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É verdade que a cor azul só foi percebida recentemente pela humanidade?

Por Bruno Vaiano - Atualizado em 25 mar 2020, 10h42 - Publicado em 19 mar 2020, 18h44

Não. Os olhos de 3 mil anos atrás eram biologicamente idênticos aos nossos. A questão é linguística: se um idioma não tem uma palavra para uma cor, os falantes a consideram um tom de outra cor. E vários povos, ao que tudo indica, não tinham naquela época – ou não têm até hoje – uma palavra para o azul. Ele é considerado um tom de verde.

Isso não é tão bizarro quanto parece. Pense na cor das canetas marca-texto (ou daquela camisa do Palmeiras). É amarelo ou verde? É comum chamá-la de verde-limão, mas ela está no meio do degradê – poderia muito bem ser amarelo-limão. Em francês, por outro lado, essa cor tem nome só para ela: chartreuse. Viu como ajuda?

Essa discussão surgiu em 1859. No último capítulo de um livro publicado nesse ano, William Ewart Gladstone – que além de linguista por hobby foi primeiro-ministro da Inglaterra quatro vezes – notou que na Odisséia, poema épico atribuído a Homero, nada era chamado pela cor que tem. O exemplo mais típico é que termo equivalente a “cor de vinho”, usado para descrever sangue, também foi aplicado a uma nuvem escura, ao mar e a bois e ovelhas. O mel, por sua vez, é considerado verde.

Gladstone levantou a hipótese de que os gregos pensavam nas cores predominantemente em termos de claro e escuro, sem levar diferenças qualitativas (como a distinção entre amarelo, azul, vermelho etc.) em consideração. Muita gente diz que ele considerava Homero daltônico, mas esse é um erro de interpretação, e que é retificado neste artigo

Eles viam as mesmas cores que nós, mas usavam o vocabulário de outra forma. Um fenômeno verificado depois em muitos outros registros escritos da Antiguidade.

Depois, descobriu-se uma lógica universal na criação de palavras para cores. Se uma língua só tem duas, elas são preto e branco. Com três, entra o vermelho. Com cinco, aparecem verde e amarelo. O azul está só em sexto lugar.

Pergunta de @pedroivoantunes, via Instagram

Fontes: livros How the Mind Works, Steven Pinker; Through the Language Glass, Guy Deutscher.

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