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Água limpa para o rio

O projeto desenvolvido por uma universidade catarinense propõe uma solução para que a extração de carvão mineral no Brasil não seja mais sinônimo de perigo ambiental.

Mariana Lacerda, de Siderópolis, SC

A poluição causada pela indústria carbonífera é um dos mais graves – e menos conhecidos – problemas ambientais que o Brasil enfrenta. A produção de carvão chegou a matar, por exemplo, trechos do rio Mãe Luzia, o principal da região de Criciúma, em Santa Catarina. Naquela área, atuam empresas que, juntas, respondem pela maior parte da produção de carvão no país. Mas um sistema desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental e Tecnológica (Ipat), da Universidade do Extremo Sul Catarinense, está conseguindo evitar que águas ácidas e com alto teor de metais cheguem ao leito do rio. O primeiro passo está na aplicação de cal aos efluentes, o que neutraliza a acidez e auxilia na remoção dos resíduos metálicos.

A extração de carvão vegetal pode ser danosa ao meio ambiente porque, durante o processo, pode haver a produção de ácido sulfúrico. Para servir de combustível, o carvão é extraído de áreas situadas a 150 metros abaixo da terra, num árduo e perigoso trabalho humano. Ocorre que ele tem, em sua estrutura geológica, um mineral chamado pirita, que é composto por enxofre. Em contato com a água e com o ar, o enxofre oxida e gera ácido sulfúrico. O ácido interage com superfícies rochosas e libera metais pesados como zinco, cromo e cádmio, perigosos para qualquer forma de vida. O problema é que a indústria carbonífera utiliza água ao longo de todo o processo produtivo.

Preocupados com o comprometimento cada vez maior dos cursos d’água, técnicos do Ipat desenvolveram um sistema para remover os metais e neutralizar os efluentes. A estação piloto funciona no pátio de estocagem da empresa Carbonífera Metropolitana, em Siderópolis. Toda água do pátio é escoada e bombeada para três tanques. Neles, a acidez do efluente é controlada com a aplicação de cal. “A cal também precipita os metais para o fundo dos tanques”, afirma o engenheiro de minas Carlyle de Menezes, que idealizou o sistema. Com o auxílio de reagentes, os metais aderem a bolhas de ar injetadas durante o processo. O que estava no fundo passa a boiar e, assim, pode ser recolhido da superfície da água. O resíduo segue, então, para um aterro controlado. “Estudos estão sendo feitos para que esse material seja aproveitado pela indústria de cerâmica”, diz Carlyle.

A Carbonífera Metropolitana consegue tratar até 8 mil litros de água por hora que, antes, desaguariam no Mãe Luzia. Ainda não é suficiente para resolver o problema. Toda água em contato com o a produção do carvão tem de ser tratada antes de rejeitada. Por enquanto, apenas a água do pátio de estocagem tem destino certo. Mas essas medidas provam que existe, sim, uma solução de baixo custo para minimizar os impactos ambientais. “Até 2005, conseguiremos tratar, com esse sistema, todo efluente de nosso processo produtivo”, afirma o engenheiro Giovano Izidoro, do departamento de Meio Ambiente da Carbonífera Metropolitana. Os rios catarinenses saem vitoriosos.