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A última batalha

A Super passou 24 horas em uma das mais eficientes e exigidas salas de emergência do país e presenciou dois episódios da eterna luta humana contra a dor e a morte

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h51 - Publicado em 31 ago 2000, 22h00

Fábio Peixoto

– Você fuma, Fábio?

– Não –, respondo. – Os médicos dizem que isso faz mal.

– É. Mas o que faz mal mesmo é o estresse.

São quase 6 horas da manhã em Campinas, no interior de São Paulo. O dia amanhece e, ao meu lado, Waldemar Prandi Filho, cirurgião do trauma, traga fundo o cigarro. Aparenta calma ao falar. Nem parece ter passado pela brutal tensão que viveu há poucos instantes. O autocontrole do médico não é frieza ou desumanidade. Além de preservá-lo do estresse, evita que seu eventual nervosismo acabe fazendo mal também ao paciente – que depende da precisão e da plena capacidade de discernimento do médico para continuar vivo.

Menos de 20 minutos antes de Prandi acender o cigarro ele estava numa das salas de emergência do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, coordenando um procedimento extremo para reanimar um paciente acidentado. Paulo (nome fictício), 28 anos, chegou desacordado ao hospital às 4h10min da manhã daquela quinta-feira. Naquele momento, Prandi repousava num quarto reservado aos plantonistas – a madrugada estava excepcionalmente calma no pronto- socorro. Paulo, inerte na maca, cruzou o longo corredor cheio de pacientes em observação e foi recebido na sala de emergência por André Del Negro, um jovem médico no primeiro ano de residência (o período de especialização pelo qual passam os formados em Medicina). Paulo havia caído da carroceria de um caminhão em movimento e tinha, provavelmente, sido esmagado por uma das rodas do veículo. Percebendo a gravidade do caso, Del Negro acordou um colega mais experiente, Eduardo Hausen, do terceiro ano de residência. Com o rosto ainda marcado pelo travesseiro, Hausen examinou o corpo de Paulo e começou a massagear sua bacia. Imediatamente, pediu o equipamento de raios X.

– Pinta o pé dele – disse Del Negro a um enfermeiro, apontando para Paulo. Era a senha para que se fizesse a assepsia do local com iodo. Feita a “pintura”, Del Negro buscou um vaso sangüíneo no pé para que o paciente pudesse receber soro. A essa altura, seguindo o padrão para os casos de urgência, Paulo já estava com cinco eletrodos ligados ao peito, que conduziam os impulsos elétricos dos batimentos até um monitor preso na parede. Os sinais visuais e o bip constante indicavam que o coração do paciente batia 120 vezes por minuto. Era uma situação de taquicardia gerada pela hemorragia interna – nesses casos, o órgão procura compensar a falta de sangue em circulação batendo mais rápido. Del Negro tentou introduzir o tubo do respirador mecânico direto na traquéia de Paulo – outro procedimento padrão para mantê-lo vivo enquanto é feito o diagnóstico definitivo. Mas a mandíbula do paciente estava muito fechada e a solução foi bombear oxigênio manualmente com a ajuda de um “ambu” – uma bolsa de borracha com um cano introduzido na boca da vítima.

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Às 4h30min, chegou a máquina de raios X – chamada de “portátil”, embora seja grande e pesada. A sala de emergência, lotada com mais de dez pessoas entre médicos, enfermeiros, auxiliares e alunos de Medicina, teve que ser esvaziada para evitar o contato com a radiação. Enquanto as chapas eram tiradas, só Hausen e a operadora do instrumento permaneceram lá. Os raios X mostraram que o tórax de Paulo estava intacto, mas que havia fraturas múltiplas na bacia. Pelos cálculos dos médicos, mais de 25% do sangue do seu corpo estava preso no local lesionado, o que diminuía a pressão arterial e o mantinha inconsciente, em estado de choque. Os cirurgiões chamam isso de seqüestro de sangue, uma situação que exige a administração de soro e a transfusão sangüínea.

Embaixo de Paulo, na maca, um líquido com forte cheiro de álcool começa a se acumular. É provável que ele estivesse bêbado no momento do acidente, e que sua bexiga tenha estourado durante o trauma (um bom motivo para ir ao banheiro antes de viajar de carro: cheia, a bexiga costuma se romper em acidentes). O objetivo, em uma sala de emergência, é tornar os sinais vitais do paciente estáveis para encaminhá-lo logo ao centro cirúrgico. É o que estava para acontecer com Paulo quando, às 5 horas, Del Negro verbalizou o que os cada vez mais espaçados bips do monitor cardíaco já indicavam. “O coração está parando!” – os batimentos se aproximavam de zero. Paulo recebeu uma injeção de adrenalina e Del Negro começou a fazer massagem cardíaca para reanimá-lo. O esforço de Del Negro foi intenso, mas logo se mostrou inútil: não havia sangue suficiente dentro do coração para que uma massagem externa pudesse melhorar a circulação. Prandi, professor dos dois residentes, foi acordado e chegou na sala de emergência às 5h10min, com o cabelo desgrenhado e uma expressão de sono. Colocado rapidamente a par do caso, sentenciou: “Toracotomia ou nada!”. Uma expressão de surpresa ganhou o rosto de todos na sala, mesmo os enfermeiros mais experientes.

Chamada pelos médicos de “ato heróico”, a toracotomia é vista como a última alternativa – há hospitais que nem empregam essa técnica, que costuma ter sucesso em apenas 1% dos casos de traumas graves, como era o de Paulo. Quando ela acontece, é porque não há tempo para remoção, anestesia ou maiores cuidados com assepsia. Trata-se da última chance de sobrevida do paciente: “Se ele viver para ter uma infecção, ótimo!”, diria Prandi mais tarde. Del Negro e Hausen puseram suas máscaras cirúrgicas. E Hausen começou a trabalhar: com um bisturi fez um corte profundo no tórax tingido de iodo, um pouco abaixo do mamilo esquerdo. A seguir, introduziu na incisão o finocheto, um aparelho que força as costelas, afastando uma da outra para dar acesso ao coração. Com a ajuda de Prandi, a artéria aorta teve seu fluxo sangüíneo inferior bloqueado com um instrumento cirúrgico parecido com um alicate. O objetivo é concentrar a circulação do sangue no tórax e no cérebro, áreas vitais para a reanimação. Hausen, então, segurou o coração de Paulo e começou a massageá-lo. Os aparelhos não deram resposta. Em não muito tempo, os médicos se entreolharam. Não havia mais nada a fazer. Paulo estava morto. Eram 5h25min.

Antes que o corpo fosse suturado, Del Negro e uma outra residente experimentaram a sensação de massagear diretamente o coração de um paciente. Afinal, trata-se de um hospital-escola, em que os professores ensinam os alunos diante de casos reais. Os médicos recém-formados devem aproveitar a chance para aprender, com o maior grau de realismo possível, como agir numa toracotomia – um dia eles poderão ter que recorrer a essa intervenção para salvar uma vida. Na pia da própria sala de emergência, Prandi molhou as mãos e ajeitou o cabelo. Em seguida, saiu dali para fumar e espairecer.

– Fábio, você sabe o que me diferencia dos cirurgiões clínicos?

– Não. – Ele se referia aos médicos que não cuidam de traumas, apenas de emergências como um enfarte.

– Eles não podem ver sangue porque desmaiam –, diz, sorrindo.

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O bom humor é um parceiro inseparável de quem tem que encarar a morte todos os dias. É preciso saber rir quando se está na linha de frente da guerra que o homem trava desde sempre contra o seu próprio sofrimento e sua finitude.

O sol ainda nem está firme no céu e a sala de espera do pronto-socorro começa a encher de pacientes. Apenas 40% deles vêm da região de Campinas – a excelência do atendimento da Unicamp atrai gente de muito longe, inclusive de outros Estados. Paulo Eduardo Moreira Rodrigues da Silva, superintendente do hospital, diz que o pronto-socorro é visto, na região, como a última esperança para os casos graves. Repetindo uma expressão que está na ponta da língua da sua equipe de médicos, ele resume a situação: “Somos o fim da linha”.

A manhã da quinta-feira, após a tensão da madrugada, corre tranqüila. Os enfermeiros dizem estar surpresos com a ausência de vítimas de acidentes automobilísticos, tiros ou facadas – casos constantes entre os cerca de 300 atendimentos diários do pronto-socorro. Às 13h30min, uma pancada de chuva promete acabar com a calmaria. Todos ali sabem que a água faz aumentar o número de acidentes nas estradas. Mas não só nas estradas. Quarenta minutos depois, uma ambulância chega com uma vítima. André, 35 anos, trabalhava na cobertura de uma construção quando o vento levantou uma das lâminas do telhado. Ela o atingiu e derrubou de uma altura de 7 metros. Resultado: fratura exposta.

Levado rapidamente para a sala de emergência, André urra de dor. Como ele está respirando normalmente, não é necessário acionar o respirador mecânico ao lado da maca – uma pequena caixa de plástico verde que funciona sem energia elétrica, movida apenas pela rede de oxigênio instalada no pronto-socorro. Agora é a vez do tato do médico. Enquanto é examinado, André grita, num misto de indignação e impotência: “Por que ele me aperta tanto?!”. A resposta vem de uma enfermeira: “É um ortopedista que está vendo seus ossos” – o trocadilho involuntário arranca risos de alguns dos presentes na sala. O aparelho de raios X também entra em cena. Depois de receber um analgésico e um antiinflamatório, André é posto no corredor, à espera de que os médicos analisem os resultados das radiografias e dos exames pré-operatórios.

Mesmo medicado, André continua reclamando de dor. Finalmente, às 17h30min, ele é encaminhado para o centro cirúrgico – será operado em uma das três salas reservadas para pacientes vindos do pronto-socorro. Lá, todos têm que vestir roupas esterilizadas e usar máscaras, para evitar contaminações. O ar das salas é 99,99% purificado por filtros nas saídas de ar. André recebe anestesia peridural, aplicada na coluna vertebral, que o impede de sentir dor da cintura para baixo. Como a cirurgia promete se prolongar, ele recebe do anestesista uma dose de sedativos que o põem para dormir. Novos raios X são batidos. E confirmam que os ossos de André estão na posição correta, apoiados por um fixador externo de metal preso à perna por oito parafusos. A estrutura metálica é necessária, nos casos de fratura exposta, porque o gesso sobre a pele ferida aumentaria o risco de infecção. Apesar da gravidade do acidente, é provável que André volte a caminhar normalmente em três meses. Às 20 horas, a cirurgia termina. Enquanto os médicos concluem os pontos na perna de André, num canto da sala uma residente nos faz lembrar que estamos num hospital-escola: aproveita o final da cirurgia para ler uma apostila.

Nenhuma outra urgência chega ao pronto-socorro até a meia-noite. Para os padrões do Hospital das Clínicas, até que este é um dia calmo. Um grupo de médicos assiste à televisão na sala de estar, aguardando notícias sobre o resgate dos marinheiros a bordo do Kursk – o submarino russo que ficou preso nas águas geladas do norte da Europa. É um dos poucos instantes, dentro do pronto-socorro, em que a luta da vida contra a morte pode ser vista com distanciamento pelos médicos. Em relação aos russos, eles não podem fazer nada. Muito diferente do que vai acontecer quando a próxima urgência chegar, na madrugada que se avizinha.

fpeixoto@abril.com.br

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5h – Percebendo que o coração do paciente está parando, o médico residente tenta reanimá-lo com massagem cardíaca

5h 10min – A tentativa de reanimação não funciona, pois não há sangue suficiente no coração. O outro residente observa tudo atentamente. Ambos aguardam instruções do médico docente

5h 15min – Orientados pelo médico docente, os dois residentes escolhem os instrumentos necessários para abrir o tórax da vítima. Na foto de cima, você vê o respirador mecânico

7h – O palco da luta diária contra a morte é esta sala de emergência, equipada com instrumentos básicos de reanimação e manutenção da vida

14h 10min – Um paciente chega de ambulância pela porta do pronto-socorro reservada àqueles que não podem andar. Caiu de um telhado a 7 metros de altura e tem uma fratura exposta na perna direita

17h 30min – Depois de ser medicado na sala de emergência e de aguardar no corredor o resultado dos exames, o acidentado segue para o centro cirúrgico

19h 50min – Já sedado, o paciente tem sua pulsação medida por um aparelho conectado ao dedo. A cirurgia é longa e requer a utilização de uma furadeira elétrica

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20h – Cada procedimento exige várias substâncias e instrumentos específicos. Os enfermeiros se encarregam de montar os “carrinhos de cirurgia”

20h 10min – Ao final da operação de quase três horas, um anestesista aproveita para posar para a foto. Os ossos do paciente estão no lugar, como mostram os raios X, graças a um fixador preso à perna com oito parafusos

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