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A ciência explica por que caímos em fake news

A greve dos caminheiros que parou o país recentemente gerou um volume extraordinário de notícias – verdadeiras e falsas. Na época, muita gente percebeu logo que a história de que um aplicativo de mensagens estaria sendo monitorado pelo governo era fake news – mas caiu no papo igualmente falso de que a greve se repetiria numa segunda-feira próxima.

Por mais bem informado que você possa ser, não dá para baixar a guarda. Mas por que as notícias falsas – mesmo aquelas mais improváveis – parecem tão convincentes para tantas pessoas?

Por sorte, alguém já fez essas perguntas e foi atrás das respostas. “A coisa legal sobre a ciência é que, quando você vê o jornal e começa a pirar, uma coisa que pode fazer é ir para seu laboratório, ler o trabalho que já foi feito e fazer seus próprios estudos para tentar entender o que está acontecendo e talvez encontrar a cura para o problema”, disse Jay Van Bavel, professor de psicologia e ciência neural da Universidade de Nova York.

Van Bavel se especializou em entender como as crenças políticas e identidades de grupo influenciam a mente, e descobriu que a identificação com posições políticas pode interferir em como o cérebro processa as informações.

Em um trabalho recente, publicado no periódico Trends in Cognitive Science, ele compartilha o que descobriu sobre o processo que nos leva a acreditar em notícias falsas. Veja alguns dos pontos levantados.

Tendemos a rejeitar fatos que ameaçam nosso senso de identidade

falamos por aqui sobre o viés de confirmação – a tendência que temos a sempre buscar informações que confirmem nossas próprias crenças, seja por meio de memórias seletivas, leituras de fontes que estão do nosso lado ou mesmo interpretando os fatos de determinada maneira.

Isso tudo está relacionado ao fato de que não queremos ter nossas ideias, gostos, identidade questionados, e por isso temos dificuldade em aceitar coisas que contradizem aquilo em que acreditamos.

Não faltam estudos comprovando isso. Em seu trabalho, Van Bavel menciona um em que se descobriu que os democratas tinham mais chances de lembrar George W. Bush como estando de férias durante o furacão Katrina (ele não estava), enquanto os republicanos eram mais propensos a se lembrar de ter visto Barack Obama apertando as mãos do presidente do Irã (ele não fez isso).

Em outro, os pesquisadores viram que até mesmo pessoas boas em fazer contas tiveram dificuldade para resolver um problema matemático cuja resposta contradizia sua opinião a respeito do efeito do controle de armas sobre a redução do crime.

Van Bavel explica que as preferências políticas muitas vezes são parte essencial de como as pessoas constroem sua identidade – assim, uma crítica ou ameaça a determinado partido ou ideologia pode ser percebida, embora nem sempre de maneira consciente, como um ataque pessoal. A gente vê isso acontecer o tempo todo na internet.

“Nós ainda não temos todas as respostas em relação à atividade cerebral”, diz ele, “mas quando você tem um compromisso realmente forte com um grupo ou crença e obtém informações que contradizem o que sabe, você constrói novas maneiras de pensar sobre essa informação em vez de atualizar sua crença”. Em outras palavras, nós tendemos a usar uma espécie de gambiarra cognitiva para lidar com informações conflitantes com aquilo em que acreditamos.

Daí ser mais fácil acreditar num boato toscamente formulado – mas que está de acordo com a nossa visão de mundo – do que aceitar uma realidade que nos desagrada.

Tribalismo + mídias sociais = disseminação de fake news

Segundo Van Bavel, existe ainda um outro fator – talvez tão antigo quanto a humanidade – a explicar nossa tendência a cair na armadilha das fake news.

Nossas estruturas cognitivas funcionam de forma a tornar agradável pertencer a um grupo e, por outro lado, tornam doloroso e assustador mudar as alianças (algo que talvez precise ocorrer quando descobrimos novos fatos que entram em conflito com nossas crenças centrais).

Isso nos permitiu formar grupos coesos e funcionar como sociedade. Por isso, é provável que sempre tenhamos uma tendência a abraçar e compartilhar evidências que reforcem nossa visão de mundo e rejeitar tudo aquilo que a contradiz.

Mas um novo elemento apareceu nos últimos anos e tornou tudo mais complicado: a internet e as mídias sociais amplificaram exponencialmente a capacidade de o ser humano se comunicar com outros – e a velocidade com que as notícias, falsas ou não, podem se espalhar.

Deve-se ainda acrescentar o fato, comprovado pelos estudos de Van Bavel, de que textos sensacionalistas são mais propensos a causar impacto – e consequentemente a ter muitos compartilhamentos – nas redes sociais.

Sabendo disso, tanto os veículos de notícias que dependem de cliques quanto os cidadãos comuns que querem likes têm fortes motivos para postar esse tipo de conteúdo. “A psicologia antiga e a tecnologia moderna criaram a combinação perfeita para que notícias falsas e hiper-partidárias sejam perpetuadas”, diz ele.

(Via NYU)

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  1. André de Souza

    Vamos combinar também que existe um outro fator que, a meu ver, contribui para a crença e a disseminação das fake news: o modismo que virou criar estas pragas e a falta de bom senso e reflexão das pessoas que acreditam nelas e as compartilham. Sim, porque, francamente, geralmente estas criações são toscas e é preciso ser bem inocente para não perceber a falta de legitimidade destas idiotices. Até porque, geralmente, os indivíduos que perdem seu tempo gerando este tipo de conteúdo deve ter sérios problemas psicológicos.

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