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A máquina da longevidade

A vida eterna também faz parte da natureza. Veja o que está por trás do envelhecimento, e o que a ciência está fazendo para acabar com ele.

Texto Ana Gonzaga

Primeiro surgem rugas em volta dos olhos. Depois fica mais difícil enxergar de perto. Aparece uma dorzinha aqui, outra ali. O fôlego encurta. A imagem no espelho começa a incomodar cada vez mais…

Não deveria ser assim. Nós, coisas vivas, não funcionamos como carros, que começam a se degenerar logo que saem da fábrica. Nosso corpo tem o poder de sugar energia do meio ambiente e, com ela, fazer auto-reparos constantes nas nossas engrenagens, manter o óleo sempre em dia e deixar a pintura brilhando. Essa oficina mecânica interna funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Ainda bem: cada um dos nossos filamentos de DNA sofre ataques e danos a cada 8,4 segundos – 10 mil vezes por dia. Essas feridas precisam de tratamento para não morrermos de uma hora para outra. O DNA, afinal, é o chefe executivo de cada uma das nossas células. Se ele não estiver funcionando a todo vapor, a “empresa” que você carrega aí dentro entra em concordata. Você morre.

Esse mecanismo de autopreservação, aliás, tem o potencial de durar para sempre. Com as bactérias, nossas ancestrais mais primitivas, feitas de uma única célula, é assim. Tanto que, em 2000, cientistas americanos “ressuscitaram” uma que tinha ficado presa num depósito de sal 250 milhões de anos atrás. Quando a levaram para o laboratório e lhe deram nutrientes, a danada voltou a se reproduzir por duplicação, igual a qualquer bactéria que se preze, como se nada tivesse acontecido.

Isso significa que, se você der comida e proteção suficiente para uma bactéria, ela vai continuar se reproduzindo para sempre. E nenhum membro do clã vai morrer – claro que, na vida real, a comida ou a proteção sempre acaba, e aí elas vão para o espaço. Mas uma coisa é fato: as bactérias nunca envelhecem. Pesquisas recentes, aliás, sugerem que até alguns animais são assim. Seria o caso das tartarugas. Elas só morreriam por acidente – ao pegar uma doença letal ou ficar sem alimento, por exemplo. Nunca por velhice. Mas esse fenômeno seria uma grande exceção. Com os outros seres de organismo complexo não tem jeito mesmo. Nem toda comida e proteção do mundo nos livra do envelhecimento. Por quê?

Sexo e morte

Resposta número 1: morremos por causa do sexo. Cientistas especulam que a vida com prazo de validade apareceu junto com a reprodução sexuada, há 2 bilhões de anos – mais de 1 bilhão de anos depois das formas mais primitivas de vida, que não sabiam o que era transar. E essa nova prática só vingou porque traz vantagens. Por exemplo: os filhos de uma bactéria são geneticamente iguais à mãe, já que ela só produz cópias de si mesma. Agora imagine que essa bactéria mãe seja manca (claro que isso não existe, mas vamos supor só para visualizar). Todos os filhos, netos e bisnetos dela serão mancos. Aí, se acontecer alguma mudança no ambiente que desfavoreça as bactérias mancas, todo o clã morre. Na reprodução com sexo é diferente: um ser precisa unir seus genes com os de outro para deixar descendentes, certo? Desse jeito, o código genético da prole será uma mistura dos genes dos pais. Então uma forma de vida manca pode se juntar com uma normal e fazer descendentes que não tenham esse problema: mesmo que o ambiente mude, alguns filhos sobrevivem. E os genes seguem adiante.

Tudo de bom. Exceto por um detalhe: com o tempo, esse tipo de reprodução dividiu o DNA, e as células, de cada animal sexuado em duas classes. Uma é a “executiva”, de elite, formada pelas células reprodutoras, que têm a gloriosa tarefa de passar os genes adiante. E a “econômica”, bem mais numerosa, dedicada a manter o corpo funcionando enquanto procuramos parceiros para nossas células sexuais.

Então, depois que o organismo consegue pôr suas células reprodutoras em ação várias vezes, espalhando cópias de seus genes por aí (algo que a gente chama de “ter filhos”), a missão está cumprida.

Cumprida porque, desse jeito, um pouco do seu DNA continua vivinho da silva nos seus filhos, netos, bisnetos. Mais ou menos como acontece com as bactérias. Já as células que só existem para mantê-lo vivo, e não podem, elas mesmas, se reproduzir via sexo, viram bagagem desnecessária. “A evolução desenhou nosso corpo para que ele funcione bem só por um tempo que seja suficiente para procriarmos, para garantir que os genes sobrevivam. Depois disso, do ponto de vista evolutivo, não interessa o que acontece com ele”, diz o geneticista Thomas E. Johnson, da Universidade do Colorado, nos EUA.

Só tem um problema: essa “bagagem desnecessária” é nada menos que o conjunto de 10 mil trilhões de células que você chama de “eu”. Como você vai ver daqui para a frente, o mundo é cruel com ela.

Um corpo que cai

O caminho para o caixão começa bem cedo. O cérebro já entra em decadência quando nascemos. Logo que o feto está pronto, alguns dos nossos 100 bilhões de neurônios passam a morrer. Calcula-se que uma pessoa normal perca 85 mil dessas células cerebrais por dia. Mas, ao mesmo tempo em que eles vão perecendo, se formam novas conexões entre os que sobram. Como o número de conexões, as sinapses, é 10 mil vezes maior que o de neurônios, e são elas que cuidam da nossa capacidade de raciocínio, um processo compensa o outro.

Mas esse equilíbrio logo acaba. “Por volta dos 30 anos, a compensação é mais lenta e podemos dizer que aparece um saldo negativo”, diz a neurologista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ. “Aí começa o envelhecimento propriamente dito, inclusive com redução da massa cerebral.”

Com a maior parte dos outros órgãos é diferente. As células deles não param de se duplicar. As que morrem vão sendo substituídas por outras e tocam suas tarefas como se nada tivesse acontecido. Aí tudo bem: elas fazem seu cabelo crescer, mantêm sua pele lisinha, deixam o coração sempre em ordem e, de vez em quando, soltam compostos químicos que dão prazer cada vez que você passa seus genes para a frente (não deixe as células ficarem sabendo das suas camisinhas). Enfim, trabalham duro para que você leve uma vida mansa, sem sobressaltos.

Só que isso não dura para sempre. Como dissemos antes, o DNA sofre ataques do ambiente o tempo todo. Até ar puro faz mal para ele: 1% do oxigênio que respiramos se transforma, dentro do corpo, num agente conhecido como radical livre – um tipo de molécula que, quando entra em contato com o DNA, reage quimicamente com ele. E acaba danificando sua estrutura. Sem falar que a própria reprodução das células, coisa que acontece bilhões de vezes por dia pelo corpo, traz riscos. As células filhas deveriam ter as mesmas informações genéticas da mãe, já que elas não passam de um xerox biológico, certo? Nem tanto. Durante o processo de duplicação pode acontecer uma ou outra falha. E o DNA acaba com alguma mutação infeliz, que não o deixa trabalhar direito.

Tudo isso precisa de conserto. E nosso organismo fabrica compostos químicos capazes de corrigir os problemas na hora. Mas, com o tempo, ele deixa de cumprir essa tarefa com a eficiência de antes.

Isso acontece quando os homens passam dos 25 anos, em média, e as mulheres estão lá pelos 19. A essa altura, nossa “oficina interna” começa a não dar conta de tanto serviço. “Pequenos estragos vão se acumulando, e nosso metabolismo não tem mais como contorná-los”, diz a geneticista Aubrey de Grey, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Isso prejudica cada vez mais filamentos de DNA. Então algumas células deixam de trabalhar como deveriam na manutenção das nossas engrenagens. Ou morrem num ritmo mais acelerado. Aí aparecem rugas, fica mais difícil enxergar de perto, surge uma dorzinha aqui, outra ali. “É a idade chegando”, diria sua avó.

Parece um caminho sem volta. Mas a ciência está encontrando um jeito de, pelo menos, frear um pouco esse processo. Descobertas recentes indicam que você pode começar sua busca por uma longevidade maior de um jeito simples. Assim:

Fechando a boca

É isso aí. Testes feitos com animais desde os anos 30 não deixam dúvida: comer menos é a chave para uma vida mais longa. Ratos de laboratório em dieta forçada, comendo 50% menos, vivem o dobro, e com saúde. Também encontraram resultados parecidos em peixes, aranhas, moscas, cachorros…

E nós? Bom, ninguém provou por A mais B que isso funciona em humanos. Mas já começam a aparecer os primeiros indícios. Um estudo feito em 2006 pelo Instituto Nacional de Saúde americano avaliou os efeitos da restrição calórica em 48 pessoas de peso normal. Metade desse povo ficou 6 meses comendo 75% do que estavam acostumados – para quem ingere 2 500 calorias, isso dá uma dieta limitada a 1 875. Os outros mantiveram sua alimentação normal, para servir de comparação. Resultado: os que passaram pela restrição calórica tiveram o DNA menos danificado por radicais livres no período. E, como vimos, um DNA mais saudável é sinônimo de vida mais longa. Não se trata de uma prova definitiva. Mas, para boa parte dos pesquisadores, o resultado deixa claro que a redução calórica produz efeitos mais benéficos que a perda de peso pura e simples.

Outros pesquisadores, no entanto, acham que as vantagens da redução até existem, mas são pífias em humanos. Em 2005, os biólogos Jay Phelan e Michael Rose, da Universidade da Califórnia, criaram um modelo matemático sobre a relação entre consumo de calorias e longevidade, com base em dados de estudos feitos antes com homens e animais. A conclusão é que o aumento na expectativa de vida humana fica, teoricamente, na faixa de 3%. Ou seja, se um jovem que viveria 70 anos passasse a comer 30% menos, acrescentaria pouco mais de dois anos à sua existência. Muita privação para pouco efeito. “Os estudos feitos desde quando terminamos nossa pesquisa não conseguiram provar o contrário”, diz Michael.

Mas por que essa diferença entre humanos e animais? “Tenho uma suposição para o caso dos ratos: com o corte de calorias eles produzem menos células sexuais e param de fazer tanto sexo”, diz Jay Phelan. Esses roedores, afinal, investem uma quantidade absurda de energia para procriar. A fêmea produz ninhadas de 8 a 10 filhotes por mês, continuamente. E o macho está sempre cumprindo suas obrigações conjugais. “É desgaste demais para o corpo. E ele acaba envelhecendo”, diz.

Para Michael e Jay, é como se a restrição calórica só deixasse o funcionamento do corpo, seu metabolismo, em câmera lenta. Desse jeito o ritmo do envelhecimento frearia junto com o resto. Simples assim. Já David Sinclair, de Harvard, e Lenny Guarente, do Instituto de Tecnologia de Massachu­setts, dois dos maiores biólogos envolvidos com esse tipo de pesquisa, pensam o contrário. “Esse ponto de vista parece incorreto. A restrição calórica não freia o metabolismo. Acreditamos, sim, que ela induza as defesas do corpo”, escreveram em um artigo para a revista Scientific American.

Segundo a dupla, o corte de calorias faz isso porque turbina aqueles reparos no DNA. As células entenderiam a falta de comida como um sinal de perigo. Ficariam estressadas. Sob essa condição, elas dão uma recauchutada extra nos genes para aumentar suas chances de sobrevivência, “pensando” que estão num ambiente mais hostil que a realidade. É como se a gente enganasse a célula para que ela trabalhasse mais nos reparos do DNA do que normalmente faria. Por isso, imaginam, os animais ganham anos extras de vida – e nós também, por que não? Os pesquisadores não têm um chute sobre quanto tempo alguém conseguiria viver mais comendo menos. Mas estudam uma forma de conseguir os benefícios da privação calórica sem que ninguém precise fazer dieta. Eles concluíram que uma enzima chamada sirtuína dá o comando para a célula reparar seus genes quando a comida escasseia.

Quem faz a sirtuína é o próprio corpo. Mas existem substâncias na natureza com o poder de ativar essa enzima. Quer dizer: bastaria você usar alguma delas para ganhar anos a mais sem comer de menos. Uma dessas substâncias é conhecida como resveratrol. E está presente no vinho tinto.

Pesquisas recentes mostram que ele aumenta a longevidade de alguns animais em até 60%. David acredita que o resveratrol consegue emular os efeitos da restrição calórica por uma razão engenhosa: ele seria produzido quando a uva está sofrendo algum tipo de pressão, por falta de água, por exemplo. Aí, quando um animal come a fruta “estressada”, seu corpo fica ludibriado. Acha que o estresse é com ele, e ativa a produção de sirtuína.

Uma beleza. Mas não adianta beber vinho em todas as refeições para obter esse efeito. Não mesmo: os estudos usam uma quantidade de resveratrol equivalente à de 100 garrafas da bebiba.

Seja como for, o resveratrol já existe no mercado. Está disponível nas farmácias americanas. Cientistas, no entanto, alertam que as pesquisas sobre os efeitos do resveratrol em gente estão só começando. Ninguém sabe quais são os efeitos colaterais. Enquanto isso, a Sirtris Pharmaceuticals, uma companhia dos EUA da qual David Sinclair é sócio, anunciou que está fazendo moléculas sintéticas com a mesma função do resveratrol, só que bem mais potentes. Quem viver verá.

Fim da linha

O que acontece com o corpo quando nossa células já não conseguem trabalhar direito

Cérebro

A memória de curto prazo diminui: você pode lembrar de uma música que aprendeu na infância e esquecer da que acabou de ouvir.

Ouvido

A capacidade para ouvir agudos já começa a decair por volta dos 20; para os graves, a partir dos 60. A produção de cera aumenta.

Olhos

O cristalino, a lente capaz de focalizar objetos, vai perdendo seu poder quando você tem mais de 40. Aí fica difícil enxergar de perto.

Articulações

Os fluidos que servem para lubrificá-las vão diminuindo com o tempo. As cartilagens das juntas ficam mais finas. E os ligamentos perdem flexibilidade.Articulações Os fluidos que servem para lubrificá-las vão diminuindo com o tempo. As cartilagens das juntas ficam mais finas. E os ligamentos perdem flexibilidade.

Genitais

Nas mulheres, a vagina fica mais seca e menos elástica depois da menopausa. Nos homens, os problemas de ereção aumentam mais ou menos junto com a idade: na faixa dos 30 anos, 30% têm alguma disfunção erétil. Aos 70, 70%.

Pulmão

As paredes ficam mais rígidas e os músculos envolvidos na respiração, como o diafragma, enfraquecem. Com isso a capacidade pulmonar diminui em 40% dos 20 aos 80 anos.

Coração

Os vasos sanguíneos perdem a elasticidade. Isso “aperta” o sangue e faz subir a pressão. Aí o coração fica sobrecarregado e tende a aumentar de tamanho. A capacidade máxima de batimentos cardíacos durante exercícios cai 40%.

Numa fria

Existem 154 pessoas congeladas, “esperando” para ressuscitar um dia. Essa é a alternativa radical de quem quer uma vida eterna, mas não tem como esperar até que a ciência chegue lá (se chegar, claro). Hoje, há 4 empresas no mundo (3 nos EUA e 1 na Rússia) que fazem isso. Funciona assim: primeiro você fecha um contrato com uma dessas companhias e entra na fila para o congelamento. A Alcor, uma delas, cobra US$ 400 mensais por isso, mais US$ 150 mil a serem quitados no ato da sua morte – os clientes geralmente deixam um seguro de vida em nome deles, para facilitar. Aí, logo que você for dessa para a melhor, a empresa leva seu corpo para um tanque de nitrogênio líquido, a -196 oC. Como nenhum microorganismo agüenta essa temperatura, seu corpo não apodrece. O problema é que o congelamento arrebenta as paredes das células. Sabe quando uma garrafa de água fica no congelador, o gelo expande e ela arrebenta? Então. Se você quiser arriscar mesmo assim, saiba que tem um jeito mais em conta: por US$ 80 mil a Alcor deixa sua cabeça congelada. Só a cabeça.

Para saber mais

Sexo e as Origens da Morte

William R. Clark, Editora Record, 2006.

A Medicina da Imortalidade

Ray Kurzweil e Terry Grosman, Editora Aleph, 2006.

Você Pode Viver 100 Anos

Ivonete D. Lucírio, Editora Terceiro Nome/Mostarda, 2006.