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Afinal, por que os machos existem?

Por Fábio Marton É uma coisa que tomamos por um simples fato da vida, mas a existência de dois gêneros intriga os cientistas há décadas. Se as espécies podem se reproduzir por partenogênese – isto é, só existem fêmeas, que dão a luz sem contato sexual – ou por hermafroditismo –  onde todo mundo é […]

Por Fábio Marton

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É uma coisa que tomamos por um simples fato da vida, mas a existência de dois gêneros intriga os cientistas há décadas. Se as espécies podem se reproduzir por partenogênese – isto é, só existem fêmeas, que dão a luz sem contato sexual – ou por hermafroditismo –  onde todo mundo é menina e menino – por que essas formas não são a regra, ao invés da exceção?

“Quase todas as espécies multicelulares na Terra se reproduzem usando sexo. Mas sua existência não é fácil de explicar, já que o sexo traz consigo grandes dificuldades. A mais óbvia delas sendo que apenas metade de seus descendentes – as filhas – irão de fato produzir filhotes. Por que razão uma espécie gastaria tanto esforço em filhos?”, pergunta Matt Gage, da Universidade de East Anglia (Inglaterra).

Em outras palavras, machos parecem um desperdício. Até acontece, entre humanos, a maioria das aves e boa parte dos peixes, de os machos ajudem na criação dos filhotes. Mas isso é raro: em quase todos os animais, incluindo a imensa maioria dos mamíferos, o trabalho se resume ao bem-bom e nada mais, sem nem pegar o telefone ou mandar cheque de pensão alimentícia.

Gage é o condutor de um estudo que buscou determinar por que a evolução – que é absolutamente implacável em eliminar ineficiências – acabou favorecendo essa estratégia gastadora. A resposta, segundo ele, já havia sido dada por Charles Darwin: a seleção sexual. “A seleção sexual opera quando machos competem por reprodução e as fêmeas escolhem, e a existência de dois sexos diferentes encoraja esse s processos”, afirma o cientista. “Ela dita, em última instância, quem consegue reproduzir seus genes na próxima geração – por isso é uma  força evolutiva global e muito poderosa.”

Seleção sexual é o que acontece, num exemplo citado pelo próprio Darwin, entre pavões, que desenvolveram suas penas vistosas para se exibirem para as fêmeas.  Mas as experiências da equipe de Gage se focaram num alvo bem menos charmoso: o besouro Tribolium castaneum – o popular caruncho. As fêmeas dos carunchos também escolhem, principalmente através dos feromônios – a conhecida “química”.

Os cientistas deixaram os besouros se reproduzirem em condições particulares, para enfatizar ou bloquear a seleção sexual. Por sete anos, ou 50 gerações, eles separaram os bichinhos em dois grupos. Um deles tinha 90 machos para cada dez fêmeas, criando uma situação brutal de competição sexual. O outro tinha apenas um macho e uma fêmea em cada caixa, escolhidos aleatoriamente pelos cientistas, de forma que não houvesse seleção sexual nenhuma.

Após esses anos, o experimento entrou na segunda fase. Os cientistas testaram a saúde genética das duas populações de forma ainda mais bizarra: os besouros só puderam se reproduzir com suas próprias irmãs.

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“Amor, o que você fez no trabalho hoje?” [John Woodbury/whengeekswed.com]

O incesto serve para exacerbar as mutações ruins porque, como acontece em humanos, existe uma maior chance de genes recessivos com características negativas serem encontrados em parentes – ao se reproduzirem, eles levam a descendentes com duas cópias desses genes problemáticos, que desenvolvem doenças.

O resultado foi que, após 10 gerações, todas as linhagens de besouros descendentes dos “casamentos arranjados” acabaram extintos. Os que enfrentaram a superconcorrência por fêmeas se mantiveram por mais de 20.

Conclusão: quando as fêmeas puderam selecionar seus parceiros em livre concorrência, em um ambiente de seleção sexual, isso levou a uma população com menos genes defeituosos. “Esses resultados mostram que a seleção sexual para a saúde e persistência populacional, porque ela ajuda a remover a parte negativa e manter a positiva na variação genética de uma população”, afirma Gage. A seleção sexual, portanto, é a razão por que os machos existem.

Além, é claro, de abrir potes de vidro e trocar o botijão de gás.

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