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As casas também são personagens

Em Cem Anos de Solidão, a casa dos Buendía foi o lar de sete gerações na cidade fictícia de Macondo. Isabel Allende conta a história da família Trueba em A Casa dos Espíritos tomando Clara, a filha Blanca e a neta Alba como condutoras da trama. A estância do romance histórico A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski, foi o forte onde a família de Bento Gonçalves viveu durante a Revolução Farroupilha. No início do século 20, o sítio do Pica-Pau Amarelo apareceu em Reinações de Narizinho e segue no imaginário coletivo brasileiro como palco de uma infância idílica. Esses lugares são personagens tão fundamentais para o desenrolar das narrativas quanto seus protagonistas. E, apesar de serem descritos em obras ficcionais, eles são reais. Com realismo ou realismo mágico, essas casas existem porque nos relacionamos com os espaços onde crescemos, com os cômodos onde descobrimos o mundo, onde nós e nossas pessoas preferidas são as donas do enredo. Todo mundo tem um cenário, uma casa nostálgica, que ajuda a contar sua própria história.

A minha:

O “casarão”

O “casarão” (Rejane Carbonari/Superinteressante)

Esses são os fundos da casa que a minha mãe e meus cinco tios cresceram e onde meus bisavós também moraram. A foto foi tirada anos depois da saída dos meus avós. O vermelho sangue das janelas sumiu e as madeiras amarelas perderam a saturação com o tempo. O casarão, como a gente costuma chamar, foi a casa mágica da minha infância: tinha cinco quartos, baús em todos eles, mesas que dobravam de tamanho, roupeiros torneados que não existiam nas casas que eu frequentava em Porto Alegre, pipas de vinho no porão, fotos de gente que eu achava que não conhecia e um cheiro de cera tão forte que ainda consigo sentir.

Para chegar lá, era preciso seguir por uma estrada de chão costeada por plátanos, uma cerca de madeira sempre torta e um potreiro sempre verde. Via o casarão como uma fortaleza, um lugar de abrigo e alimento. A foto não captou a imensidão da casa, do horizonte que se via a partir dela, nem do barulho dos quero-queros.

Até hoje, quando durmo de janelas abertas lembro da noite que a minha avó deixou que eu dormisse com ela. As janelas do quarto ficaram abertas a noite toda, ou o tempo que bastou para que eu adormecesse. Da cama dava pra ver a lua, que iluminava as ovelhas e os cinamomos  minha árvore preferida. Criança de apartamento que era, fiquei com medo e maravilhada. Ainda fico. É mágico lembrar das janelas vermelhas emoldurando aquele céu desconhecido e tão familiar. A casa era viva e cantava sozinha até quando todos estavam dormindo. Prefiro lembrar dela assim. Já a foto é um retrato de abandono. E esse eu prefiro esquecer.

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