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Alexandre Versignassi Blog do diretor de redação da SUPER e autor do livro "Crash - Uma Breve História da Economia", finalista do Prêmio Jabuti.

O moto-perpétuo do crime

O crime organizado é a empresa mais inovadora do País: quanto mais gente vai parar na cadeia, mais ele cresce.

Por Alexandre Versignassi - 2 fev 2017, 16h39

O Brasil tem mais presidiários do que médicos – são 620 mil detentos contra 400 mil doutores. A quantidade de presos cresce 7% ao ano, taxa que dobrou a população carcerária na última década. Outro aumento, menos palpável, foi o da eficiência do crime organizado, que transformou nossos presídios em quartéis-generais do tráfico.

Foi uma necessidade operacional. O core business do crime organizado é uma atividade complexa, que requer capital intensivo, comércio internacional, implantação de franquias e toneladas de logística: o tráfico de cocaína. Cada um dos diretores dessa operação não pode se dar ao luxo de tirar um período sabático cada vez que vai preso. Para a empreitada funcionar a contento, garantindo oferta constante do artigo boliviano em todo o território nacional, o cárcere tinha que deixar de ser um empecilho. Como deixou.

Deixou porque o produto que eles vendem tem demanda inelástica – um consumidor de crack não diminui sua dieta de pedras quando o preço aumenta. Essa e outras características da mercadoria garantem faturamentos pouco triviais. Um quilo de cocaína na Bolívia custa menos de R$ 10 mil. Nas ruas de São Paulo ou do Rio, depois de batizado, ele rende
R$ 200 mil. Quase 2.000% de lucro, sem imposto de renda. Graças a margens assim, PCC, CV, FDN e outras irmandades do crime privatizaram o sistema carcerário. Seu poder econômico garantiu vista grossa das autoridades e lealdade canina do exército de 620 mil condenados, transformando nossos 1.400 presídios numa rede hiperconectada a serviço do tráfico. Pior: quanto mais gente acaba atrás das grades, mais essa rede cresce, num moto-perpétuo em que o combate ao crime retroalimenta o crime. Tal façanha renderia a cada um dos líderes das facções rivais um prêmio de Empresário do Ano, caso eles operassem dentro da Lei.

Como não operam, não podem contar com ela quando se sentem prejudicados. Então lavram eles mesmos as sentenças contra os rivais. Os assassinatos nos presídios de Manaus em janeiro foram uma punição da FDN ao PCC. E as retaliações e contra-ataques seguirão tingindo as paredes das celas de vermelho.  A fórmula para ao menos conter tal barbárie é óbvia: o Estado retomar o controle dos presídios. Que nossos governantes não esperem sentados, porque, se o país continuar especializando-se em produzir bandidos cada vez mais poderosos e violentos, em breve não serão só 620 mil presos. Seremos 205 milhões de condenados.

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