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“Não existe um tempo universal”: entrevista com o físico Carlo Rovelli

O tempo perguntou pro tempo qual é o tempo que o tempo tem.
O tempo respondeu pro tempo que não tem tempo pra dizer pro tempo
que o tempo do tempo é o tempo que o tempo tem

O tempo é uma das mais fascinantes questões da humanidade e também a que mais interfere nas nossas vidas. São nove meses que nos trazem ao mundo, duas décadas que nos tornam adultos, cinco minutos que nos apressam, dez segundos que nos acalmam, meio século que nos enruga e uma incógnita de voltas no relógio que nos mata. Não foi à toa que virou esse trava-língua infantil – para entendermos desde crianças que, mais fundamental que resolver seus mistérios, é aprender a lidar com eles.

O italiano Carlo Rovelli, no entanto, não teme o tempo. Ele acaba de lançar A ordem do tempo, onde encara esses dilemas atemporais munido de referências da Antiguidade Clássica e da física moderna, sem perder de vista a pressa que define o nosso tempo. Sua habilidade para explicar grandes questões da física é reconhecida, inclusive, por quem não se encanta por ela. A linguagem de Rovelli é didática, poética, sucinta e, mais importante de tudo, acessível. Sete breves lições de física, lançado em 2014, fez tanto sucesso que deixou Cinquenta tons de cinza para trás na lista de mais vendidos da Itália – um feito considerável para uma obra científica.

 (Companhia das Letras/Divulgação)

Neste novo livro, o italiano mostra que não existe um único tempo, mas vários (sinta-se livre para citá-lo na próxima vez que chegar atrasado). Ele nos convida a discutir os conceitos de passado, presente e futuro; explica que o tempo passa mais rápido quanto mais longe estamos da Terra e se permite dar um tempo à contemplação do tempo. Como você pode ver no trecho a seguir:

“O canto, como observou Agostinho, é a consciência do tempo. É o tempo. É o hino dos Vedas que é, ele mesmo, o desabrochar do tempo. No Benedictus de Missa Solemnis de Beethoven, o canto do violino é pura beleza, puro desespero, pura felicidade. Ficamos presos a ele, segurando o fôlego, sentindo misteriosamente que esta é a fonte do sentido. Esta é a fonte do tempo”.

Por e-mail, conversamos com ele:

Como percebemos o tempo?
Percebemos o tempo graças à complexa estrutura do nosso cérebro, que retém traços do passado como memórias e tenta constantemente antecipar o futuro. O que geralmente percebemos como “tempo” é esse conjunto de memórias e antecipações. Há, é claro, a estrutura física do mundo subjacente à função do cérebro, mas o tempo físico e o tempo percebido são coisas muito diferentes.

No livro, você explica que o tempo não segue o mesmo caminho em todos os lugares. Independentemente de onde estamos, como podemos mudar nossa percepção do tempo?
Nossa percepção da passagem do tempo muda facilmente, por exemplo, com certas drogas. Outra coisa é o tempo medido pelos relógios físicos, mecânicos ou eletrônicos. O tempo medido pelos relógios físicos também muda, dependendo de onde o relógio está e o que ele se move. Essas mudanças são reais, mas muito pequenas em nosso ambiente, portanto, geralmente não estamos atentos a elas e tratamos todos os relógios como se estivessem medindo um tempo comum. Mas não existe um tempo único, universal.

Se o tempo não é universal e unânime, aprisioná-lo em unidades de medida foi apenas uma convenção prática do ser humano?
Sim. As unidades de medida não “aprisionam” o tempo: são apenas ferramentas convenientes em nossas interações que nos dão a impressão de que o tempo é mais regular e universal do que realmente é.

Hoje, tempo é dinheiro. Você acha que monetizar o tempo e assim torná-lo material alterou a maneira como percebemos sua passagem?
A maneira como a humanidade percebe o tempo mudou diversas vezes ao longo da história. A chegada dos relógios contribuiu muito para essa mudança de curso. Hoje em dia, temos a impressão de não ter tempo suficiente para nada. Pode ser que isso seja bom: raramente ficamos entediados!

A ideia de que o tempo está passando cada vez mais rápido está ligada ao tempo ou ao espaço em que vivemos?
A quantidade de tempo que passa depende de onde estamos. Por exemplo, há mais tempo nas montanhas do que perto do mar. A diferença é pequena, mas pode ser medida facilmente. Se dois amigos se separam, um vai para as montanhas e depois se reencontram, aquele que foi para as montanhas viveu mais e envelheceu mais que o outro.

Quando aprendemos física, tendemos a vê-la como uma ciência exata. Mas seu trabalho faz exatamente o oposto, nos instiga a pensar filosoficamente como uma maneira de responder a muitas questões da vida humana. Na sua opinião, a forma como aprendemos física é o problema para não enxergá-la como uma ciência próxima e palpável?
A ciência é uma contribuição para compreendermos o mundo e, na minha opinião, deve ser ensinada como tal. Não é apenas resolver questões e problemas técnicos, é compreender o que está ao nosso redor. Eu gostaria que a ciência fosse ensinada dessa maneira.

Seu trabalho é admirado pela comunidade científica e também por leigos, curiosos em busca de respostas sobre os grandes mistérios do universo. Qual é o segredo para falar sobre ciência com todos os públicos — sem subestimar a interpretação de alguns ou ser incompreensível para os outros?
Quando escrevo, tento comunicar o que parece ser a ideia central, a mais interessante delas. Eu tiro todos os detalhes que não são essenciais. Sempre me concentro no núcleo. Isso facilita a compreensão do ponto principal de uma disciplina científica. E eu tento conectar as principais ideias sem sentimentos e preocupações humanas.

Você diz que nosso presente é como uma bolha perto de nós. O que diferencia o passado do futuro?
Todos os eventos que podem ter deixado rastros acessíveis para nós estão em nosso passado. Todos os eventos que podem nos afetar estão no futuro. No meio, há todos os eventos que não são nem passado nem futuro. Esses eventos entre nosso passado e nosso futuro são muitos. Em uma bolha relativamente pequena à nossa volta, eles formam uma fina camada entre o passado e o futuro, e é isso que chamamos de “presente”. Mais longe, entre o nosso passado e o nosso futuro há mais do que uma fina camada de eventos. Por exemplo, em Marte, o intervalo entre o nosso passado e o nosso futuro pode ser de 15 minutos.

Qual a influência de Stephen Hawking no seu trabalho?
Considerável. Eu uso seus resultados técnicos e fui influenciado por suas ideias. Admiro Hawking especialmente por causa de sua experiência humana única e sua força. Infelizmente, a mídia transformou-o em um romance de Newton ou um romance de Einstein, o que ele certamente não é. É uma pena, porque não há necessidade de exagerar, em apreciar e admirar um homem. O grandioso de Stephen é como ele viveu com a doença.

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