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Anomalias em peixes do ES podem ter sido causadas por desastre de Mariana, sugere estudo

Mais de 60% dos animais analisados apresentaram deformidades em estruturas internas; relação com rompimento da barragem ainda é uma hipótese.

Por Amanda Nascimento 16 ago 2026, 17h02
Anomalias em peixes do ES podem ter sido causadas por desastre de Mariana, sugere estudo Priorizar nos meus resultados Google

Um estudo feito por pesquisadores brasileiros identificou, no litoral do Espírito Santo, o maior índice de anomalias já observado em peixes costeiros de todo o país. Segundo a pesquisa, 60,5% dos animais da espécie Stellifer naso apresentaram deformidades nos chamados otólitos sagitais – estruturas calcificadas localizadas nos ouvidos internos dos animais, responsáveis pelo equilíbrio e pela detecção de sons.

A título de comparação, a maior taxa de deformações já descrita em otólitos até então era de apenas 27,11%, entre os bagres da espécie Cathorops spixii.

É relativamente comum que espécies que habitam águas rasas, como zonas costeiras, sejam mais vulneráveis à poluição acumulada na lama e na areia e, por isso, apresentem anomalias. Ainda assim, o número sem precedentes de alterações encontradas nos arredores do município capixaba de Conceição da Barra levou os pesquisadores a outra hipótese. 

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Eles sugerem que a alta incidência de malformações pode estar relacionada ao rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em novembro de 2015. Em apenas 16 dias, o desastre liberou entre 50 milhões e 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, que percorreram o rio Doce até desaguar no Oceano Atlântico, na altura do município de Linhares (ES). 

“Comparando com outros trabalhos similares no Brasil e também expandindo para outras regiões, o nosso trabalho teve um resultado bem acima da média em quantidade de peixes com anomalias, o que possivelmente está relacionado às marcas do desastre”, destaca o pesquisador Jonas Andrade-Santos, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

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Mas é difícil afirmar com certeza que esta é a causa do fenômeno, já que pesquisadores não têm amostras de peixes na região antes da tragédia. Ou seja, trata-se de uma hipótese não confirmada.

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O que se sabe é que os Stellifer naso analisados pela pesquisa foram coletados quase sete anos após o rompimento da barragem, em 2022, e ainda apresentavam altas taxas de malformações. A persistência seria uma evidência da lentidão na recuperação do ecossistema costeiro do Espírito Santo. 

É por isso Andrade defende iniciativas de coleções biológicas de referência em universidades locais – o que, claro, precisa de financiamento. Isso permitirá que futuros estudos avaliem o impacto exato da contaminação ambiental nos seres vivos da região.

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Próximos capítulos 

A equipe encontrou um padrão específico nas alterações morfológicas: elas se apresentaram em duas regiões dos otólitos – a porção ventral e a margem caudal do sulco acústico. Eles identificaram esse padrão em 38 espécimes analisados, coletados na foz do Rio São Mateus, nas proximidades de Conceição da Barra. 

O próximo passo para os pesquisadores é compreender a fundo a gravidade da possível contaminação a partir de análises químicas. Assim, eles esperam identificar a composição dos minerais que deformaram os otólitos e, eventualmente, expandir o escopo do estudo para observar anomalias externas, como deformações nas nadadeiras dos peixes.

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A equipe também pretende atuar em outras frentes. O objetivo a longo prazo é monitorar a área de forma contínua com a ajuda de instituições locais focadas na recuperação do ecossistema.

Além disso, o plano é repetir a pesquisa na região daqui a cinco ou dez anos para avaliar se o ambiente costeiro impactado apresentará algum sinal de recuperação com o passar do tempo.

O estudo foi publicado na revista Ocean and Coastal Research.

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