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Bruno Garattoni Por Bruno Garattoni Vencedor de 13 prêmios de Jornalismo. Editor da SUPER.

Se as vacinas continuam protegendo contra a variante Delta, por que vários países estão começando a aplicar a terceira dose?

Por Bruno Garattoni Atualizado em 18 ago 2021, 17h52 - Publicado em 18 ago 2021, 15h12

Alemanha, França, Israel, Reino Unido e EUA começam a oferecer reforço da vacina contra a Covid, mesmo sem evidências científicas de que seja realmente necessário; entenda por que eles estão fazendo isso

Tem cada vez mais gente, no Brasil, recebendo a segunda dose da vacina e completando a imunização contra o coronavírus. Em São Paulo, por exemplo, a previsão é que a vacinação esteja terminada, em todos os adultos, até o começo de novembro. Logo você vai estar com a sua vacinação completa (ou talvez até já esteja). Mas será que é só isso mesmo, e tudo bem? Afinal, você deve ter visto notícias por aí sobre a terceira dose da vacina: Alemanha, França, Israel, Estados Unidos e Reino Unido estão começando a aplicar essa dose de reforço, para combater a variante Delta. No Brasil, o Ministério da Saúde afirmou hoje que haverá aplicação da terceira dose, começando em data a ser definida; o governo do Estado de São Paulo já anunciou que vai iniciar uma nova campanha de vacinação contra a Covid em janeiro do ano que vem. Ao mesmo tempo, a OMS já se posicionou contra a aplicação da terceira dose – e não há comprovação científica de que ela seja mesmo necessária. Quem está com a razão? Você está imunizado com as duas doses da vacina, ou vai ter que tomar mais uma? 

A primeira coisa que você precisa saber é: as vacinas continuam protegendo contra a variante Delta. Em Israel, os dados oficiais mostram que a vacina da Pfizer oferece 93% de proteção contra casos graves e hospitalização causados pela Delta. E a AstraZeneca, segundo um estudo feito pelo governo inglês, alcança 92%

A vacina da Johnson & Johnson (que é de dose única) ainda não tem um grande estudo clínico, com milhares de pessoas, focado na variante Delta. No final de julho, cientistas da Universidade de Nova York coletaram anticorpos de pessoas que haviam tomado uma dose da Johnson – e constataram que esses anticorpos eram bem menos potentes contra a variante Delta. Por isso, os autores desse estudo chegaram a recomendar uma segunda dose da Johnson, ou um reforço com outra vacina. Mas não existe uma conclusão sobre isso. Porque um outro estudo, feito pela Johnson & Johnson, indicou que essa vacina continua protegendo contra a Delta, mesmo oito meses após a aplicação. 

Na prática, as vacinas estão funcionando. Quer um exemplo? Vamos comparar dois lugares dos Estados Unidos, onde a variante Delta já é dominante: Massachusetts, onde a maior parte da população já está vacinada, e a Louisiana, onde menos gente tomou a vacina. Em Massachusetts, onde 65% das pessoas já completaram a vacinação, o número de internações e mortes por Covid continua baixo, mesmo com a variante Delta. 

Já na Louisiana, onde apenas 38% da população está totalmente imunizada, as mortes subiram bastante – e a quantidade de pessoas hospitalizadas disparou, quase alcançando o pior momento da pandemia, em 2020. A diferença entre esses dois estados é nítida – e mostra bem como as vacinas protegem contra Covid grave. 

Você deve estar se perguntando: e a Coronavac? Ontem finalmente foi publicado o primeiro estudo, realizado na China, que testa essa vacina contra a variante Delta. Ela demonstrou 77% de proteção contra infecção – e não houve nenhum caso grave de Covid, o que indicaria 100% de efetividade contra hospitalização e morte. Mas nenhuma vacina é 100% eficaz, contra nenhum vírus. Então esse resultado provavelmente se deve a uma limitação do estudo, que avaliou poucas pessoas durante um período relativamente curto, e na China – onde a variante Delta não se espalhou tanto quanto em outros países. Ele é uma boa notícia; mas não é uma conclusão definitiva.  

A empresa chinesa Sinovac, criadora da vacina, tem sugerido que pode ser necessário tomar uma terceira dose da Coronavac para ficar protegido contra a variante Delta. Ela já mencionou essa possibilidade duas vezes. A primeira foi no final de junho, quando um jornalista da agência de notícias Reuters perguntou ao porta-voz da Sinovac, na China, sobre a variante Delta. A resposta foi que a Delta reduzia um pouco a eficácia da vacina, mas que tomar uma dose de reforço da Coronavac aumentaria o nível de anticorpos contra essa variante. 

Depois, em 6 de agosto, a imprensa estatal chinesa noticiou que a Sinovac está desenvolvendo uma nova versão da sua vacina, atualizada contra a Delta, e também está testando doses de reforço da Coronavac atual como resposta contra a nova variante. 

Em 11 de agosto, cientistas chineses publicaram um estudo sobre a terceira dose da Coronavac. O trabalho afirma, já no título, que as pessoas acima de 60 anos terão de tomar um reforço da Coronavac para ficarem protegidas – mas não aborda outras faixas etárias, nem cita a variante Delta. Então existe uma indefinição sobre isso. 

Mas o Chile e o Uruguai decidiram se antecipar, e já começaram a aplicar uma dose de reforço em todas as pessoas que tomaram Coronavac – e o detalhe é que a terceira dose não é da própria Coronavac, é de Pfizer. Vale a pena abrir um parênteses aqui. Essa combinação de vacinas de marcas diferentes, que se chama vacinação heteróloga, tem sido bastante discutida na comunidade científica. No Brasil, como a vacina da AstraZeneca está em falta, o Ministério da Saúde autorizou a combinação: quem tomou a primeira dose de AstraZeneca vai poder tomar a segunda dose de Pfizer, caso não encontre a AstraZeneca no posto de saúde. 

Há estudos mostrando que essa combinação, com a primeira dose de AstraZeneca e a segunda de Pfizer, é segura e gera uma maior produção de anticorpos. Mas a OMS recomenda cautela com a mistura de vacinas diferentes, pois os estudos foram relativamente pequenos – e acompanharam os voluntários por pouco tempo. Ainda é necessário fazer mais testes para ter certeza sobre a segurança e a eficácia da vacinação heteróloga. Seja como for, estamos falando de duas doses. Isso não tem nada a ver com aplicar uma terceira dose, de reforço, como vários países estão começando a fazer. São coisas diferentes.  

A OMS é contra a terceira dose. Ela argumenta que essas vacinas adicionais deveriam ser enviadas para os países mais pobres, onde a vacinação mal começou: eles aplicaram apenas 1,5 dose a cada 100 habitantes, contra 50 doses nos países ricos. É uma diferença gigantesca.

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A distribuição das vacinas tem seguido uma lógica comercial e política, não de saúde. Os países ricos já compraram muito mais doses do que precisavam. E estão comprando mais ainda. Em maio e junho, a União Europeia assinou contratos para adquirir mais 1,8 bilhão de doses da Pfizer e 150 milhões da Moderna. Isso dá mais três doses para cada habitante do bloco europeu, fora todas as que já foram aplicadas. E os Estados Unidos já compraram mais de 1,2 bilhão de doses – são quatro doses para cada americano.  

Ou seja: está sobrando vacina nos países ricos. Israel, por exemplo, tinha 1,4 milhão de vacinas perto do vencimento, que iam ser jogadas fora – e foi aí que o país resolveu dar a dose de reforço, que está sendo oferecida para todas as pessoas com 50 anos ou mais. O Reino Unido, que recentemente abandonou as máscaras e as restrições sanitárias, também deve começar a aplicar o reforço em todos os cidadãos acima de 50 anos, a partir de setembro. Na Alemanha, a terceira dose começa a ser aplicada em setembro, mas só em idosos e pessoas imunodeprimidas (com doenças que enfraquecem o sistema imunológico). A França, que já oferece o reforço para esse grupo, pretende estendê-lo aos idosos acima de 75 anos.

A Rússia e os Emirados Árabes vão oferecer reforço para todas as pessoas, sem restrição de idade, que tenham completado a vacinação há pelo menos seis meses. Nos Estados Unidos, o reforço será aplicado nas pessoas que tomaram a vacina há mais de oito meses.

Porque essa é outra questão em aberto: quanto tempo dura a imunização contra a Covid?

Vários estudos constataram que, alguns meses após a vacinação, os níveis de anticorpos caem – mas isso é normal e esperado. O sistema imunológico não fica produzindo um montão de anticorpos o tempo inteiro, a vida inteira. Ele faz isso em dois momentos: logo depois que você toma a vacina, ou quando entra em contato com o vírus. E tudo bem. É assim que o organismo funciona. 

Além disso, há estudos comprovando que todas as vacinas (inclusive a Coronavac) são capazes de construir a chamada memória imunológica, ou seja, preparam o organismo para que ele volte a produzir anticorpos contra o coronavírus em caso de infecção. Sabe quando você lê uma notícia dizendo que a terceira dose da vacina X “aumenta muito os níveis de anticorpos”? É a memória imunológica funcionando: o corpo produz mais anticorpos justamente porque ele “lembra” do antígeno (a proteína spike ou o vírus inativado, dependendo da vacina que a pessoa tomou). 

Resumindo: só porque os seus níveis de anticorpos caíram, não significa que você esteja desprotegido. Porque as vacinas também criam memória imunológica – o objetivo delas é esse, afinal. Mas então, se as vacinas continuam protegendo contra a variante Delta, e essa proteção aparentemente é duradoura, porque vários países estão aplicando as doses de reforço? É que eles estão tentando fazer outra coisa: frear a transmissão da Delta na sociedade como um todo. 

Embora continuem protegendo contra sintomas graves de Covid, as vacinas não conseguem impedir a transmissão da Delta. Contra a transmissão, a eficácia delas é bem menor, de 40% a 60%. Pessoas vacinadas também podem pegar, e transmitir, essa variante. A vacina evita que elas tenham Covid grave; mas não impede a circulação da Delta na sociedade.

A terceira dose poderia ajudar a frear essa propagação. Ainda não há estudos comprovando isso, mas é provável que aconteça (porque ao aumentar a quantidade de anticorpos, mesmo que temporariamente, a dose de reforço diminui a chance de a pessoa pegar, e portanto transmitir, Delta). Mas, vale repetir, não há comprovação científica. O principal motivo é que os países ricos estão com doses de vacina sobrando – e procurando novas formas de usá-las para frear a Delta. 

Talvez nós até tenhamos de tomar uma terceira dose da vacina, em algum momento. Mas com o que a ciência sabe hoje, e com as atuais variantes do coronavírus, a resposta é não. Se você tem o sistema imunológico normal, não é imunodeprimido, e tomou Pfizer ou AstraZeneca, não precisa de terceira dose. Elas continuam oferecendo alta proteção. A Johnson e a Moderna também demonstraram isso em testes de laboratório. E a Coronavac mostrou resultados promissores – ainda que somente na China, onde a Delta (ou qualquer outra variante do coronavírus) não se espalhou tanto quanto no Ocidente.

A resposta definitiva só virá com o tempo, nos próximos meses. Se o número de hospitalizações e mortes por Covid entre vacinados começar a subir muito, será um sinal de que as vacinas estão perdendo força. Por enquanto, não é o que tem acontecido: nas regiões onde há bastante gente vacinada, o índice de óbitos não está disparando, mesmo com a chegada da variante Delta.

As vacinas estão funcionando, não há motivos para pânico nem desespero. Se você tomou a vacinação completa, está muito mais protegido do que antes. Mas continue evitando aglomerações e usando máscara – porque nenhuma vacina dá 100% de proteção, tem muito coronavírus circulando por aí, e também tem muita gente que ainda não está totalmente vacinada. É a maioria, aliás (até o momento, 70% dos brasileiros já receberam a primeira dose da vacina, mas só 22% tomaram a segunda). 

Se cada pessoa fizer a sua parte, a vacinação cobrir toda a sociedade, ou quase toda, e o vírus não sofrer mais nenhuma mutação catastrófica, a pandemia será vencida. Já dá para enxergar a luz no fim do túnel – mas, para chegar até ela, primeiro temos de atravessar o túnel e chegar vivos do outro lado. 

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