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Foto da repórter Maria Clara em um fundo vermelho. Mulher Cientista Por Maria Clara Rossini Todos as semanas, a repórter Maria Clara Rossini entrevista uma pesquisadora brasileira e explica seu trabalho. Acompanhe aqui e no Instagram da Super.

Duília de Mello estuda a interação entre galáxias que estão prestes a colidir

A #MulherCientista de hoje detectou pela primeira vez as "bolhas azuis": conjuntos de estrelas órfãs nascidas em pontes de gás entre duas galáxias.

Por Maria Clara Rossini Atualizado em 20 ago 2021, 19h42 - Publicado em 20 ago 2021, 18h19

A #MulherCientista de hoje é praticamente um membro honorário da nossa redação. Dez anos atrás, ela escrevia uma coluna semanal sobre astronomia para a Super. No meio da divulgação científica, ela é conhecida como a Mulher das Estrelas. Mas Duília de Mello faz bem mais do que compartilhar seu conhecimento com o público. A astrônoma nascida em Jundiaí, no interior de São Paulo, já participou de algumas das descobertas mais importantes do telescópio Hubble.

Na época em que prestou o vestibular, só havia um curso de graduação em astronomia no Brasil, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi lá que a pesquisadora se formou. Durante a carreira acadêmica, Duília orbitou (com o perdão do trocadilho) diversas áreas na astronomia. Seu mestrado foi em radioastronomia, a área que estuda ondas de rádio emitidas por objetos espaciais. Já seu doutorado foi sobre galáxias que estão em processo de colisão. É sobre elas que vamos falar.

As galáxias são classificadas de acordo com o seu formato. As espirais são aquelas com “braços” de estrelas que giram em torno do centro (chamado bojo). A Via Láctea, por exemplo, é uma galáxia espiral. Já as galáxias elípticas são mais simples: esferas disformes, que não possuem bojo nem braços.

Outra característica das elípticas é que suas estrelas costumam ser mais velhas, pois a galáxia não tem mais gás para formar novas estrelas. Duília investigou se isso também ocorria nas galáxias elípticas que estão prestes a colidir com uma espiral. Na época, acreditava-se que duas galáxias tão diferentes não interagiam entre si.

A pesquisadora fez observações no Observatório Interamericano de Cerro Tololo, no Chile, e olha só: ela encontrou estrelas jovens nas galáxias elípticas que estavam interagindo com espirais. A explicação é que a galáxia elíptica recebe o gás da espiral e usa ele como combustível para formar novas estrelas. 

As descobertas não pararam por aí. No pós-doutorado, Duília resolveu olhar para a interação entre as galáxias M81 e M82. Ela usou o telescópio GALEX, da Nasa, para observar uma ponte de gás hidrogênio que conecta as duas galáxias. E adivinha o que tinha lá: mais estrelas jovens.

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São estrelas que não pertencem a nenhuma das duas galáxias. Elas estão jogadas na imensidão do universo, órfãs. Receberam o nome de “bolhas azuis” – o motivo é que o telescópio utilizado só capturava a luz ultravioleta, e por causa dessa peculiaridade os conjuntos de estrelas pareciam borrões azuis à primeira vista.

A partir dessa descoberta, foram observadas centenas de bolhas azuis nas pontes de gás de outras galáxias. Mas não se sabia se aquelas eram estrelas velhas, que haviam sido arrastadas para a ponte, ou se eram estrelas novas formadas ali mesmo. A astrônoma também analisou a composição química dessas estrelas e verificou que, além de jovens, elas tinham diferentes elementos químicos. E a diversidade de elementos químicos só surge dentro das galáxias, com a explosão de estrelas.

Ou seja: as bolhas azuis foram formadas no meio intergaláctico, mas com o gás que veio de dentro das galáxias. Isso é importante porque as bolhas azuis podem ser um possível mecanismo de dispersão de elementos químicos no universo – já que elas eventualmente vão explodir e liberar esses elementos para fora das galáxias.

Essas são só algumas das descobertas de Duília. No início da carreira, ela descobriu uma supernova enquanto estava observando galáxias no Chile. Em 1997, a pesquisadora passou a trabalhar com o telescópio Hubble, estudando imagens das profundezas do universo. Já em 2003, ela começou a fazer pesquisas no Goddard Space Flight Center, da Nasa. Em 2013, Duília participou da descoberta da maior galáxia do universo, chamada NGC 6872.

Mas nada disso se compara ao projeto mais interessante que ela já participou na vida: astrofotografia. Durante a quarentena, ela se reuniu com um grupo de astrofotógrafos brasileiros para tirar fotos de galáxias distantes. Cada um faz a captura com o seu telescópio, e depois todos processam as imagens em conjunto para gerar a foto final. Duília diz que o grupo consegue captar detalhes que só são vistos com telescópios gigantes. “A gente vê as mesmas coisas que o Hubble viu”, diz a pesquisadora. As fotos ainda não foram divulgadas – o grupo pretende publicar um livro com as imagens finais.

Atualmente, Duília é vice-reitora da Universidade Católica da América, onde ela também dá aulas de física. Junto às pesquisas, gestão, aulas e projetos paralelos, a astrônoma ainda tem tempo de fazer divulgação científica. Ela mantém um blog na revista Galileu e constantemente participa de palestras e visitas a escolas. Ela é fundadora da associação Mulher das Estrelas, cujo objetivo é incentivar crianças, especialmente meninas, a seguir a carreira científica.

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