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A hipnose contra a histeria

Antes da psicanálise, Freud usou hipnose para investigar problemas de pacientes. A técnica o ajudou com sua ideia revolucionária: o conceito do inconsciente

Era primavera de 1889 quando Sigmund Freud recebeu a paciente Emmy Von N. em seu consultório. A viúva rica de 40 anos vivia mal desde a morte do marido, 14 anos antes. Sofria de depressão, insônia, dores, crises de pânico. Seu nome verdadeiro era Fanny Moser, mas Freud consagrou o pseudônimo Emmy no relatório que escreveu sobre o caso. No primeiro contato, o médico notou que a mulher tinha gagueira e tiques na fala. Registrou também movimentos convulsivos e xingamentos pronunciados sem qualquer razão. Os indícios indicavam um caso de “histeria”, uma denominação genérica para todo tipo de desordem física com fundo emocional em mulheres e que surgia, supostamente, no útero. Hoje, o termo está obsoleto. Freud, de qualquer forma, recomendou internação, banhos quentes, massagens duas vezes ao dia e sessões de hipnose. Nada muito diferente do que vinha receitando desde 1885, quando voltou de Paris e abriu um consultório em Viena para tratar doenças da mente.

Para hipnotizar Emmy, Freud primeiro pedia que a paciente fixasse o olhar em um ponto, depois ela ouvia sugestões para relaxar, baixar as pálpebras e ficar com sono. Em um minuto, estava em transe, à mercê das orientações do terapeuta, que dava ordens diretas para a paciente parar de gaguejar, estalar a boca, tremer e xingar. Freud também aproveitava o estado hipnótico de Emmy para investigar a origem dos problemas. Pedia para a mulher lembrar em quais circunstâncias cada um dos sintomas havia se manifestado pela primeira vez. Ao falar sobre as lembranças, Emmy parecia melhorar. Após três semanas de hipnose, Freud havia feito diversos avanços. Emmy disse que sentia medo porque na infância foi constantemente assustada pelos irmãos, que nela jogavam animais mortos ou apareciam fantasiados de fantasmas. A gagueira começou quando ela precisou ficar muito tempo quieta para não acordar a filha doente. E listou ainda dezenas de outros traumas relacionados.

Depois de sete semanas, Freud deu alta para a mulher. O caso de Emmy Von N. ficou famoso na história da psicanálise. Em primeiro lugar, porque mostra Freud usando hipnose. Depois, porque evidencia que o médico aproveitava o transe para utilizar métodos distintos de tratamento: um focado em simplesmente fazer desaparecerem os sintomas, outro com objetivo de desvendar a gênese desses distúrbios. A mescla é reflexo das diferentes visões com as quais o médico de 33 anos se apoiava para desenvolver o seu estudo sobre as doenças da mente. A hipnose era um instrumento valioso de investigação.

Freud percebeu que a hipnose servia para resgatar memórias traumáticas.

Sigmund Freud concluiu o curso de medicina na Universidade de Viena em 1881. Era fascinado por pesquisas de laboratório, mas, para ganhar mais dinheiro, foi atender pacientes no hospital geral da capital austríaca. Vendo que a psiquiatria não era um ramo desenvolvido entre os colegas e que era possível progredir quase sem concorrências no terreno, Freud começou a estudar doenças nervosas. Em março de 1885, conseguiu uma bolsa de estudos de seis meses em Paris. Foi onde conheceu Jean Martin Charcot, médico que gozava de grande renome por conta de seus avanços nos campos da neurologia e da psiquiatria.

Freud ficou encantado com Charcot. Em cartas enviadas para a noiva, definiu o médico francês como “estimulante, instrutivo e brilhante”. De fato, Charcot era um figurão na França. O cientista tinha identificado e nomeado uma porção de males neurológicos, entre eles o aneurisma cerebral. Era capaz de diferenciar doenças físicas de distúrbios mentais. Além disso, ele tinha resgatado a hipnose para fazer dela uma ferramenta para combater uma variedade de sintomas.

O uso da hipnose por Charcot era simples. Ele primeiro colocava os pacientes em estado hipnótico. Depois, ordenava que, ao acordar, o doente não apresentasse mais determinado sintoma. Após a ordem, o paciente era acordado. Na maioria das vezes, o sintoma realmente desaparecia, sem que o enfermo soubesse o motivo. Era a técnica da sugestão hipnótica direta. Freud percebeu que, se a sugestão hipnótica era capaz de livrar os pacientes dos sintomas, a histeria não era uma doença fisiológica com origem no útero, mas um mal psicológico. Desbravar esse terreno oculto passou a ser seu grande objetivo de vida.

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Quando retornou de Paris a Viena, Freud pediu demissão do hospital e abriu um consultório de psiquiatria. Até então, casos de histeria eram tratados com massagens, banhos quentes, choques elétricos e medicamentos. Freud fez da hipnose sua principal arma para aliviar os sintomas dos pacientes. Ele tentou convencer médicos vienenses dos benefícios da hipnose, traduziu textos de Charcot, deu palestras, mas, cansado do que chamou de rejeição obtusa das suas ideias, decidiu se afastar da academia. E seguiu com a hipnose no consultório. Mas, ao longo dos meses, percebeu que sua atuação era quase mecânica. Freud desejava compreender as origens das perturbações dos pacientes. Não estava feliz no papel de burocrático hipnotizador.

Em 1889, Freud viajou novamente para a França, dessa vez para Nancy, onde foi aprimorar sua técnica de hipnose com o neurologista Hyppolyte Bernheim. E foi Bernheim quem mostrou a Freud que memórias traumáticas podiam ser resgatadas da mente de pacientes em transe. O médico francês dizia que, em condições normais, os doentes mantinham uma vigília que os impedia de rememorar certos episódios. O transe hipnótico derrubava a barreira. Então bastaria pedir insistentemente para que os doentes se lembrassem do trauma. Essa hipótese ajudou Freud a pressupor uma mente dividida em níveis, com algumas lembranças mais escondidas que outras. Freud estava descobrindo o inconsciente, teoria que iria desenvolver melhor ao lançar as bases da psicanálise.

Mas seu principal motor foi a parceria que manteve em Viena por dez anos com o médico Josef Breuer, que também tratava casos de histeria com a ajuda da hipnose. Os dois colegas, que trocavam informações sobre os tratamentos, escreveram juntos artigos como Estudos Sobre a Histeria, de 1893. Breuer, de maneira semelhante a Bernheim, percebeu que sob hipnose os pacientes conseguiam se lembrar de traumas. Mas ele não perguntava diretamente ao hipnotizado sobre os episódios, apenas pedia ao paciente para falar tudo que passasse pela sua cabeça. À medida que o hipnotizado falava algumas coisas, o terapeuta atuava como investigador. Pedia para o doente em transe falar mais sobre determinado fato e conduzia o paciente até as lembranças negativas. Era o chamado método catártico, em que os sintomas da histeria desapareciam após o paciente em transe recordar as situações em que os distúrbios surgiram.

A hipnose ajudou Freud a pressupor uma mente dividida em níveis, com algumas lembranças mais escondidas que outras. Ele estava descobrindo o inconsciente.

Funcionava. O problema era que, passado algum tempo, as crises voltavam. Foi o caso da própria Emmy Von N., que em 1890, um ano após ter sido considerada curada, voltou a procurar Freud para tratar os mesmos sintomas. Ele percebeu que a melhora era passageira porque, ao sair do transe, as pessoas não se lembravam mais do que haviam externalizado quando estavam hipnotizadas. Para Freud, isso fazia do paciente “um viciado dessa espécie de terapia”.

Freud decidiu procurar um novo método de investigação. Com a técnica da associação livre, o médico pedia ao paciente, agora consciente e deitado em um divã, para falar o que viesse à sua mente, permitindo ao analisado expor temores, desejos, pensamentos, sonhos e lembranças. Freud foi duro ao refletir sobre a hipnose em 1918. “O tratamento pela hipnose é um procedimento inútil e sem sentido”, disse em carta para a filha ao relembrar o trabalho feito com Emmy. A psicologia, no entanto, iria redescobrir a hipnose no século 20.