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6 artigos da Wikipedia para alegrar a sua tarde

Tem um esporte que envolve passar roupa debaixo d'água, a lista de títulos de Kim Jong-il – maior que a da Daenerys – e uma longa página de discussão sobre qual é o lado certo do papel higiênico.

Por Bruno Vaiano - 30 Maio 2019, 16h48

1. A lista de listas de listas

A Wikipedia é repleta de listas. Para cada dia do ano, diga-se, há uma lista de eventos históricos relevantes – além de um compêndio de pessoas célebres (e não tão célebres assim) que nasceram e morreram na tal data. Hoje, por exemplo (30 de maio), é aniversário de Bakunin, o pai do anarquismo, a Espanha comemora 37 anos de sua inclusão na OTAN e a Agência Espacial Europeia, a ESA, completa 62 primaveras.

São tantas listas (dá uma olhada) que os editores acharam recomendável listá-las em uma lista de listas – que, por sua vez, contém listas de listas de listas. É um monumento ao TOC dos editores. Lá você encontra um compilado de filmes israelenses da década de 1920, a totalidade dos patrimônios históricos tombados na província de Walloon-Brabant, na Bélgica, e uma lista de animais – que por sua vez contém uma lista de répteis, que, por sua vez, contém uma lista de répteis americanos. A versão da Wikipedia nacional precisa comer muito arroz e feijão para alcançar o mesmo grau de onipresença onomástica.

2. “Buffalo buffalo Buffalo buffalo buffalo buffalo Buffalo buffalo.”

“Buffalo buffalo Buffalo buffalo buffalo buffalo Buffalo buffalo” é uma frase perfeitamente gramatical em inglês. Nela, a palavra “búfalo” é usada em três sentidos: o nome de uma cidade no estado de Nova York, o animal búfalo e búfalo como verbo – que significa algo como “provocar” ou “atiçar”.

No artigo sobre a frase, a Wikipedia em português a traduz da seguinte forma: “Búfalos de Buffalo, que búfalos de Buffalo intimidam, intimidam búfalos de Buffalo”.

3. Passagem de roupa radical

Em inglês, extreme ironing (aqui, o artigo em português, aqui, em inglês). Consiste em levar um ferro, uma tábua e roupas amassadas para passar em lugares exóticos – quanto mais exótico, melhor. Ninguém sabe ao certo se a prática é um esporte ou só uma maneira particularmente perigosa de ironizar a vida doméstica. A organização internacional que reúne os entusiastas a define como “o esporte que combina a emoção de uma atividade radical ao ar livre com a satisfação de uma camisa lisinha.”

Reza a lenda que tudo começou em 1980, quando um inglês anônimo chamado Tony Hiam se irritou com seu cunhado – que era fissurado em passar roupa em situações extremamente desnecessárias. Para tirar uma com o sujeito, Hiam começou a sacar seu fiel ferro em saguões de aeroporto, montanhas ou no teto de cabines telefônicas. A brincadeira foi longe: em 2012, um pioneiro da atividade conhecido pelo codinome Steam (“vapor”) correu uma meia-maratona com uma tábua atada ao peito, passando camisetas ao longo da prova.

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4. A lista de títulos de Kim Jong-il

Em Game of Thrones, o título completo de Daenerys Targaryen é: Daenerys Targaryen, A Primeira de seu Nome, Nascida da Tormenta, A Não Queimada, Mãe de Dragões, Khaleesi do Grande Mar de Grama, Quebradora de Correntes, Rainha de Mereen, Rainha dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhora dos Sete Reinos e Protetora do Reino.

É bem comprido, mas não chega perto do título de Kim Jong-il, ditador da Coreia do Norte, de acordo com a Wikipedia: Pessoa Superior, Caro Líder, Respeitado Líder, Sábio Líder, Brilhante Líder, Único Líder, Querido Líder que é a perfeita encarnação da aparência que um líder deve ter, Comandante-em-Chefe, Grande Líder, Pai do Povo, Sol do Futuro Comunista, Estrela Reluzente da Montanha de Paektu, Raio de Sol que nos Guia, Líder das Forças Armadas Revolucionárias, Garantidor da Unificação da Terra-mãe, Símbolo da Unificação da Terra-mãe, Destino da Nação, Estimado Pai, Líder do Partido, do nosso País e da nossa Nação, Sempre Vitorioso Comandante com Índole de Ferro e… bem, ainda tem 28 títulos pela frente – não vai dar tempo de digitar tudo.

5. O artigo sobre qual é a orientação correta do papel higiênico

O primeiro parágrafo diz tudo: “O papel higiênico, quando usado com um suporte de rolo cujo eixo horizontal é paralelo ao chão e também paralelo à parede, tem duas orientações possíveis: o papel higiênico pode ter a rotação externa ou interna do rolo em relação à parede; se perpendicular à parede, as duas orientações estão à direita ou à esquerda. A escolha é em grande parte uma questão de preferência pessoal, ditada pelo hábito. Em pesquisas com consumidores dos EUA e especialistas em banho e cozinha, 60% a 70% dos entrevistados preferem a orientação externa.”

Em seguida, vem um amplo levantamento sociológico e comportamental, embasado por artigos científicos, sobre como se dá a preferência pela orientação do rolo. O mais impressionante: é tudo tão idôneo que os autores do artigo não manifestam sua opinião particular em nenhum momento.

6. O artigo sobre o que a Wikipedia não é 

Karl Popper introduziu ao método científico o conceito de falseabilidade: não é possível provar que uma afirmação é verdadeira – só é possível descartar o maior número possível de possibilidades de que a afirmação seja falsa. É mais fácil explicar usando um exemplo: imagine que você quer provar que todo esquilo tem rabo. Não importa quantos esquilos com rabo você encontre, você não poderá generalizar essa afirmação para todos os esquilos. Tudo que você pode fazer é tentar encontrar um esquilo que não tem rabo – e falhar, o que vai reduzir sua incerteza em relação à afirmação de que todo esquilo tem rabo.

À maneira de Popper, a Wikipedia decidiu escrever um artigo sobre o que ela não é – que está aqui. Lá, você pode descobrir que a Wikipedia não é uma enciclopédia de papel e não é um dicionário – o que é um jeito educado de dizer que o tamanho dela é ilimitado, mas que você não deve criar um artigo para cada palavra que existe. Ela também não é uma bola de cristal, um jornal, um periódico científico ou um repositório de letras de música.

Mas também há constatações menos óbvias: a Wikipedia não é um palanque, e não pode ser alvo de campanhas publicitárias. Parece óbvio, mas não para todo mundo: neste mês – é maio de 2019, caso você venha do futuro –, os editores da enciclopédia descobriram que a agência de publicidade Leo Burnett fez uma campanha para a empresa de roupas outdoor North Face que consistia em substituir fotos de paisagens naturais brasileiras por outras que continham produtos da marca. Ficou feio.

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