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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 12 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Testes das vacinas estão focando na métrica errada

Por Bruno Garattoni Atualizado em 10 fev 2021, 19h05 - Publicado em 10 fev 2021, 16h09

Ênfase nos números de “eficácia geral”, que inclui casos leves e muito leves de Covid-19, gerou uma polêmica desnecessária com a Coronavac – e, agora, levou a África do Sul a abandonar a vacina de Oxford. Entenda o problema.

Você deve lembrar da polêmica envolvendo os dados de eficácia da Coronavac. Primeiro falou-se em 100% (que foi a redução de casos graves) e depois em 50,3% (redução de todos os casos, incluindo os leves e muito leves), mas 78% é o número que realmente interessa – pois essa é a eficácia da vacina contra casos moderados e graves. Ou seja, sua eficácia em salvar vidas. A divulgação fracionada dos dados e a dificuldade em explicá-los dentro de um ciclo de notícias frenético provocaram a maior confusão. E, agora, estamos caindo de novo na mesma armadilha; só que com a vacina da Universidade de Oxford/AstraZeneca. 

Na segunda-feira, a África do Sul suspendeu a aplicação dessa vacina depois que um estudo com 2.000 pessoas (grupo bem pequeno; os outros testes incluem 10 mil a 40 mil pessoas) mostrou que ela reduziu em apenas 10% os casos leves de Covid-19. Ou seja, a cepa africana (501Y.V2) teria aniquilado a eficácia da vacina de Oxford. Mas não há dados confiáveis sobre casos moderados e graves, pois os participantes tinham em média 31 anos -outro problema sério do teste-, e nessa idade a Covid-19 severa é naturalmente menos comum. Em suma: um estudo questionável e com números incompletos. 

Mas foi suficiente para que a África do Sul interrompesse a vacinação, o que poderá se revelar um grave erro – já que os números não apontaram perda de eficácia da vacina contra casos moderados e graves. Também gerou mais um ciclo de manchetes preocupadas, enchendo a cabeça das pessoas de dúvidas e medo. Sem necessidade. Se você se vacinar e mesmo assim tiver um caso leve de Covid-19, tudo bem. A sua saúde não estará em risco. O que você não quer é um caso moderado ou grave. E esses dados o estudo africano não possui, pois foi mal desenhado (precisaria ter incluido pessoas mais velhas). 

Os testes de todas as vacinas vêm adotando o mesmo parâmetro: se a pessoa tiver Covid leve ou muito leve, considera-se que a imunização falhou. É um critério extremamente rigoroso, que desconsidera o que realmente importa na prática – reduzir os casos moderados e graves. 

gráfico da vacina
Dados de estudo realizado com a Coronavac pelo Instituto Butantan, que incluiu casos leves e muito leves no cálculo de eficácia. Instituto Butantan/Reprodução

 

Ele vem sendo adotado mesmo assim porque é relevante do ponto de vista epidemiológico (ajuda a estimar a eficácia de uma vacina para frear a pandemia, ainda que os estudos não avaliem possíveis efeitos na transmissibilidade do vírus), e porque ajuda a terminar o trabalho. Para calcular a eficácia de uma vacina, você precisa alcançar um determinado número de “falhas” no grupo placebo (aí você compara esse número com o do grupo vacinado e faz a conta). Ao incluir casos leves e muito leves no cálculo, chega-se ao endpoint (desfecho do estudo) mais depressa, e usando um grupo de voluntários menor. 

Se o objetivo é evitar Covid moderada ou severa, ela deveria ser o endpoint. Mas, como esses casos são menos comuns, você precisaria incluir muito mais gente nos estudos para alcançar o número mínimo de falhas necessário. Se já é difícil fazer um trabalho com 10, 20, 40 mil pessoas, imagine isso multiplicado por dez, vinte ou cinquenta. Seria caro e demorado, e retardaria muito a aprovação das vacinas.

Dá para entender, então, por que os estudos têm incluído casos leves e muito leves nos cálculos de falha. Mas isso significa que os dados precisam ser olhados com discernimento. A partir de agora, quando você for ler sobre a eficácia de alguma vacina, relacionada a qualquer nova variante do vírus, tenha em mente o seguinte: o que realmente interessa é a redução de Covid moderada e grave. É muito difícil, ou impossível, varrer do mapa o Sars-CoV-2. Mas é possível transformá-lo numa doença leve, de sintomas irrelevantes. Basta que haja vacinação em massa – e um pouco mais de compreensão sobre o que os números dos estudos realmente significam. 

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