao contrário: uma Shadenfreude generalizada.

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Natural. Por mais que a ideia de comemorar uma morte, qualquer morte, seja um flerte com a barbárie, a danação de um potencial matador de crianças causa regozijo. As partes irracionais do cérebro começam a soltar fogos. É um fato. Outro fato é que vale a pena calar nossos impulsos primitivos sempre que possível. Principalmente naqueles momentos em que só o neocórtex deveria apitar – como a hora de você dar o seu voto.

Políticos sempre foram mestres em explorar nosso lado reptiliano, prometendo sanar a sede pública de vingança contra assaltantes, corruptos e afins. E episódios como o de Suzano tendem a bombar essa tendência – tanto que alguns partidos querem emplacar a própria Kátia Sastre como deputada federal. Esperemos que, mesmo assim, as eleições não acabem totalmemte balizadas pela parte irracional dos nossos cérebros. Porque sem neocórtex não existe civilização. Não existe humanidade.

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  1. André de Souza

    Infelizmente, enquanto formos um país onde a maioria da população tem como uma preocupante característica a despolitização, o analfabetismo político, o cérebro reptiliano preponderá sobre o neocórtex em nossas escolhas políticas. Não à toa, no Brasil, os candidatos que sempre lideram as pesquisas e acabam sendo eleitos são os que investem no apelo populista, criando uma imagem messiânica que, quase sempre, se mostra uma grande farsa. Do lulismo á esquerda, ao bolsonarismo que vem se fortalecendo, à direita – sem falar nos outros “ismos” do passado, obviamente – o apelo é sempre o mesmo: A busca em promover a comoção social. Ou seja, um claro investimento em acionar nossos cérebros reptilianos.

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