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A natureza remodelada

Criaturas de todo o mundo estão se adaptando ao ser humano. É o que acontece quando aceleramos a evolução

Stefan Gan

A evolução não é só aquela força que dá origem a mamutes e dinossauros ao longo de milhões de anos. Ela está agora aí ao seu lado – e, pelo que os cientistas estão descobrindo, de forma cada vez mais rápida. Basta alguma coisa dificultar a vida de uma espécie – o que os biólogos chamam de “pressão seletiva”– para que ela seja forçada a se adaptar ou desaparecer. Nas últimas duas décadas, os cientistas descobriram que essas mudanças nem sempre se dão de forma lenta e gradual – muito freqüentemente, elas acontecem em 10 ou 20 anos. Hoje, a atividade humana tem gerado pressões seletivas em várias espécies e, sem querer, estimulado os seres vivos a se adaptar a nós (veja abaixo). “É importante perceber que o que estamos descrevendo são mudanças quantitativas nos organismos, como alterações no tamanho, na forma e na idade de maturidade”, diz o biólogo David Reznick, da Universidade da Califórnia, em Riverside. Para ele, essas pequenas alterações são o primeiro passo para as grandes mudanças evolutivas, como o desenvolvimento de asas nas aves. “Não sei quais serão os resultados de tudo isso, mas acho que serão muito maiores do que o esperado”, afirma o botânico Donald Waller, da Universidade de Wisconsin-Madison, EUA. Assim como o ser humano adaptou cavalos e cachorros ao seu modo de vida, é possível que ele sem querer domestique grande parte da natureza.

O mundo à imagem do homem

Nova rotina

A mudança que a humanidade está causando no clima também força os animais a se adaptar, alterando os padrões de migração ou de reprodução. Um exemplo é o esquilo-vermelho, que habita o território de Yukon, no Canadá. Por conta do aquecimento na região, a primavera chega mais cedo e as fêmeas da espécie dão à luz 18 dias antes do que ocorria há uma década. Os pesquisadores verificaram que pelo menos 13% da mudança estava relacionada à evolução da espécie e não à flexibilidade comportamental.

Peste reforçada

Insetos têm uma incrível capacidade de se adaptar às mais variadas situações – e os inseticidas e pesticidas que usamos para destruí-los só estimulam essa habilidade. Um estudo do Conselho Nacional de Pesquisa americano publicado em 2000 mostrou que alguns insetos precisam apenas de uma década para desenvolver resistência a um novo pesticida – alguns deles são imunes a vários. Estima-se que, só nos EUA, pestes resistentes a inseticidas custem entre 2 bilhões e 7 bilhões de dólares por ano à indústria agrícola.

Peixe pequeno

O bom pescador devolve os peixes menores ao rio, certo? Se apenas os peixes grandes forem pescados, no entanto, a tarefa de reprodução caberá aos peixes pequenos. Resultado: com o tempo, o tamanho da espécie tende a diminuir. Um estudo em laboratório da Universidade de Stony Brook, em Nova York, analisou dois aquários: em um, pescava os peixes grandes; no outro, os pequenos. Em apenas 4 gerações, os animais do primeiro aquário tinham em média metade do tamanho dos do segundo.

Bichos sem chifre

Caçador gosta de chifres: quanto maior eles forem em um animal, maior a probabilidade de ele ser abatido. O resultado dessa matança de chifrudos é que os genes que determinam essa característica estão sumindo. Resultado: sobram só animais com cornos pequenos para determinar o futuro da espécie. Em Alberta, Canadá, o tamanho dos chifres dos carneiros diminuiu 25 por cento nos últimos 30 anos. De forma parecida, a busca pelo marfim fez o número de elefantes sem chifres na China atingir mais do que o dobro da média normal.

Micróbios adaptados

Quase todos sabem que bactérias conseguem evoluir rapidamente e desenvolver resistência aos remédios que criamos para combatê-las. Mas a habilidade delas vai muito além disso. Em poucas décadas, bactérias conseguiram desenvolver a capacidade de quebrar e digerir substâncias que não existiam antes de o ser humano inventá-las em laboratório, como alguns herbicidas e explosivos como o TNT. Os truques para chegarem lá incluem enzimas capazes de aumentar as mutações em épocas difíceis e trocar genes entre vários indivíduos.

 

Vida radioativa

A vida em Chernobyl, na Ucrânia, parece estar voltando ao normal. Em 1986, uma explosão na usina nuclear local contaminou com radiação diversas regiões da Europa, destruiu florestas e provocou uma queda acentuada na vida selvagem dali. Hoje, o lugar é a primeira reserva natural radioativa do mundo e abriga mais de 100 espécies animais e vegetais. Os cientistas dizem que a biodiversidade é até maior do que antes, já que animais como ursos e lobos foram introduzidos na região depois do acidente. “O ecossistema parece estar normal”, diz o ecologista James Morris, da Universidade da Carolina do Sul, EUA, que pesquisou a região. O incrível é que a maioria das espécies não apresenta sinais físicos bizarros – em uma região com tanta radiação não seria estranho encontrar animais sem olhos ou com uma perna extra. A maioria das mutações são logo eliminadas pela seleção natural e as que permanecem são sutis, normalmente relacionadas a adaptações à radiação. Um exemplo são os ratos, quase extintos após o acidente. Hoje existem em grande número ali, apesar do estudo de um de seus genes ter indicado uma taxa de mutação 100 vezes maior do que o normal. É importante que os animais aprendam a lidar com a radiação: afinal, ela deve continuar ali por um bom meio milhão de anos.