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Cultura

Como os artistas latino-americanos conquistaram Hollywood

Por Juliane Massaoka

Na última cerimônia do Oscar, Alejandro González Iñárritu subiu ao palco para receber a estatueta de Melhor Filme para Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância). Em seu discurso, o cineasta mexicano clamou por dignidade e respeito aos imigrantes que ajudaram a construir Hollywood e, numa instância mais profunda, a sociedade norte-americana. Com seus filmes e suas palavras, Iñárritu escreveu seu nome – praticamente impronunciável para quem só fala inglês – na história do cinema comercial. Ele foi o segundo latino-americano a vencer o Oscar de Melhor Diretor. O primeiro foi Alfonso Cuarón, no ano anterior, por Gravidade. A equipe de roteiristas de Birdman, que, além de Iñárritu, tem os argentinos Armando Bo, Alexander Dinelaris Jr. e Nicolás Giacobone, também conquistou o Oscar de Melhor Roteiro Original. Latinos demais no palco para uma noite só? Foi pouco.

Numa cerimônia marcada pela “brancura”, satirizada pelo apresentador Neil Patrick Harris, outras obras com fortes raízes latino-americanas surgiram: o longa argentino Relatos Selvagens foi finalista na categoria Melhor Filme Estrangeiro; o mexicano La Parka (do diretor nicaraguense Gabriel Serra), concorreu a Melhor Documentário em Curta-Metragem; e o O sal da terra – que conta a história do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado e foi dirigido pelo brasileiro Juliano Salgado, filho de Sebastião, e pelo alemão Win Wenders –, estava indicado a Melhor Documentário.

À primeira vista, o cenário de latino-americanos no tapete vermelho não mudou tanto assim. Artistas dessa origem ainda são minoria se compararmos com a quantidade de norte-americanos ou europeus. Mas as posições ocupadas e a forma como os latinos têm sido vistos nesta década estão cada vez mais distante do estereótipo que costumava reinar em Hollywood.

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Vai e vem latino

Até os anos 1960, Hollywood não estava muito interessada em produções cinematográficas latino-americanas e poucas tiveram sucesso mundial. Um dos raros a ter reconhecimento internacional foi o drama mexicano Maria Candelaria (1944), que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em uma época em que o cinema latino-americano produzia muitas comédias – as famosas “rancheras” mexicanas e “chanchadas” brasileiras.

O primeiro filme latino-americano indicado ao Oscar foi o brasileiro O pagador de promessas, em 1963, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. O longa já havia ganhado destaque no ano anterior, quando estreou e foi premiado nos festivais de Cannes, Cartagena e São Francisco. Ele foi dirigido por Anselmo Duarte em uma década marcada pela valorização cultural e abordagem de temas políticos no cinema latino-americano. Nessa época, no Brasil, reinava o Cinema Novo, com destaque para o diretor Glauber Rocha. Os argentinos Fernando Solanas e Octavio Getino e o cubano Julio García Espinosa também ganharam notoriedade por obras com um perfil similar.

Para o roteirista da Rede Globo e professor da PUC-Rio Lucas Paraizo, o Oscar dificilmente coloca este tipo de trama política com inspirações regionais no centro da premiação. “Geralmente, filmes preocupados em valorizar a própria cultura são indicados, no máximo, a Melhor Filme Estrangeiro”, diz Paraizo, que tem vasta experiência em indústrias latinas e hispânicas – o roteirista é formado pela Escuela Internacional de Cine y Televisión de Cuba, mestre em Artes Cênicas pela Universidad Autónoma de Barcelona e pós-graduado em dramaturgia pela Escola Superior de Cinema i Audiovisuals da Catalunya.

E foi na categoria de Melhor Filme Estrangeiro que o longa Argentino La historia oficial, de 1985, conquistou o primeiro Oscar do cinema latino-americano, com um enredo permeado por críticas à ditadura do fim dos anos 1970 e início dos 1980 no país. Em 1999, Central do Brasil foi indicado nas categorias Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz. Fernanda Montenegro foi a primeira latino-americana a receber esta indicação e abriu caminho para atrizes como a mexicana Salma Hayek (Frida, 2003) e a colombiana Catalina Sandino Moreno (Maria cheia de graça, 2005). Da mesma forma, com estética realista e roteiros bem brasileiros, Cidade de Deus (com quatro indicações ao Oscar) e Tropa de Elite chamaram a atenção do mundo. Os filmes colocaram em destaque o trabalho de Walter Salles, Fernando Meirelles e José Padilha.

Mas nem todos os filmes feitos na América Latina são sobre a cultura local. A partir dos anos 1990, muitas produções passaram a ser reconhecidas também por abordar temas universais. É o caso do argentino O segredo dos seus olhos, que levou a estatueta de Melhor Filme Estrangeiro em 2010, e dos mexicanos Como água para chocolate, Amores brutos (indicado a Melhor Filme Estrangeiro) , E sua mãe também (indicado a Melhor Roteiro Original), O labirinto do fauno (vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) e Biutiful (indicado como Melhor Filme Estrangeiro), que revelaram Alejandro González Iñárritu, Alfonso Cuarón, Guillermo del Toro e Guillermo Arriaga – todos eles conseguiram entrar nos Estados Unidos sem precisar cruzar ilegalmente o deserto, e estão lá até hoje, participando de alguns dos maiores sucessos de bilheteria da história.

Para os atores, o cenário também mudou. Rodrigo Santoro, que começou a trabalhar em Hollywood há aproximadamente dez anos, conta que, no início, recebia roteiros e já começava a procurar “Juan” ou “Pablo”, nomes latinos característicos em filmes tipicamente americanos. Em alguns filmes, como As panteras: Detonando, ele sequer tinha falas. A realidade hoje é outra: “No ano passado, em Jane got a gun [filme com Natalie Portman, sem estreia prevista para o Brasil], fiz um personagem escrito inicialmente para um irlandês. Até mesmo o nome, ‘Fitchum’, tem essa origem, e não foi alterado só porque o ator era eu”, conta Santoro, que trabalhou o sotaque para o papel. O brasileiro também estará na telona este ano ao lado de Will Smith no filme Golpe Duplo (em março, nos cinemas) e na TV com a série da HBO Westworld. Além disso, Santoro foi convidado para interpretar Jesus Cristo no remake de Ben-Hur, que chega em 2016. Ele acredita que, depois de muitas décadas de trabalho duro, a cabeça dos produtores americanos está mais aberta. “A gente vê que os heróis ainda são os americanos, mas o vilão não é mais necessariamente estrangeiro, como costumava ser”, observa.

Nos sets de gravação, Rodrigo Santoro já se deparou com muitos técnicos brasileiros na parte de áudio, iluminação e fotografia. O diretor e animador Carlos Saldanha, responsável por sucessos como A Era do Gelo e Rio, viu ainda mais de perto o trabalho de muitos profissionais da área de audiovisual nos Estados Unidos. Ele afirma que estudou com outros dois brasileiros na School of Visual Arts, em Nova York, e encontrou muitos outros quando começou a trabalhar na área de publicidade, em 1993, antes de existir o cinema de animação digital (que explodiu mundialmente com Toy Story, em 1995). Ele conta que é comum encontrar diretores de arte, câmeras e editores brasileiros em grandes estúdios como DreamWorks, Disney e Blue Sky, onde trabalha atualmente. Mas em outras áreas, a presença massiva latino-americana ainda é novidade.

 

A caminho de Hollywood

Para o cineasta carioca e professor de cinema da PUC-Rio Marcelo Taranto, não é só no cinema que os latinos vêm ganhando espaço. “Eu vejo que os filmes refletem o aumento latino nos Estados Unidos de uma forma geral, a questão latina dentro da cultura norte-americana se enfronhou de maneira muito acentuada nos últimos anos”, diz. Não era para menos. Na última década, a população latina dos EUA cresceu 43%, um aumento quatro vezes maior do que o do conjunto da população do país, que foi de 9,7% de 2000 a 2010, de acordo com o Census Bureau (o escritório de estatísticas do governo americano)**. Califórnia, Texas, Flórida, e Nova Jersey são os estados que mais concentram pessoas dessa origem. É natural que esse público queira se ver retratado na telona. Para Taranto, a indústria cinematográfica está em busca de estrelas que alavanquem as bilheterias, independente da nacionalidade.

A tecnologia e a internet também dão uma força. “Hollywood teve que se abrir mais, porque hoje os filmes vão para o mundo inteiro e faturam em todo lugar, então exite esse olhar para o mundo”, diz Rodrigo Santoro. E, como explica Carlos Saldanha, esta é uma via de mão dupla: produtores de Hollywood também têm muito mais acesso ao que é feito no restante do mundo. “Tropa de Elite nem passou nos cinemas dos Estados Unidos direito, mas a repercussão no Brasil foi tanta que o José Padilha chamou a atenção e foi convidado para dirigir Robocop”, observa. Lucas Paraizo concorda: “hoje é muito mais fácil [para os norte-americanos] saber quem é Wagner Moura ou Alice Braga, por exemplo”.

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O segredo dos nossos olhos

O fato de artistas latino-americanos conquistarem a confiança de cineastas e diretores de elenco que não se importam com a origem dos atores já é um grande avanço. Talento individual entra na jogada, é claro. Mas o jeito latino de fazer cinema também é diferente do padrão norte-americano. Para Marcelo Taranto, pela necessidade de produção em massa, a indústria norte-americana segue narrativas extremamente convencionais – geralmente com apresentação do personagem nos primeiros cinco minutos, um ponto de virada mais ou menos aos 25 minutos de filme, outro em uma hora e depois o desfecho. Ainda segundo o professor, essa regra quase aristotélica é uma forma que o público ainda compra, mas já começou a dar sinais de desgaste. “Não é que o americano não seja criativo, existem vários exemplos de gênios lá, mas latinos têm uma maneira diferente de pensar o cinema, vêm de uma escola de cinema de autor, inspirado pela nouvelle vague francesa, pelo cinema italiano, pelo próprio Cinema Novo brasileiro. Isso cria um diferencial: quebras de narrativas”, avalia.

A falta de estrutura e de uma indústria sólida também influencia na forma de trabalhar. Para o diretor de cinema e superior executivo de imagens da Rede Globo André Warwar, o cinema latino-americano é artesanal. “A gente faz cinema com dinheiro subsidiado. Se o governo não investir, o cinema brasileiro acaba. Quando a Embrafilme fechou, o Brasil ficou anos sem fazer filmes”, lembra. Warwar acredita que, por conta dessas dificuldades e limitações de produção, criou-se aqui um cinema de atores, que dá espaço para a criatividade do diretor. “A característica fundamental do cinema latino americano é um roteiro muito bem amarrado e a valorização da atuação, que é a essência de contar uma história: dois atores contracenando e uma câmera. Todo o resto existe para que isso aconteça”, opina o diretor.

Para ele, Alfonso Cuarón levou um pouco disso para Hollywood, apesar de ter se adequado aos padrões da indústria de lá, e o Oscar de melhor direção do ano passado foi uma prova de que o plano deu certo. “Gravidade se resume a uma atriz contracenando para a câmera. Aquele aparato todo não funcionaria se não tivesse uma excelente atriz e um excelente roteiro”, acredita Warwar.

Carlos Saldanha viveu na pele a mudança de um país com poucos recursos para a maior indústria cinematográfica do mundo e acha que profissionais que percorrem esse caminho desenvolvem a capacidade de fazer mais com menos. “[Nos EUA,] eu queria fazer mais coisas e eu tive as ferramentas para fazê-las, não tive barreiras. Em muitos lugares, como no Brasil, às vezes você tem muito pra dar, pra mostrar e pra fazer, mas não há projetos, tecnologia ou acesso”, compara. A falta de familiaridade de profissionais de países menos desenvolvidos com tecnologias de ponta não parece um obstáculo. “O que vale é a essência do profissional”, diz.

Outra qualidade dos latino-americanos apontado pelos especialistas é a experiência em gerenciar equipes. Marcelo Taranto conta que seu longa, A hora marcada, “tinha muita logística, muitas pessoas de diferentes departamentos, e era meu papel coordenar tudo”. Como Hollywood tem uma estrutura sólida de produção, a maioria dos profissionais da lá não tem essa vivência. A hierarquia e a burocratização faz com que seja difícil ter uma visão geral do trabalho. Por outro lado, a mesma produção que garante recursos também exerce um controle maior sobre o produto final e, de acordo com Saldanha, “isso pode gerar uma frustração criativa” em profissionais acostumados a ter mais autonomia. Por isso, é preciso tomar cuidado. “É importante saber o quanto cada um se sujeita, porque o cinema americano te dá um outro status como diretor, mas pode ser uma armadilha fazer um filme que não tem nada da sua essência”, alerta Taranto.

Em Hollywood, a bilheteria, maior dos indicadores mercadológicos do sucesso de um filme, é sempre uma preocupação. Um grande estúdio raramente pode se dar ao luxo de produzir um filme puramente artístico ou experimental. Todo o dinheiro investido precisa voltar. O funcionamento da indústria norte-americana influencia muito o processo de produção e filmagem. Em outros países, cujos filmes conquistam cifras bem menos estratosféricas, há menos dinheiro em jogo – e o jeito de fazer cinema é diferente. Rodrigo Santoro tem experiência com as variações. No início do ano passado, ele foi ao Chile para gravar um filme sobre os trabalhadores que ficaram presos numa mina em San José, em 2010. Em seguida, viajou a trabalho para a Argentina, depois embarcou para a Itália. Em cada lugar, ele conheceu artistas diferentes e passou por processos distintos. “Isso é muito enriquecedor”, garante.

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Como desenvolver o cinema na América Latina?

É importante avaliar como os latino-americanos são representados na maior premiação do cinema mundial, mas o Oscar não é a única referência possível. Este ano, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas foi criticada por não ter incluído entre os indicados das categorias principais nenhum negro. “A indústria americana criou um padrão de qualidade temático, que serve de referência para um certo tipo de cinema e o Oscar é o cume deste padrão”, pondera Lucas Paraizo. Para ele, é importante investir no cinema local sem focar tanto em premiações estrangeiras. Dar valor a uma obra brasileira só quando ela tem chances de ser indicada ao Oscar é fechar os olhos para o que fazemos de bom por aqui, que não é pouco.

Na América Latina, a televisão conseguiu se estabelecer como indústria, principalmente por ser um meio de mais fácil acesso em países pobres. “O que a gente conseguiu fazer na televisão é o que os EUA conseguiram fazer no cinema, há um padrão, um modo de fazer consolidado”, diz Paraizo, que escreveu o seriado A Teia e atuou como colaborador no remake de O Rebu, da Rede Globo. Segundo ele, para atrair público, o cinema no Brasil tenta se aproximar da TV. “Filmes de comédias poderiam estar passando na TV, e passam depois que saem de cartaz. Muitas vezes parece que foram pensados para isso. Não deveria ser assim. O cinema tem que criar uma linguagem própria e não obedecer ao padrão da televisão”, opina.

Para ele há ótimos filmes que não foram mencionados no Oscar, como Casa Grande, de Fellipe Gamarano Barbosa, e Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, produções “que conseguem ser independentes, mas se comunicam com o grande público”. Carlos Saldanha acredita que é preciso criar uma base no cinema latino-americano, para que produções como estas não sejam acontecimentos isolados. Para ele, o mercado aqui é bom, mas muito instável. “É preciso fazer um investimento a longo prazo na indústria, construir mais cinemas para que se crie um público interessado em filmes, pois é isso que gera o custo-benefício dos projetos”, sugere.

A falta de continuidade de projetos é um obstáculo para a indústria nacional. Para fazer um mercado de animação, por exemplo, é preciso ter vários projetos enfileirados, para que os estúdios não percam o ritmo, os profissionais se desenvolvam melhor, e o público se acostume com a frequência dos lançamentos. Basta olhar para o exemplo da Pixar, que lançou 14 filmes entre 1995 e 2013.

Outra dificuldade é a distribuição. “Meu filme O crime da Gávea está pronto há mais de um ano e eu ainda não consegui distribuir e deve ter mais de 100 filmes brasileiros finalizados na prateleira”, conta André Warwar. Um exemplo da demora para se conseguir telas para exibição no Brasil é o Festival do Rio, que todo ano lança cerca de 12 filmes inéditos: muitos desses só entram em cartaz dois ou três anos depois da estreia e ainda têm que competir com filmes americanos nas salas dos cinemas. Para o diretor, o público brasileiro não tem muito interesse em ver filmes nacionais. Então, fica difícil competir com os blockbusters americanos. “A nossa cultura está impregnada pela cultura americana”, diz Warwar. Mas, enquanto houver gente talentosa, ainda haverá qualidade, mesmo que ainda demore para que os latino-americanos estejam em peso na cerimônia do Oscar, ou mesmo que nunca cheguem lá. E o talento latino, ninguém pode negar.

 

**na pesquisa, os termos latino e hispânico representam a mesma categoria de cidadãos.

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