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Alumínio em excesso na água afeta sêmen e causa malformações em embriões de peixe

Grupo da USP descobre que alterações na temperatura, acidez e concentração de metais são suficientes para afetar a reprodução de lambaris – mesmo quando os rios não estão perceptivelmente poluídos.

Por Bruno Vaiano Atualizado em 16 nov 2020, 08h42 - Publicado em 15 nov 2020, 18h12

No imaginário popular, rio poluído é sinônimo de esgoto a céu aberto. Mas muitos corpos d’água estão contaminados de maneiras mais sutis – imperceptíveis para quem dá um mergulho, mas mesmo assim bastante danosas para os ecossistemas. 

O biólogo João Paulo Pinheiro se dedica a estudar os problemas que o alumínio causa na reprodução de peixes. Ele integra a equipe do Laboratório de Metabolismo e Reprodução de Organismos Aquáticos, na Universidade de São Paulo (USP), que investiga como metais e outros resíduos discretos da atividade humana – como fármacos – afetam a vida debaixo d’água. 

“Em quase todos os lugares em que nós trabalhamos existe pesca e lazer. A poluição não é perceptível”, diz João, que coleta amostras no interior de São Paulo. “Além disso, o alumínio que nós estudamos está presente naturalmente no rios – vem da erosão de rochas. O problema é que ele aparece em uma concentração anormal graças à atividade humana.”

O grupo da USP trabalha até com a água de partes mais limpas do Rio Tietê  – o rio é razoavelmente bem conservado em sua nascente, embora o trecho que cruza a capital paulista seja famoso pelo cheiro (só as capivaras, com sua paciência plácida, aguentam). 

O trabalho mais recente de João e seus colegas – publicado no periódico científico Chemosphere – trata de um peixe denominado Astyanax altiparanae, que você e seu estômago provavelmente conhecem por outro nome: lambari. Mais precisamente, lambari-tambiú. 

Em laboratório, a equipe liderada pela professora Renata Moreira avaliou como mudanças na temperatura, na acidez e na quantidade de alumínio diluído na água afetam as propriedades bioquímicas do sêmen produzido pelos machos dessa espécie. 

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A temperatura da água variou entre 20 °C  e 25 °C e o pH foi de 5,5, mais ácido que o neutro, que é 7. 

Além de reduzir a qualidade do sêmen, o metal, o calor e pH baixo afetam o desenvolvimento dos peixes bebês tanto no estágio embrionário (ainda dentro dos ovos) quanto no estágio larval (depois que os ovos eclodem). 

Os machos que vivem em águas com níveis anormais de alumínio têm dificuldades em fecundar os ovos. Quando a fertilização é bem-sucedida, o número de ovos que efetivamente eclode é menor, e o número de larvas com malformações aumenta. 

Esses resultados reforçam conclusões de outros dois artigos sobre alumínio publicados pelo grupo de João em 2019 e no meio de 2020, que analisaram outros parâmetros. Os pesquisadores observam de tudo: do formato da cabeça e do flagelo (o “rabinho”) dos espermatozoides a sua motilidade, ou seja: quantos deles nadam com vigor e quantos ficam largados por aí. 

Pode parecer óbvio que peixes que vivem em águas poluídas tenham um desempenho pior em todos os estágios de sua reprodução. Mas lembre-se: não estamos falando de um rio sufocado por esgoto. Para um leigo, essas podem soar como alterações discretas no equilíbrio do habitat. 

É uma demonstração clara de algo que o naturalista alemão Humboldt –  que foi um ambientalista antes de existirem ambientalistas –, já havia percebido no século 18: a natureza é interconectada, o que a torna vulnerável como um tecido. Se você puxa um fio, toda a trama pode se desmanchar. 

O ser humano, claro, é parte da trama: os peixes são a porta de entrada do alumínio e de outros metais na cadeia alimentar. Esses elementos pesadinhos da tabela periódica, que passam de animal para animal, também fazem mal a mamíferos como nós. Concentrações anormais de alumínio em seres humanos já foram associadas, por exemplo, à doença de Alzheimer.

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