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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Em emails, cientistas que negaram a tese de vazamento do coronavírus admitiram que ela era possível

Por Bruno Garattoni Atualizado em 17 ago 2021, 17h41 - Publicado em 17 ago 2021, 17h04

“Não podemos descartar a possibilidade”, afirmou um deles; é “assustador” pensar que o Sars-CoV-2 “possa ter sido projetado” em laboratório, disse outro; mensagens foram trocadas em fevereiro de 2020, entre virólogos de três universidades dos EUA – que, dias depois, publicaram um artigo de grande repercussão contra a hipótese de vazamento.

“Susan, 

Eu olhei cuidadosamente a sequência do RaTG13 [possível ancestral do Sars-CoV-2], e provavelmente não veio dele. Mas nós não podemos descartar a possibilidade de outros vírus de morcego no laboratório. O laboratório de Wuhan tem muitas amostras de morcego que ainda não foram trabalhadas, ou tiveram os resultados publicados. Há algumas preocupações de que algumas dessas amostras podem não ter sido manuseadas adequadamente e vazado do laboratório… Mas é só uma possibilidade.

No momento, é difícil dizer se [houve] um hospedeiro intermediário ou [veio] direto de morcegos, eu acho.” 

Essa mensagem foi enviada pelo virologista Shan-Lu Liu, da Ohio State University, para a colega Susan Weiss, da Universidade da Pensilvânia, no dia 16 de fevereiro de 2020. Eles estavam escrevendo um artigo científico sobre a origem do Sars-CoV-2, que publicaram junto com mais dois cientistas: Linda Saif, também da Ohio State, e Lishan Su, da Universidade da Carolina do Norte, que é referência mundial – ali trabalha o virologista Ralph Baric, um dos maiores especialistas em manipulação genética de vírus.  

Os emails foram revelados pela ong americana US Right to Know, que os obteve por meio da FOIA – a lei de acesso à informação dos EUA. Como os cientistas envolvidos trabalham em instituições que recebem dinheiro público, qualquer cidadão americano pode solicitar os registros de suas comunicações. A US Right to Know foi fundada e é dirigida pelo cientista político Gary Ruskin, que investiga dados governamentais há 35 anos.

Reprodução de email
Troca de emails entre os virologistas Susan Weiss, da Universidade da Pensilvânia, e Shan-Lu Liu, da Ohio State University. USRTK/Reprodução

Em outra troca de emails, Susan e Liu debatem um ponto intrigante do Sars-CoV-2: o alvo da furina. Quando o vírus vai invadir uma célula humana, sua proteína spike (os “espetos” na superfície do vírus) precisa ser cortada em duas, S1 e S2. Para fazer isso, o vírus usa uma enzima humana, a furina – que acerta um “alvo” no ponto exato da proteína spike. Mas a presença desse alvo não é comum naquela família de vírus. “Eu acho difícil de imaginar como aquela sequência entrou na spike de um betacoronavírus. Isso não é visto no [vírus da] Sars ou em qualquer outro vírus de morcego”, escreve Weiss. 

Liu responde: “Eu concordo totalmente com você, mas rumores dizem que o ponto da furina pode ter sido projetado [em laboratório].” 

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Então Weiss continua: “Nós temos especulado – como aquele ponto pode ter aparecido na junção S1/S2. Eu odeio pensar que ele foi colocado. Nas cepas de MHV [um vírus que infecta ratos], o ponto de corte não aumenta a patogênese, mas ele afeta, sim, a rota de entrada [nas células]. Então pra mim a única revelância desse ponto da furina é como um marcador de onde o vírus veio – é assustador pensar que ele possa ter sido projetado.” 

O objetivo do artigo era descartar a hipótese, ainda incipiente, de que o Sars-CoV-2 tivesse se originado de um vazamento no Instituto de Virologia de Wuhan. Mas os quatro cientistas não estavam seguros disso. Tanto que eles acabaram suavizando o título, que iria ser “Sars-CoV-2: sem evidência de origem de laboratório” e virou “Sem evidência crível sustentando alegações da criação do Sars-CoV-2 em laboratório”

O artigo foi encomendado pelo jornal científico Emerging Microbes & Infections (EMI), um dos mais respeitados do mundo. Ele é chefiado pela chinesa Shan Lu, cientista da Universidade de Massachusetts, e publicado pela tradicional editora inglesa Taylor & Francis em parceria com a chinesa Shangai Shangyixun Cultural Communication. Vários cientistas do seu conselho editorial são chineses. 

Antes da publicação, o texto foi revisado pelos virologistas Ralph Baric, da Universidade da Carolina do Norte, e Shi Zhengli – diretora do Instituto de Virologia de Wuhan. “Nós não queremos que pareça que estamos defendendo o Ralph, mesmo que ele não tenha feito nada de errado”, escreveu Lu. Durante a elaboração do artigo, Lu chega a fazer uma orientação incomum: “É melhor não entrar muito em detalhes científicos/tecnológicos, pois isso só vai confundir as pessoas, e dar mais espaço para que elas levantem mais questões”. 

No dia 21 de fevereiro, Weiss novamente faz uma ressalva: “Eu continuo preocupada com a [possível] inserção do alvo da furina”. Mas o artigo é publicado, sem qualquer menção a isso, e rapidamente se torna um dos mais lidos e citados de 2020. Ele serviu como base para rejeitar a hipótese de vazamento de laboratório – mesmo que seus próprios autores, na verdade, tivessem dúvidas sobre isso.  

Aconteceu a mesma coisa com um segundo artigo científico, que foi liderado pelo biólogo Kristian Andersen, do Scripps Research Institute (EUA). Esse texto, publicado pela revista Nature em março de 2020, se tornou extremamente influente: baseou todo o consenso descartando a possibilidade de vazamento de laboratório.

Mas, além de não provar nada (como mostramos nesta reportagem), o artigo tem outro problema: na verdade, o próprio Andersen achava que o Sars-CoV-2 poderia ter surgido em laboratório.  

Isso foi revelado por um email que ele enviou para o médico Anthony Fauci, diretor do NIAID (Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA) e principal consultor do governo americano para assuntos ligados à pandemia. Em 31 de janeiro de 2020, antes de publicar o artigo que ajudaria a eximir de culpa o Instituto de Wuhan, Andersen escreveu a Fauci com outras ideias: na opinião dele, “algumas características [do vírus] potencialmente parecem projetadas”, e o genoma do Sars-CoV-2 era “inconsistente com as expectativas da teoria evolutiva” (indicando que não teria surgido naturalmente).

Mas, no artigo, Andersen não menciona nada disso, e descarta a possibilidade de que o vírus tenha surgido em laboratório. Essa mudança radical de posição, que veio à tona com a revelação do email enviado a Fauci, gerou polêmica nos EUA – levantando a suspeita de que questões relevantes tenham sido omitidas do público. Andersen nega: diz que, quando escreveu o email, ele sabia pouco sobre o vírus e “ainda não havia feito análises mais aprofundadas”.

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