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9 livros de divulgação científica que marcaram a década

Está cansado de só ver Stephen Hawking e Homo Deus na livraria? Boas notícias: há muito mais livros de ciência por aí. Confira algumas sugestões da SUPER.

A divulgação científica (chamada popular scienceem inglês) é o gênero de livros de não ficção voltado a traduzir as ideias complexas que circulam no meio acadêmico em textos que o leitor leigo possa compreender. É isso que a gente faz aqui na SUPER, mas no formato de revista.

É uma classificação bastante adotada entre os gringos, mas que quase não aparece nas livrarias e sebos brasileiros. O catálogo de divulgação científica das editoras nacionais (principalmente o voltado às ciências naturais) em geral é pequeno. Desabrigados, clássicos como O Gene Egoísta,de Richard Dawkins, ou Uma Breve História do Tempo,de Stephen Hawking, acabam indo parar em prateleiras sem noção, como “filosofia”.

Por causa disso, é comum que um leitor fique fascinado com a leitura de um autor popular como Carl Sagan, mas não saiba para onde correr quando esgota os títulos dele: quem mais, afinal, escreveu sobre o espaço? Onde posso encontrar outros livros parecidos?

Depois de três anos cobrindo ciência aqui na SUPER, acumulei uma pilha enorme de livros de divulgação científica que não entraram no mainstream. Foi uma jornada incrível. Há dezenas de autores talentosos e muito inspiradores, alguns jornalistas, outros cientistas de carreira, que estão escrevendo hoje com o mesmo amor pelo assunto que Sagan escreveu na década de 1980.

Para aproveitar a Black Friday, listei as obras publicadas nos últimos dez anos que mais me deram momentos eureka. Os bons livros de divulgação científica, exatamente como os romances, têm um clímax. Mas esse clímax não é o auge de uma história, e sim o momento em que uma longa explicação finalmente é concluída – e você tem a sensação de que aprendeu algo que nunca seria capaz de aprender.

Separei os livros em dois grupos: cinco que tem tradução no Brasil – e você deve ir correndo dar uma olhada – e quatro que infelizmente só têm edições em outras línguas, mas valem o investimento caso você mande bem no inglês ou no espanhol. Em uma nota final: a lista é completamente pessoal, é claro. Contribua nos comentários com suas indicações.

Vamos nessa.

A realidade oculta
Brian Greene
Companhia das Letras, 2012

O professor da Universidade Columbia é especialista em um ramo de vanguarda da física contemporânea chamado teoria de cordas – uma tentativa promissora de integrar os arcabouços teóricos da relatividade de Einstein e da mecânica quântica (e que, para tal, usa ferramentas matemáticas alienígenas até para quem já é do campo das exatas).

Neste livro, Greene explora com uma elegância ímpar nove veredas de diferentes áreas da física que levam a uma mesma previsão: a de que universos paralelos existem. E de que em alguns deles, inclusive, há cópias de você, lendo este mesmíssimo texto neste exato momento. Não é piada. It’s science, bitch. Você nunca mais vai olhar para o céu do mesmo jeito.

The tangled tree
David Quammen
Sem tradução no Brasil (“A árvore emaranhada”, em tradução livre)

David Quammen é um jornalista com textos publicados na National Geographic, na Harper’s, na Rolling Stone, na New York Times Book Review etc. Por 15 anos, teve uma coluna de viagens na revista Outside – a mesma que mandou Jon Krakauer, lenda do jornalismo literário, para a quase morte em uma escalada no Everest.

Em seu livro mais recente, Quammen reconstrói a jornada de Carl Woese, um biólogo taciturno que descobriu um novo domínio na árvore genealógica da vida: as arqueas. Elas são criaturinhas microscópicas que se assemelham superficialmente a bactérias, mas que geneticamente diferem delas o mesmo tanto que diferem que nós. A descoberta muito contestada pelos biólogos da época, e se converteu em um drama pessoal para Woese.

Para contar esse drama, Quammen menciona mais de cem cientistas, e entrevista no mínimo 50 deles. Ao longo do livro, alterna brigas dignas de novela com explicações sobre moléculas de RNA que conseguem tornar o assunto fascinante – um atestado de qualidade do toque de bola de Quammen.

Um Universo que veio do nada
Lawrence Krauss
Paz e Terra, 2012

Por que existe alguma coisa em vez de nada? Sem apelar para Deus – como convém a um ateu militante –, o astrofísico Lawrence Krauss se debruça sobre a questão mais fundamental do Universo: o motivo dele existir sendo que a não existência é um estado muito mais confortável.

A revolução das plantas
Stefano Mancuso
Ubu, 2019

Animais e plantas são opostos complementares. Os animais se movem, as plantas ficam enraizadas. Os animais liberam gás carbônico, as plantas o absorvem. Os animais precisam buscar comida, as plantas fabricam a própria comida. Os animais têm órgãos especializados em cada atividade necessária à vida, as plantas são construídas de maneira modular.

Os animais são indivíduos – no sentido de que não podem ser divididos –, as plantas se reproduzem por brotamento. Corte um animal ao meio e ele morre – a exceção honrosa são as planárias –, corte uma planta ao meio e, em muitos casos, ele se tornará duas.

Graças a essas diferenças, delegamos às plantas um papel paralelo na hierarquia da vida. Não necessariamente inferior. Paralelo. Um naturalista comum do século 19 considerava um rato menos evoluído porque seu cérebro tem uma capacidade de raciocínio e armazenamento de memórias menor que a nossa, ou porque seus dedos não são capazes de movimentos tão finos. As plantas, por outro lado, não possuem cérebro ou músculos. Não possuem sequer estruturas comparáveis à cabeça ou às mãos. Elas são outra coisa – simples assim.

De robôs dos Jetsons ao aparato burocrático do Estado, organizamos o mundo como nossos corpos: com um cérebro centralizador e uma hierarquia obediente. Neste livro-manifesto, o biólogo italiano Stefano Mancuso, o maior especialista vivo na inteligência das plantas, explica porque devemos buscar na arquitetura descentralizada dos vegetais soluções para os problemas que a civilização vai encarar nas próximas décadas.

Improbable destinies: fate, chance, and the future of evolution
Jonathan B. Losos
Sem tradução no Brasil (“Destinos improváveis: destino, aleatoriedade e o futuro da evolução”, em tradução livre)

Losos é um biólogo das antigas, desses que tiram fotos com lagartos exóticos em alguma floresta tropical e sabem reconhecer pássaros pelo canto. Ele também é fã de Stephen Jay Gould, o paleontólogo marxista e bonachão que escreveu alguns dos melhores textos de divulgação científica dos anos 1980. A inspiração vem bem a calhar.
No livro, Losos explora uma dúvida que beira o esotérico: a evolução é determinista ou probabilística?

Em outras palavras: se você pudesse voltar a fita da história da Terra para o momento da extinção dos dinossauros – e deixasse a irradiação dos mamíferos rolar de novo diversas vezes, como em um experimento científico – o desfecho seria sempre o mesmo? A cadeia de eventos sempre levaria aos animais que existem hoje, como elefantes e humanos (a hipótese determinista)? Ou, em cada ocasião, uma série de acontecimentos completamente diferente tornaria a Terra um planeta alienígena para nós (a hipótese probabilística)?

Brisa pesada, salpicada até com referências ao Bom Dinossauro – o filme da Pixar que não deu certo.

A invenção da natureza
Andrea Wulf
Crítica, 2019

A vida de Alexander von Humboldt – o naturalista mais famoso de seu tempo, e o grande inspirador de Darwin – contada em minúcias para um século que o esqueceu. Um livro chato sobre o século 18? Não se engane: na primeira cena descrita por Wulf, Humboldt escala o pico mais alto da Cordilheira dos Andes com as botas rasgadas e os pés em carne viva. Lá em cima, tem o insight que leva à fundação da ciência da ecologia: percebe que a Terra é um sistema fechado – e que os desequilíbrios gerados pelos seres humanos poderiam ter consequências desastrosas.

I contain multitudes
Ed Yong
Sem tradução no Brasil (“Eu contenho multidões”, em tradução livre)

Bactérias são coisinhas abundantes. Todas as bactérias do mundo, somadas, pesam 1283 vezes mais que todos os seres humanos do mundo, também somados. Estima-se que a quantidade de bactérias nos oceanos corresponda ao número 13 seguido de 28 zeros. Isso significa que, para cada estrela que há no céu (inclusive a maioria que está longe demais ou é pequena demais para ser vista a olho nu), há uns 10 milhões de bactérias. É uma para cada real pago por uma Mega-Sena média.

Assim, nas palavras de Andrew H. Knoll, “Nós evoluímos para nos encaixar em um mundo bacteriano, e não o contrário. Os animais podem ser a cereja da evolução, mas as bactérias são o bolo.” Neste livro, o jornalista Ed Yong explora as bactérias que existem dentro de nós. As colônias microscópicas que mantém o corpo humano rodando pela maior parte do tempo – mas só são lembradas quando causam algum problema. Você nunca mais terá medo de micróbios. Pelo contrário: andará por aí feliz de carregar consigo 30 trilhões delas.

Criação
Adam Rutherford
Zahar, 2014

Um livro dividido em dois: na primeira parte, Rutherford investiga a origem da vida na Terra: como moléculas de RNA, há 4 bilhões de anos, catalisaram pela primeira vez reações químicas capazes de dar origem a cópias delas mesmas. Foi a primeira forma de reprodução – o marco zero da irradiação da vida na Terra. Na segunda parte, o geneticista inglês, colaborador frequente do jornal Guardian, investiga como a biologia sintética – isto é, a vida criada sob encomenda no laboratório – vai revolucionar o mundo. Um olhar simultâneo sobre o passado e o futuro.

Outras mentes: o polvo e a origem da consciência
Peter Godfrey-Smith
Todavia, 2019

Ninguém sabe explicar o caminho evolutivo que fez os polvos desenvolverem três corações (um deles distribui sangue oxigenado pelo corpo todo, e os outros dois recebem sangue sem oxigênio e o levam até as brânquias, para que seja oxigenado) e, mais estranho ainda, um conjunto de nove cérebros. Eles possuem um cérebro central e oito paralelos, um dentro de cada tentáculo – num conjunto que totaliza 500 milhões de neurônios. É a mesma quantidade de um cachorro.

Mas os polvos são capazes de algo que nenhum canino faria: pensar com as pernas. Os tentáculos concentram 70% dos neurônios, e são capazes de se comunicar diretamente uns com os outros, sem passar pelo cérebro central. 

Esses animais, que divergiram do ser humano na árvore da vida há mais de 500 milhões de anos, são o mais próximo de um alienígena que um biólogo vai encontrar para estudar aqui na Terra. Neste livro – que inclusive rendeu uma ótima matéria da SUPER –, Peter Godfrey-Smith investiga minuciosamente a evolução e o presente dos moluscos de oito tentáculos.