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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

“Fungo negro” associado à Covid-19 avança na Índia, com 30 mil casos e 2 mil mortes

Por Bruno Garattoni Atualizado em 22 jun 2021, 15h12 - Publicado em 22 jun 2021, 14h13

Mucormicose destrói tecidos do rosto, deixando a vítima desfigurada, e também pode atacar o cérebro, levando à morte; número de infectados pela doença, que se manifesta quando o sistema imunológico está fragilizado, cresceu 6.000% em um mês

Os fungos do gênero Mucor costumam estar presentes no solo e também, em menor quantidade, no ar. Normalmente, não causam doenças. Mas, quando a pessoa está com baixa imunidade, o fungo pode se reproduzir de forma mais agressiva e levar à mucormicose, uma doença que ataca os pulmões, a pele, os olhos, os ossos do rosto e o sistema gastrointestinal. Ela é muito rara (1,7 caso a cada milhão de habitantes, segundo um levantamento feito nos EUA nos anos 1990), mas chamou atenção em maio, com o surgimento de uma onda de mucormicose em pacientes de Covid-19 na Índia. Naquele momento, havia aproximadamente 500 casos no país. Agora, um mês depois, o número de infectados cresceu 6.000%: são 31.216, com 2.109 mortes

A mucormicose não é diretamente transmissível de uma pessoa para outra, mas pode passar de forma indireta. Em 2014, cinco crianças morreram da doença em um hospital pediátrico na Louisiana (EUA). O fungo havia sido transmitido, como se constatou depois, por esporos presentes nos lençóis dos pacientes infectados. A doença só acontece, vale repetir, se a vítima estiver com imunidade baixa. Em situações normais, o fungo não é patogênico. 

Quando os esporos são inalados, e a imunidade está baixa, o fungo se instala nas vias aéreas superiores. Os sintomas iniciais parecem os da sinusite, com dor de cabeça, congestão nasal, inchaço no rosto e febre. Se a mucormicose não for tratada, ela progride com o aparecimento de lesões escuras – por isso ela é conhecida como “doença do fungo negro”. 

Os Mucor também atacam os ossos da mandíbula e do nariz, e podem afetar os olhos. A imprensa indiana noticiou os casos de três pacientes, de 4, 6 e 14 anos de idade, que perderam um olho cada um. No estágio mais grave da mucormicose, o fungo penetra no sistema nervoso e alcança o cérebro, levando à morte. A taxa média de letalidade é 44%, mas esse dado se refere ao cenário “clássico”, pré-Covid. Na Índia, com a maior incidência da doença, o percentual de mortos foi de 6,7%. 

A doença é tratável com medicamentos antifúngicos, dos quais o principal é a Anfotericina B – que está em falta na Índia. A mucormicose se manifesta de forma mais agressiva em pacientes com diabetes mal controlada ou cetoacidose diabética, condições em que há excesso de glicose no sangue. A baixa oxigenação do sangue e o uso excessivo de anti-inflamatórios, que podem ocorrer durante a Covid-19 e seu tratamento, também elevam o risco.

No Brasil houve dois casos comprovadamente relacionados à Covid, em São Paulo e Manaus. Também houve um aumento no total geral de casos de mucormicose: neste ano, já foram 29 (contra 36 em todo o ano passado).

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