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Matemática combate manipulação de distritos eleitorais

Políticos dos EUA mudam as fronteiras de distritos eleitorais para garantir a eleição de candidatos – e só algoritmos podem provar a falcatrua

Nas eleições brasileiras, seu voto vale o mesmo que o de todo mundo. Isso é discutível do ponto de vista social e histórico, mas a matemática da coisa é bem simples. Se há 10 mil pessoas em uma cidade hipotética, 6 mil votarem em Maria e 4 mil em João, Maria leva o páreo.

Não funciona assim no mundo todo. Nos Estados Unidos – e os noticiários explicam isso o tempo todo – as eleições são divididas em porções menores de território. Você e as demais pessoas de um distrito eleitoral vão eleger um só candidato – no final, ganha quem for vitorioso no maior número de distritos.

Isso gera distorções. Imagine a seguinte situação: os 4 mil eleitores de João estão espalhados por cidades afastadas – 2 mil em um, mil em outro etc. Já os de Maria estão todos concentrados em uma só grande cidade. Na hora da eleição, os 6 mil votos de Maria vão se concentrar em um distrito só – e João, apesar da minoria numérica, será vitorioso em vários distritos periféricos. João vira governador, mesmo com menos votos.

Em 1812 um político norte-americano chamado Elbridge Gerry, governador do estado de Massachusetts, percebeu que ele poderia criar distorções demográficas como essas onde elas não existem – manipulando as fronteiras dos distritos eleitorais para que eles dessem vantagem ao seu próprio partido. As eleições para o Senado estavam próximas, e só seria possível vencer com esse discreto empurrãozinho demográfico.  

Acontece que ele não foi tão discreto assim, e forçou tanto a barra na hora de bolar as novas fronteiras que um distrito específico, chamado South Essex, acabou saindo com o formato de um “T” bastante deformado. Os jornais da oposição sacaram o truque na hora, e perceberam que o tal bairro imaginário mais parecia uma salamandra mitológica, típica do folclore de vários países. Não deu outra: no dia seguinte, a charge que você viu ali no começo da página estava estampada por todos os lados.

O golpe baixo virou piada, e o nome do político foi unido ao do animal: “gerrymander”,  Gerry + salamander. Na segunda metade do século 19, o verbo já estava até em dicionários – e a prática passou a ser adotada por políticos com uma frequência assustadora. É ilegal? Claro que sim. Mas também é difícil de provar. Afinal, fronteiras são uma bagunça por natureza: rios, lagos, e serras – ou latifúndios, guerras e guetos – serviram de critério de divisão de territórios ao longo da história. E, por causa disso, encontrar uma desculpa para justificar um distrito deformado é mais fácil do que parece.

Agora, matemáticos resolveram comprar essa briga – e ajudar cientistas sociais e advogados a provar, literalmente por 2 + 2, que um distrito eleitoral foi forjado. Está marcado para agosto de 2017, na Universidade de Tufts – que fica, por ironia do destino, em Massachusetts –, um curso de verão sobre a geometria dos distritos eleitorais (veja o site oficial). Na programação, estão aulas sobre o uso de supercomputadores em questões judiciais, geometria métrica, análise de perímetros etc. Termos técnicos a parte, a ideia é uma só: pôr um computador para calcular algumas milhões de formas possíveis de dividir um território antes das eleições – e então usar critérios estatísticos indiscutíveis para traçar uma linha de segurança, a partir da qual qualquer tentativa de mudança será claramente uma manipulação.

“O workshop atraiu mais de mil participantes, nós estamos atônitos com a resposta das pessoas”, afirmou à Quanta Magazine Moon Duchin, um dos matemáticos que organizou o evento. “Nós estamos muito motivados a tornar nosso trabalho útil para resolver esse problema.”

Esse é o próximo passo de uma iniciativa que já começou dando certo. Em novembro de 2016, pela primeira vez na história uma decisão judicial impediu um caso de gerrymandering na prática. Só foi possível provar a manipulação graças aos números – desde a aprovação de uma lei específica contra a prática, em 1986, cientistas sociais e advogados jamais haviam conseguido acumular evidências estatísticas fortes o suficiente para demonstrar que a vantagem política havia sido intencional.

Para fazer isso, as contas são difíceis, mas a lógica é simples: basta calcular quanto da eficiência do voto de cada eleitor do partido da oposição é perdida em cada possibilidade de mapa. Por “eficiência”, entenda um número que representa o quanto seu voto vale a menos que o voto de um eleitor do partido oposto que mora na mesma região. Análises históricas revelaram que esse valor não passa de 7% em divisões territoriais justas. Em Wisconsin, ficou provado, votos de democratas valeram 13% a menos que os de republicanos em 2012, e 10% a menos em 2014. Mais claro, impossível. Os documentos da decisão estão disponíveis aqui.

Esse é um marco histórico para as ciências sociais – estamos cada vez mais próximos de transformar abstrações acadêmicas em números, e diminuir um pouco a barreira entre exatas e humanas. E esse pode ser um passo inédito para melhorar a transparência do setor público, a eficiência de políticas públicas e, é claro, o combate à corrupção.

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