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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

“Freedom Day” inglês coloca o mundo inteiro em risco, diz carta assinada por 1.200 cientistas

Por Bruno Garattoni Atualizado em 20 jul 2021, 17h26 - Publicado em 20 jul 2021, 16h57

Abandono das máscaras e das restrições no Reino Unido aumenta risco de surgirem mutações no coronavírus, tornando-o resistente às vacinas; país vive alta de casos, com forte expansão da variante Delta; app do governo inglês envia ordens de quarentena para centenas de milhares de pessoas, causando momentos de caos 

“Em 19 de julho de 2021 – apelidado de Dia da Liberdade – quase todas as restrições serão encerradas. Nós acreditamos que essa decisão é perigosa e prematura.” Assim começa o manifesto, que foi publicado no jornal científico Lancet e assinado por 1.200 cientistas. Segundo eles, o “Freedom Day”, que  aconteceu ontem e marca o fim da obrigatoriedade das máscaras e das restrições sanitárias no Reino Unido, colocará em risco um grande número de pessoas no país (onde 68% da população recebeu uma dose da vacina e 51% tomou as duas doses, ou seja, ainda há bastante gente desprotegida). 

Em seguida, o documento faz uma previsão sombria. “Dados preliminares sugerem que a estratégia do governo [de reabertura total] fornece um terreno fértil para o surgimento de variantes resistentes às vacinas. Isso colocaria todos em risco, incluindo aqueles já vacinados, no Reino Unido e globalmente.” 

Esse receio se deve ao fato de que, embora as vacinas continuem protegendo contra Covid grave causada pela variante Delta, elas não impedem a transmissão do vírus. A Delta já é dominante no Reino Unido, onde responde por mais de 90% das novas infecções. Com o abandono do uso de máscaras e das restrições sanitárias, essa variante poderá se espalhar aceleradamente – o governo inglês prevê 100 mil novos contaminados por dia.

O “liberou geral” inglês não deverá causar uma explosão de casos de Covid grave, já que a maioria da população britânica está vacinada. Mas permitirá que o vírus se replique em escala inédita – e isso, com a pressão seletiva exercida pelas vacinas, pode ser especialmente perigoso. A carta cita uma simulação matemática, feita por cientistas das universidades de Cambridge, Bristol e Warwick, que prevê o seguinte: “o maior risco de escape vacinal [surgimento de variantes resistentes] pode ocorrer em níveis intermediários de vacinação”. 

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Quando há pouca gente vacinada, o vírus não sofre pressão seletiva: como as pessoas não têm nenhuma imunidade, ele consegue se reproduzir livremente, sem barreiras – e, por isso, não seleciona mutações. Já quando toda ou quase toda a população está imunizada (com uma vacina que impeça a transmissão do vírus), ele não consegue se espalhar – e, como se replica pouco, tem pouca chance de selecionar mutações. O maior risco está na fase intermediária: e é justamente nela que a Inglaterra está agora. 

Parte da população está totalmente vacinada, e portanto protegida contra a Covid severa, mas mesmo assim pode pegar e transmitir Delta. Outra parte está semi-vacinada (com a primeira dose), e ainda sob risco de Covid grave – sendo que também pode pegar e transmitir Delta. As vacinas atrapalham ou impedem a replicação do vírus. Isso é ótimo, pois evita que as pessoas fiquem doentes, mas também tem uma consequência evolutiva: estimula a seleção de mutações que possam tornar o Sars-CoV-2 resistente às vacinas. 

Pegue essa receita e multiplique por milhões de pessoas, com o espalhamento sem controle da variante Delta na Inglaterra, e o país pode se tornar uma fábrica de novas variantes. Por isso o abandono das máscaras e das restrições é considerado tão perigoso.

Na última semana, o Reino Unido se tornou o país com mais novos casos de coronavírus no mundo, aumentando a pressão para que o “Freedom Day” fosse cancelado pelas autoridades. Mas ele aconteceu ontem, como previsto: teve eventos comemorativos, baladas lotadas e o príncipe Charles passeando sem máscara. O governo até tentou um recuo, mas sem firmeza: disse que será necessário apresentar comprovante de vacinação para frequentar eventos fechados, mas só a partir de setembro. 

Também ontem, o primeiro-ministro Boris Johnson teve de se isolar após ser reinfectado pelo vírus – e o país viveu momentos de caos quando o aplicativo do NHS, o SUS britânico, disparou alertas para que centenas de milhares de ingleses entrassem em isolamento domiciliar por 10 dias, pois tiveram contato com pessoas infectadas. Mesmo com o fim da obrigatoriedade de máscaras e das restrições sanitárias, as ordens de quarentena continuam valendo (desobedecê-las dá multa, que começa em 1.000 libras). 

A onda de alertas do NHS gerou sinais conflitantes: um ministro chegou a dizer que as pessoas poderiam desconsiderá-los, e não precisariam fazer quarentena, mas depois o governo disse que eles devem ser obedecidos. Lojas, bares, restaurantes e escritórios tiveram de ser fechados às pressas, e três linhas do metrô de Londres foram parcialmente paralisadas, depois que seus funcionários receberam alertas de isolamento domiciliar. 

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