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As vantagens brasileiras na corrida rumo à bioeconomia de baixo carbono

Biodiversidade, biomassa e recuperação de terras degradadas. Conheça alguns possíveis trunfos do País na transição global para uma matriz energética limpa.

Por Mario Tyago Murakami 1 set 2026, 08h00
As vantagens brasileiras na corrida rumo à bioeconomia de baixo carbono Priorizar nos meus resultados Google

é diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O texto a seguir foi originalmente publicado no site The Conversation, que reúne artigos escritos por cientistas. Vale a visita. 

Na noite da última quinta-feira, 27 de agosto de 2026, o autor do artigo abaixo, o cientista Mario Tyago Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), foi o vencedor na categoria Ciência da edição 2026 do Prêmio FCW, concedido pela Fundação Conrado Wessel – parceira de conteúdo e apoiadora financeira do The Conversation Brasil. O prêmio reconhece anualmente personalidades ou entidades que se destacam por terem talento inovador, liderança, abrangência social, trabalho, integridade e ética nos universos da Ciência e da Cultura. Na Cultura, o vencedor foi o Padre Júlio Lancellotti. Na Ciência, o prêmio que já é conhecido como o “Nobel brasileiro” teve como tema este ano a Transição Energética. É exatamente esse o assunto do artigo escrito com exclusividade por Murakami para o The Conversation Brasil. Aproveite!


A transição para uma economia de baixo carbono não será feita apenas com painéis solares, turbinas eólicas e carros elétricos. Ela também dependerá de outra mudança profunda: substituir parte dos produtos hoje derivados do petróleo por moléculas, materiais, combustíveis e insumos produzidos a partir de plantas e micro-organismos.

Essa é a promessa da bioeconomia. E poucos países reúnem tantas condições naturais, industriais e científicas para liderá-la quanto o Brasil.

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Essa afirmação não se baseia apenas em otimismo. Ela se apoia em cinco vantagens comparativas muito concretas: biodiversidade, biomassa disponível, terras degradadas mas recuperáveis com potencial produtivo, eletricidade de baixo carbono e uma experiência acumulada em bioenergia que poucos países possuem.

Biblioteca de soluções

A primeira vantagem é a biodiversidade. O Brasil abriga uma das maiores reservas de diversidade biológica do planeta. Mas biodiversidade não é apenas um patrimônio ecológico. É também uma biblioteca de soluções moleculares que a evolução escreveu ao longo de milhões de anos.

Microrganismos, plantas, animais e seus microbiomas produzem enzimas, moléculas e rotas metabólicas que podem inspirar novas tecnologias. O desafio é transformar essa riqueza natural em conhecimento, e depois em inovação.

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Nos últimos anos, pesquisas idealizadas e conduzidas pelo nosso laboratório mostraram esse potencial de forma clara. Um dos nossos trabalhos publicado no periódico científico Nature descreveu uma nova classe de enzima descoberta a partir da biodiversidade microbiana brasileira. Essas enzimas são capazes de acelerar a quebra da celulose, etapa chave para converter biomassa vegetal em açúcares, biocombustíveis e bioquímicos.

A descoberta não apenas modificou o paradigma do metabolismo microbiano de celulose, mas também aumentou em 21% a liberação de glicose de resíduos agroindustriais ao ser combinada a coquetéis industriais.

Esse exemplo mostra uma ponte rara entre descoberta científica e aplicação industrial ao conectar-se à plataforma biotecnológica brasileira OpEn, que aumenta a eficiência de biorrefinarias e mitiga a dependência tecnológica do país.

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Produzido a partir de subprodutos da indústria sucroenergética e customizável, essa plataforma nacional reduz emissões em até 50% frente a tecnologias importadas. E sinaliza uma bioindústria local capaz de converter resíduos agrícolas em bioquímicos, biocombustíveis e ingredientes para nutrição animal – um mercado potencial bilionário impulsionado pela substituição de insumos fósseis.

Intestino da capivara

A biodiversidade brasileira revelou outros caminhos. Um estudo do nosso grupo sobre o microbioma da capivara mostrou que o maior roedor do mundo abriga enzimas inéditas para degradar polissacarídeos vegetais, etapa chave para gerar açúcares e biocombustíveis.

A descoberta de novas famílias enzimáticas e módulos de ligação que direcionam e aceleram a quebra da biomassa reafirma a fauna brasileira como reservatório estratégico de soluções para bioeconomia.

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Dessa mesma pesquisa, derivou-se a descoberta de um mecanismo de controle que liga e desliga a enzima sob demanda, permitindo desenhar soluções biotecnológicas mais precisas. Esse avanço prova que a biodiversidade brasileira gera ciência de fronteira, novas tecnologias e cadeias produtivas.

Bagaço da cana

A segunda vantagem brasileira é a biomassa cativa, isto é, biomassa disponível na indústria em escala de centenas de milhares de toneladas sem custo, sem impacto ambiental adicional e limpa para direta bioconversão em novas moléculas.

Como potência agroindustrial, o Brasil gera mais de 562 milhões de toneladas de subprodutos como bagaço de cana, resíduos florestais e palhadas, em cadeias já estruturadas e sem disputar área com a produção de alimentos.

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Poucos países combinam ciência, indústria e uma oferta de matéria-prima residual tão abundante, previsível e concentrada. Esse é o diferencial estratégico para dar escala à bioeconomia nacional.

Terras degradadas

A terceira vantagem são as terras degradadas, um problema que pode virar solução. O Brasil possui mais de 100 milhões de hectares de pastagens com sinais de degradação, em torno de 60% da área total, segundo dados do MapBiomas citados pela Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).

Esse território é uma enorme oportunidade produtiva e ambiental. A recuperação dessas áreas, via bioenergia, florestas plantadas e sistemas de integração, permite expandir a produção sem desmatar vegetação nativa.

Como solos degradados são pobres em matéria orgânica, sua restauração volta a acumular carbono, permitindo gerar bioprodutos em larga escala com impacto climático positivo.

Trata-se, portanto, de desenhar uma bioeconomia que não apenas emite menos, mas que ativamente remove CO₂ da atmosfera, recupera solos e elimina a pressão pelo desmatamento.

Hidrogênio

A quarta vantagem é o hidrogênio de baixo carbono. O hidrogênio só é tão limpo quanto a energia usada para produzi-lo. Nesse aspecto, o Brasil parte de uma posição privilegiada.

A matriz elétrica brasileira combina hidrelétricas, solar, eólica e biomassa em um sistema interligado nacionalmente. Estudos recentes indicam que a matriz elétrica do país oferece condições favoráveis para a produção de hidrogênio verde em larga escala, com forte participação de hidrelétricas, eólica e solar.

Dados compilados sobre a eletricidade brasileira mostram que a maior parte da geração vem de fontes de baixo carbono, o que diferencia o país de economias ainda muito dependentes de carvão ou gás natural para eletricidade.

Isso importa porque o hidrogênio pode ser usado em setores difíceis de eletrificar diretamente, como fertilizantes, siderurgia, transporte pesado e combustíveis sintéticos. Se produzido com eletricidade limpa, ele pode reduzir emissões em cadeias industriais inteiras.

O Brasil ainda tem outro diferencial: pode combinar hidrogênio de baixo carbono com biogás, biometano, etanol, biomassa e CO₂ de origem biológica. Essa integração abre caminho para combustíveis sustentáveis de aviação, metanol verde, amônia de baixo carbono e outros produtos estratégicos.

Vantagem histórica

A quinta vantagem é histórica. O Brasil já provou que consegue construir uma indústria de bioenergia em escala. O etanol de cana-de-açúcar não nasceu pronto. Ele resultou de décadas de política pública, pesquisa agrícola, engenharia industrial, adaptação tecnológica, mercado consumidor e capacidade empresarial.

Hoje, o setor sucroenergético brasileiro é uma das bases da matriz renovável do país. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), na safra 2024/2025 o Brasil produziu 679,68 milhões de toneladas de cana, 37,3 bilhões de litros de etanol e 21 TWh de eletricidade para a rede nacional.

A mesma organização destaca que a experiência brasileira em bioenergia se estende por quase um século, desde a mistura obrigatória de etanol anidro à gasolina em 1931, e evoluiu para um portfólio que inclui etanol, bioeletricidade, biogás, biometano e novas rotas para combustíveis sustentáveis.

Essa trajetória é uma prova de competência. Ela mostra que o país sabe integrar agricultura, indústria, energia, ciência e mercado. A próxima etapa é usar essa base para ir além do etanol convencional e avançar para uma bioeconomia mais sofisticada.

Mudança de ambição

Mas vantagens naturais não bastam. O Brasil precisa transformar potencial em estratégia. Isso exige investimento contínuo em ciência, formação de pessoas, infraestrutura tecnológica, segurança regulatória, propriedade intelectual, financiamento de risco e políticas industriais consistentes.

Também exige uma mudança de ambição. O país não pode se contentar em exportar biomassa barata ou commodities agrícolas. Precisa capturar mais valor. Precisa desenvolver enzimas, microrganismos, processos, equipamentos, softwares, biorrefinarias e produtos finais.

A bioeconomia brasileira será relevante se conseguir unir conservação e desenvolvimento. Se a biodiversidade for apenas destruída, perderemos a fonte das soluções. Se a biomassa for apenas queimada ou descartada, desperdiçaremos valor. Se terras degradadas continuarem improdutivas, perderemos uma oportunidade climática. Se a ciência não chegar à indústria, continuaremos dependentes de tecnologias importadas.

O Brasil tem uma combinação que poucos países possuem: natureza, escala, energia limpa, biomassa e experiência. Essa combinação pode posicionar o país como protagonista da transição para uma economia menos fóssil, mais circular e mais regenerativa.

A questão, portanto, não é se o Brasil tem condições de liderar a bioeconomia. Tem. A questão é se teremos visão, coordenação e persistência para transformar essa vantagem em desenvolvimento sustentável, inovação industrial e benefício social.

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