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Após dois anos, Islândia volta a caçar baleias. Entenda o motivo

Para abater as gigantes, é preciso atingi-las com um arpão com explosivos. A carne é exportada para consumo humano no Japão, apesar da proibição internacional e das críticas sobre bem-estar animal.

Por Luiza Lopes 29 jun 2026, 08h00 | Atualizado em 29 jun 2026, 13h40
Após dois anos, Islândia volta a caçar baleias. Entenda o motivo Priorizar nos meus resultados Google

Depois de dois anos sem registrar nenhuma captura, a Islândia voltou a caçar baleias comercialmente. 

No último domingo (21), o navio Hvalur 9 matou duas baleias-fin (Balaenoptera physalus) logo nos primeiros dias da temporada, marcando a retomada de uma atividade que muitos acreditavam estar perto do fim.

Hoje, apenas três países continuam permitindo abertamente a caça comercial de baleias: Islândia, Noruega e Japão. A prática é alvo de críticas de organizações ambientais e de proteção animal, especialmente porque a baleia-fin é o segundo maior animal do planeta, atrás apenas da baleia-azul, e é classificada como vulnerável à extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

Na temporada de 2026, a Islândia autorizou a captura de até 150 baleias-fin e 168 baleias-minke, também conhecidas como baleias-anãs. As cotas são menores que as adotadas entre 2018 e 2025 – houve redução de 28% para as baleias-fin e de 23% para as baleias-minke.

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Por que essas baleias são caçadas?

A carne é destinada ao consumo humano. Embora ainda exista algum consumo na Islândia, o principal destino é o Japão, que importa boa parte da produção islandesa.

Esse hábito tem raízes históricas. Após a Segunda Guerra Mundial, a carne de baleia se tornou uma importante fonte de proteína para os japoneses, em um período de escassez de alimentos. 

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Hoje, porém, o consumo é muito menor do que era décadas atrás. Além disso, o próprio Japão voltou a ampliar sua frota baleeira e passou a produzir mais carne por conta própria, reduzindo a necessidade de importar o produto da Islândia.

Essa queda da demanda foi um dos motivos que levaram a indústria baleeira islandesa a interromper suas atividades nos últimos dois anos. O outro envolveu preocupações com o bem-estar animal.

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Em 2023, um relatório da autoridade veterinária da Islândia concluiu que os métodos utilizados para matar as baleias não atendiam aos padrões de proteção animal do próprio país. 

A caça comercial utiliza arpões com pontas explosivas, mas eles nem sempre provocam uma morte imediata.

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Estudos citados pela organização Whale and Dolphin Conservation (WDC) indicam que uma baleia pode levar até 20 minutos para morrer após ser atingida. Dados da temporada de 2022 mostram que 41% dos animais não morreram imediatamente e, em alguns casos, a agonia ultrapassou uma hora.

As conclusões levaram o governo islandês a suspender temporariamente a temporada de caça em 2023. Mesmo depois disso, nenhuma baleia foi capturada em 2024 e 2025, reforçando a percepção de que a atividade poderia estar chegando ao fim.

Isso não aconteceu.

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Pouco antes de deixar o cargo, o governo interino concedeu à empresa Hvalur hf., a única autorizada a caçar baleias-fin na Islândia, uma licença válida por cinco anos. Como essa autorização continua em vigor, a empresa decidiu retomar a atividade neste verão e já realizou as primeiras capturas da temporada.

A volta da caça provocou novos protestos. Antes da saída dos navios do porto de Reykjavik, um manifestante subiu ao mastro de uma das embarcações na tentativa de impedir a partida. Horas depois, ele desceu e foi retirado pela polícia.

Essa baleia vive por 200 anos. Cientistas descobriram por que

 

A retomada também reacendeu uma dúvida: se a caça comercial de baleias é proibida internacionalmente desde 1986, como a Islândia ainda pode realizá-la?

Naquele ano entrou em vigor uma moratória da Comissão Baleeira Internacional (CBI), organismo criado para proteger as populações de baleias após décadas de exploração intensa. 

A Islândia respeitou inicialmente a decisão, mas continuou realizando um pequeno programa de caça científica até 1989. Em 1992, deixou a comissão. Dez anos depois, retornou, mas registrou uma reserva formal contra a moratória. 

Na prática, isso significa que o país considera que a proibição não se aplica às suas atividades comerciais e, por isso, estabelece suas próprias cotas de captura.

Desde que retomou a caça comercial, em 2006, mais de 1.900 baleias-fin e baleias-minke foram abatidas na Islândia, segundo dados do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW). Somente a Hvalur hf. já matou mais de mil baleias-fin desde 2009.

Apesar da retomada, o futuro da atividade continua incerto. O governo islandês anunciou que pretende apresentar ainda neste ano um projeto de lei para proibir definitivamente a caça às baleias.

Se a proposta avançar, ela poderá encerrar uma prática que vem perdendo apoio dentro do próprio país: segundo a organização OceanCare, mais da metade dos islandeses já é contrária à caça comercial.

“A decisão da empresa baleeira de retomar a matança de baleias, apesar de tudo o que aconteceu nos últimos anos no país, é profundamente decepcionante. A caça comercial de baleias é uma prática ultrapassada e injustificável. Matar baleias para fins comerciais no século 21 não é necessário nem aceitável”, afirmou Mark Simmonds, diretor de Ciência da OceanCare, em comunicado.

 

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