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Por que todo mundo gosta tanto de BBB? O que três filósofos diriam.

O Big Brother é viciante por muitos motivos: nossa sensação de poder sobre as candidatos, a maneira como vemos nossos dilemas éticos refletidos neles, a nossa incapacidade de lidar com o ócio.

Por Bruno Vaiano 14 fev 2021, 10h39

1.

Jeremy Bentham, um filósofo iluminista britânico, talvez dissesse que o apelo do programa tem a ver com o poder que o espectador exerce sobre a subcelebridade na tela. Essa sensação não vem só do fato de que nós podemos votar em quem sai. Ela decorre, principalmente, da vigilância: como os moradores da casa passam o dia sendo filmados, eles não fazem a menor ideia de quais trechos serão exibidos em rede nacional. Portanto, precisam se comportar o tempo todo. Não podem sair do personagem que criam para si.

Bentham concebeu algo parecido no campo da arquitetura com a sua a prisão panóptica: um arranjo de celas circular em que um vigilante só mantém todos os presos em seu campo de visão – e ninguém sabe para onde ele está olhando. Para o iluminista, coibir absolutamente a intimidade seria um método de controle muito mais eficaz do quer a força bruta de manter carcereiros em todos os corredores. Como o preso nunca sabe se está sendo observado ou não em um dado momento, cada tentativa de transgressão se torna uma aposta de risco alto.

O conceito de vigilância absoluta de Benthan respingou em muitos trabalhos posteriores, tanto na esfera acadêmica quanto nas artes. Um deles é justamente o livro 1984, de George Orwell. A obra retrata um regime totalitário em que o ditador, batizado de Grande Irmão (daí o título do reality show) mantém todos os cidadãos sob vigilância por meio das teletelas: um aparato que ao mesmo tempo filma o ocupante do apartamento e exibe propaganda estatal constantemente. A ideia é que, caso a lavagem cerebral do cidadão não tenha sido 100% eficaz, em algum momento ele vai dar um fora – e as autoridades poderão identificá-lo.

2.

Jean Baudrillard é um filósofo pós-estruturalista francês que morreu em 2007. Ele foi um importante analista da mídia e da cultura contemporânea, e seu livro Simulacros e Simulação é um dos pilares conceituais da série de filmes Matrix.

No livro, Baudrillard não diz só que a cultura contemporânea é artificial, porque o conceito de “artificial” ainda exige que você retenha algum senso do que é a realidade para pode compará-la às coisas artificiais. A questão é outra: nós perdemos a habilidade de distinguir o real do artificial. Por exemplo: um homem entra em um banco e ameaça os clientes com uma arma de brinquedo. Desde que ele não precise realizar um disparo, ninguém nunca saberá que o revólver é falso. Os clientes ainda ficarão traumatizados. A caixa ainda entregará o dinheiro. A polícia, inclusive, ainda vai matar o ladrão se tiver uma chance.

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Outro experimento mental: você pode mostrar uma foto do seu namorado para seus amigos. E ela é um reflexo básico da realidade: representa o que você vê quando olha para ele. Mas você pode dar um passo além e usar o Photoshop para meter um tanquinho nele. Isso é um primeiro grau de perversão da realidade. O próximo passo – o grau dois de perversão – é pegar uma foto aleatória de um cara na internet e dizer que ele é seu namorado, mas mora em outra cidade. Por fim, dá até para usar uma inteligência artificial que produza, do zero, um rosto de alguém que nunca existiu. Esse é o terceiro grau de artificialidade, ainda mais alto.

Assim, Baudrillard diria que o reality show nos atrai porque é uma simulação caricata da realidade. Para o francês, o BBB é uma forma de voyeurismo psicológico: vemos candidatos a subcelebridades, que encarnam personagens estereotipados, agirem de forma medíocre e banal – e ansiamos por ver dilemas éticos do nosso cotidiano encenados por eles. Por exemplo: um tweet do tipo “A Lumena resume tudo que tá errado com a esquerda brasileira” escrito por uma pessoa de esquerda demonstra que o espectador viu atitudes de seu círculo social refletidas na personagem.

A questão crucial, porém, é que o BBB é tão real quanto a foto gerada pela inteligência artificial: nós assistimos como se tudo ali na tela fosse verdade, mas as pessoas vigiadas não agem da mesma maneira que agiriam se não estivessem sob a mira de câmeras o tempo todo. Isso torna a experiência hiper-real. Baudrillard escreveu isso na década de 80, mas já previa que logo tudo se tornaria um grande BBB: como nós mesmos passamos o dia sendo observados nas redes sociais, nossas próprias vidas se tornaram tão simuladas quanto às dos personagens do BBB.

3.

Domenico de Masi é um sociólogo italiano que ganhou ares de popstar do mercado editorial nos anos 2000 por sua defesa do ócio. E ele comenta o Big Brother justamente dessa perspectiva: sugere que o BBB é a falta do que fazer transformada em espetáculo. Pessoas que poderiam passar o tempo livre descansando ou fazendo algo criativo e prazeroso se oferecem para perder tempo em intrigas e fofocas ficcionalizadas – e nós, que também não sabemos curtir o ócio em paz, assistimos.

Nós nunca tivemos jornadas de trabalho tão curtas – mesmo pessoas pobres de países em desenvolvimento começam a trabalhar em média mais tarde (e dedicam menos horas semanais ao trabalho) que seus avós ou bisavós dedicavam. Isso é possível não só graças a avanços sociais, mas também por causa de uma grande quantidade de tecnologias, de smartphones a aviões, que permitem uma espetacular economia de tempo na realização de qualquer tarefa.

É óbvio que o mundo ainda não está lá essas coisas: a desigualdade ainda é grande, a miséria ainda é grande. Mas a qualidade de vida média no planeta Terra nunca foi tão alta quanto é hoje, e a criatividade nunca foi tão importante para gerar renda: se antes alguém podia ganhar a vida batendo pregos, hoje essa atividade é automatizada nas fábricas – e muitos empregos, em várias faixas de renda, envolvem a realização de tarefas que demandam jogo de cintura e flexibilidade.

Essas são capacidades que adquirimos no nosso tempo livre, com descanso de qualidade, convivência com pessoas de quem gostamos e atividades lúdicas e criativas. Mas, apesar dos tantos artifícios que a sociedade contemporânea tem à disposição para economizar tempo e obter esse ócio tão desejado, ainda vivemos uma falta de tempo crônica – porque ele se esvai com 4 ou 5 horas diárias acompanhando algo como o BBB na TV e nas redes sociais.

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