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A história de uma lua viva

A conexão estreita e real entre os seres vivos de Pandora atualiza uma das ideias mais polêmicas da biologia: a hipótese Gaia

Texto: Reinaldo José Lopes

Entre os Na’vi, ela é conhecida como Eywa; para os gregos, seu nome era Gaia, a Mãe Terra (ou Mãe Pandora, vá lá). De um jeito ou de outro, a ideia de uma poderosa deusa-mãe parece surgir com certa naturalidade entre civilizações pré-industriais. A di-ferença, claro, é que em Pandora os poderes de Eywa se manifestam de forma um bocado direta na maneira como todos os membros da biosfera (o conjunto dos seres vivos) na lua extraterrestre estão conectados. E se, na verdade, esse fenômeno fosse também uma propriedade intrínseca das interações entre os seres vivos na Terra, e provavelmente de qualquer planeta ou satélite com vida Universo afora?

É mais ou menos isso o que propõe a chamada hipótese Gaia, uma das ideias mais fascinantes e polêmicas da história da biologia. Seu criador e principal defensor é o químico britânico James Lovelock, hoje com 90 anos, que bolou a hipótese quando ajudava a Nasa a conceber experimentos designados para tentar achar vida em Marte e outros lugares do sistema solar nos anos 60 e 70. Lovelock não bolou o apelido de Gaia – a sugestão veio do romancista William Golding, na época vizinho do cientista -, mas ele abraçou o termo com tanto fervor que chega até a defender certas implicações religiosas para a ideia, o que o aproxima dos Na’vi.

Grosso modo, o que a hipótese Gaia diz é que o conjunto dos seres vivos da Terra (em especial os microrganismos, responsáveis por fazer a maior parte do trabalho pesado na nossa biosfera) inte-rage de maneira a manter o ambiente do planeta favorável à vida. Uma boa comparação envolve o corpo de uma pessoa ou de um animal. Assim como suamos no calor ou trememos no frio para que a temperatura do corpo continue constante, as várias formas de vida do planeta ajustam seu metabolismo (ou seja, a maneira como consomem matéria e energia) e comportamento de forma a impedir que a Terra se torne um lugar inóspito. Não é que Gaia seja capaz de manter todos os parâme-tros ambientais paradinhos por muito tempo: as va-riações acontecem e podem levar à extinção muitas espécies de tempos em tempos, mas no fim das contas a “nossa” Eywa conseguiria fazer as coisas voltar a um estado de equilíbrio. É como se a biosfera às vezes pegasse uma febre ou um resfriado, mas fosse capaz de curar a si mesma.


Evidências

Quais são os dados que apoiam essa conjectura aparentemente maluca? Bem, Lovelock tem algumas cartas na manga. Há, por exemplo, o fato de que a energia produzida pelo Sol aumentou até 30% desde que a Terra nasceu (lá se vão 4,5 bilhões de anos); no entanto, a temperatura da nossa casa planetária variou muito menos do que seria esperado levando isso em consideração. Coisas como a proporção de sal nos oceanos ou a composição da atmosfera – ou seja, a quantidade relativa de oxigênio, gás carbônico e outros gases – também se mexeram pouco nesses bilhões de anos, embora o normal fosse, por exemplo, um aumento considerável na salinidade do mar. Lovelock aponta alguns fenômenos que explicariam a autorregulação de Gaia. Certas algas microscópicas muito comuns, por exemplo, liberam moléculas que levam à formação de nuvens. E aumentar ou diminuir a nebulosidade ajuda a modificar a tempe-ratura “normal” do planeta.

Lovelock acha que esses dados são suficientemente fortes para que o conceito de Gaia deixe de ser uma hipótese e se torne uma teoria – ou seja, em linguagem não científica, Gaia já teria sido “provada”. No entanto, muita gente discorda. Richard Dawkins, zoólogo britânico e “papa” da Teoria da Evolução, lembra que a dinâmica evolutiva é, acima de tudo, egoísta: os seres vivos só desenvolvem comportamentos que sejam bons para a própria sobrevivência e reprodução. Por isso, a lógica indicaria que um sistema como Gaia (ou Eywa) não poderia evoluir, porque, enquanto alguns organismos estão ocupados bancando os faxineiros ou administradores planetários, outros aproveitariam a chance para se multiplicar à custa dos comportadinhos.

Os defensores de Gaia contra-argumentam dizendo que a configuração “boazinha” do sistema emergiu porque ela ajuda todos os seres vivos a sobreviver. Portanto, seria do interesse egoísta deles continuar a cooperar. No cenário de Pandora, porém, o funcionamento do sistema talvez seja facilitado – afinal, quase todos os seres vivos de grande porte que encontramos na lua ficcional podem ser comunicar por meio do “elo”, uma espécie de conexão neurológica que permite até “uploads” e “downloads” de informação.

O mero fato de não vermos “problemas de compatibilidade” (do tipo que acontece quando se tenta plugar um pc e um Mac, digamos) entre os Na’vi, os animais das matas de Pandora e as árvores que vivem na lua indica que eles compartilham uma origem evolutiva comum, e provavelmente uma história de cooperação que foi vantajosa para todos ali. O problema, no entanto, é o mesmo da nossa Gaia: os trapaceiros têm muito a ganhar caso tentem explorar o “elo” em seu próprio benefício. Uma árvore pandorana poderia muito bem tentar manipular o cérebro de um Na’vi para que ele se tornasse um “zumbi” plantador de suas sementes, por exemplo. Esse tipo de coisa acontece o tempo todo com parasitas e hospedeiros aqui na Terra. Nesse ponto, como em outros, o idílio de Pandora representa apenas o melhor daquilo que é possível no nosso próprio mundo.