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Temer, estupro, crise. De quem é a culpa afinal?

O debate político no Brasil virou uma troca de acusações. Acontece que atribuir culpa, embora seja uma tendência natural do nosso cérebro, raramente ajuda a resolver problemas.

Crédito: Neyro2008 / iStock
Crédito: Neyro2008 / iStock

 

A culpa é dos petistas, que votaram no Temer para vice-presidente. Não, é de quem bateu panela, por enfraquecer a democracia e causar um golpe. A culpa pelo estupro coletivo de uma adolescente é de todos os homens. Não, não, a culpa é das mulheres, que se vestem desse jeito.

Em meio ao noticiário pavoroso, é assustador notar o quanto do debate público está focado em estabelecer culpas. Isso não é surpresa – a mente humana funciona assim mesmo. Sempre que algo dá muito errado, nosso cérebro rapidamente tenta estabelecer uma relação de causa e consequência e encontrar alguma coisa para culpar. Trata-se de um mecanismo bem útil legado a nós pela evolução. Nossos tataravós das cavernas, quando viam alguém comer uma frutinha vermelha e cair duro e morto no chão, logo entendiam que a fruta tinha sido culpada e riscavam-na da dieta. Essa capacidade de compreender relações de causalidade, que nos humanos é tremendamente desenvolvida, foi chave para que sobrevivêssemos como espécie.

Acontece que nem sempre há uma relação direta entre causa e consequência. Algumas coisas são complexas – o que significa dizer que elas têm causas múltiplas, difusas, imprevisíveis. Em sistemas complexos, mais importante do que achar culpados é compreender os padrões das coisas: entender o que “emerge” dos sistemas. Por exemplo, sabemos que sociedades patriarcais que contam piada sobre violência sexual e tendem a culpar as vítimas pelas agressões que sofrem costumam gerar um ambiente de impunidade para estupradores, que acaba servindo de estímulo para que mais estupros ocorram. É o que se chama de “cultura de estupro” – um caldo cultural no qual estupros acabam sendo comuns. É o que acontece no Brasil.

Isso não significa dizer que todos os homens sejam culpados pelo estupro coletivo que chocou o país na semana passada. Quem não estuprou ninguém não merece que lhe apontem o dedo como culpado pelo crime brutal. Mas não significa tampouco que o problema não diga respeito a todos. Diz sim: só se muda a cultura de um país se o país inteiro mudar sua visão sobre algo.

A solução para o problema não é colocar a culpa numa metade da população: é mudar a cultura. A resposta não é “a culpa é sua” ou “a culpa é minha”: é a constatação coletiva de que precisamos juntos mudar nosso jeito de encarar as coisas se queremos que haja menos estupros no futuro. Num sistema complexo, ninguém sozinho tem poder de mudar a cultura, mas todo mundo pode influenciar.
Colocar a culpa em alguém é tentador: é um jeito de dizer que todo o mal está do lado de lá, permitindo que nós próprios possamos nos sentir puros e bons. O problema é que isso não resolve problema algum. Se meio país afirma que a culpa de tudo é da outra metade, a metade de lá provavelmente vai retrucar devolvendo a culpabilização, e aí ninguém muda de comportamento.

Isso acaba nos levando a um círculo vicioso: o debate político vai se empobrecendo até que chega um ponto em que só se fala da culpa do lado adversário. Ninguém mais nem discute maneiras positivas de lidar com problemas. E, como a culpa está toda do outro lado, todos os lados se sentem à vontade de tomar decisões ruins (afinal, a culpa não é minha mesmo). E ninguém nem percebe que o que está profundamente errado na política brasileira não é esse partido ou aquele: há um sistema podre e falido, que só produz fracassos e constantemente leva às piores decisões.

Não estou dizendo aqui que não é importante punir aqueles que são comprovadamente culpados de crimes. Deve-se punir sim, com certeza. Os 30 e tantos estupradores do Rio precisam ser presos, até para sinalizar à sociedade que esse comportamento é inaceitável, e assim mudar a cultura. Políticos que sabidamente manipulam o sistema falido para ganho pessoal precisam de punição, não importanto seu partido, até para desistimular os sociopatas e mafiosos de entrar na política. Mas a punição sozinha não resolve problema algum se o desenho do sistema não mudar. Sistemas mal desenhados geram incentivos para que as pessoas se comportem mal. Não adianta punir um responsável e manter os incentivos errados em funcionamento. Não adianta, por exemplo, derrubar Dilma e colocar no lugar um governo formado quase que exclusivamente por políticos profissionais com problemas na Justiça e conflitos de interesse – é pedir para os problemas continuarem. Ou para eles piorarem.

Portanto, fica o pedido: na próxima vez em que você sentir a tentação de atribuir um problema a toda uma coletividade, na linha “motoristas são psicopatas”, “ciclistas são folgados”, “nordestinos são burros” ou “paulistas são fascistas”, que tal reprimir por um minuto esse seu instinto ancestral, herdado dos homens das cavernas, e parar para pensar um pouquinho. E aí, mudar a maneira de formular a reclamação. Em vez de dizer “a culpa é deles”, experimentar algo na linha “se algo mudasse, tal coisa poderia melhorar”. (Aviso: vai dar menos likes no Facebook.)

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