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A sonda Parker decola rumo ao Sol na madrugada deste sábado

Chegar à estrela não é fácil: o lançamento exige 55 vezes mais energia que uma viagem à Marte. E o trajeto conta com uma ajudinha da gravidade de Vênus.

Uma das coisas bacanas de trabalhar em uma revista que nem a SUPER é que volta e meia alguém da equipe de arte te convida para fazer um negócio diferente. É o caso da imagem acima: um modelo de LEGO da sonda espacial Parker, da NASA, que eu montei especialmente para ilustrar a nossa edição de maio.

Eu resolvi recuperar minha brincadeira com as pecinhas porque a Parker vai decolar às 4h33 da madrugada deste sábado (11), horário de Brasília, do Kennedy Space Center, na Flórida. O anúncio definitivo foi feito pela agência espacial americana na quinta (9), após um pequeno atraso em relação a previsão de lançamento original, que era 31 de julho. Quem quiser acordar cedo (ou dormir tarde, depende da perspectiva) pode acompanhar o lançamento ao vivo pela internet.

Embora a sonda em si tenha o tamanho de um carro 1.0, o foguete usado para transportá-la será o Delta IV Heavy, com 72 metros de altura e 600 toneladas de combustível no tanque. Dos veículos de lançamento em operação atualmente, ele é o segundo mais poderoso – só perde em capacidade para o inacreditável Falcon Heavy, de Elon Musk, que fez história no começo do ano.

O destino não é dos mais distantes: o Sol, que fica, em média, a 148 milhões de quilômetros da Terra. Essa distância varia ligeiramente ao longo do ano porque nosso planeta não percorre um círculo perfeito, mas sim uma elipse – isto é, um trajetória ovalada – em torno da estrela.

A Parker começará sua viagem dando uma volta em Vênus. Essa pequena parada antes do destino final servirá para a sonda perder velocidade e entrar em uma trajetória que a permitirá passar a 3,9 milhões de quilômetros da superfície do Sol (7 vezes mais perto do que o recorde atual). É uma distância enorme na escala humana, mas na escala cósmica, é uma fina de dar medo – dessas de motoboy em retrovisor.

Por isso, a Parker protegerá seus instrumentos científicos com um escudo de 11,5 centímetros, que alcançará 1371ºC, mas será capaz de manter uma temperatura próxima a 29ºC no interior da fuselagem. Isolamento térmico padrão Fifa. A nave precisa estar posicionada de forma que esse escudo sempre se interponha entre ela e a estrela – caso qualquer outra parte seja exposta à luz intensa, não vai sobrar muita coisa para contar a história.

A temperatura das partículas que compõem a coroa – a camada mais externa da atmosfera do Sol, que será atravessada pela Parker – beira ridículos 3000000ºC. Por que, então, o escudo alcança “apenas” 1400ºC? Simples: a temperatura é só uma medida de agitação das partículas. Mas para essas partículas transferirem calor para as coisas com que eles entram em contato, elas precisam vir aos montes. A densidade da coroa é extremamente baixa, ou seja: apesar de quente, a região é “diluída” o suficiente para não ser um problema.

O Sol, sozinho, é responsável por 99,8% da massa do nosso sistema estelar (inclua Júpiter nesse conta). Essa concentração de massa absurda pode fazer parecer que chegar lá é fácil: com tanta gravidade, praticamente qualquer coisa que você soltar no espaço aberto vai cair na direção dele, certo? Errado, infelizmente. Afinal, se ser engolido pelo Sol fosse assim tão simples, o Tesla Roadster lançado no espaço ao som de David Bowie em fevereiro já teria caído lá faz tempo.

A verdade é que chegar ao Sol exige 55 vezes mais energia no momento do lançamento do que chegar a Marte. Isso acontece porque a Terra já está se movimentando. E rápido: giramos em torno do astro rei à 110 mil quilômetros por hora. Para fugir da influência do nosso planeta – que quer que tudo continue girando em torno da estrela, em vez de cair na direção dela – é preciso fazer força para dentro.

Ao longo dos 7 anos de missão, a Parker se aproximará do Sol 24 vezes (a primeira delas daqui três meses). No intervalo entre essas aproximações, ela passará em outras ocasiões na vizinhança de Vênus – sempre usando a gravidade do planeta para ajustar sua rota. Cada um desses delicados cabos-de-guerra keplerianos é calculado à exaustão por astrofísicos. Qualquer imprecisão, por menor que seja, pode desviar a sonda para longe da estrela – ou, o que é pior, para perto demais dela.

A expectativa é que, nesse longo período de bronzeado cósmico, a sonda colete dados que respondam às perguntas ainda sem resposta sobre o astro mais importante para a vida na Terra. Só para dar um exemplo: a fotosfera – que é, para todos os efeitos, a “superfície” do Sol – fica a mais ou menos 5500ºC. Mas se você se afasta dessa região, a temperatura, em vez de cair, fica 500 vezes mais alta (lembra do papo sobre a coroa, alguns parágrafos atrás?). É como tomar distância de um forno e descobrir que na verdade está mais quente do outro lado da cozinha do que na frente do eletrodoméstico. Não faz sentido.

A Parker sabe melhor do que ninguém que curiosidade mata: depois de completar sua longa busca por respostas, ela não terá mais combustível para reajustar sua posição em relação ao Sol. Nesse momento, ela perderá a proteção do escudo. E, por falta de uma palavra melhor, será cremada. Um fim digno de Ícaro para a maior desbravadora de estrelas já construída.

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