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Brasileira vai chefiar publicação que Carl Sagan liderou por 12 anos

Entrevista exclusiva com Rosaly Lopes: primeira mulher – e não americana – nomeada como editora-chefe de uma das revistas científicas mais importantes do mundo

A astrônoma brasileira Rosaly Lopes assume nesta quinta-feira, 1º de fevereiro, o posto de editora-chefe da Icarus, periódico mais relevante no campo da ciência planetária, fundado em 1962 – e cujo primeiro editor-chefe foi ninguém menos do que Carl Sagan. Durante os próximos três anos – com opção de extensão por outro triênio – Rosaly comandará um time de editores que publica, mensalmente, os melhores artigos científicos do mundo sobre sistemas planetários.

Até o fim de 2017, Rosaly coordenava um time de 80 astrônomos, como gerente de Ciência Planetária do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa (JPL, na sigla em inglês). A partir de amanhã, ela segue como funcionária da Caltech (universidade que abriga o JPL), mas deixa as funções gerenciais para se dedicar a atividades de pesquisa – que conciliará com o comando da Icarus.

 

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Figurinha carimbada aqui na SUPER há mais de 20 anos, Rosaly interrompeu suas férias no Havaí para nos atender por telefone – com o sotaque britânico-carioca de quem deixou Ipanema aos 18 anos, em 1976, para explorar este planeta (e tantos outros) como poucos:

SUPER: Primeiramente, parabéns pela nomeação à chefia da Icarus. E muito obrigado (quer dizer, desculpa mesmo) por interromper suas férias havaianas para nos dar essa entrevista.

Rosaly Lopes: Imagina, Tiago. Muito bom poder falar sobre astronomia para o público brasileiro.

S: Como foi seu processo de nomeação? Você foi convidada ou selecionada?

RL: As duas coisas, na verdade. Com a saída do editor-chefe Phil Nicholson, a AAS (Sociedade Americana de Astronomia, instituição que publica a Icarus em parceria com a Elsevier) convidou alguns astrônomos com experiência necessária para assumir a função e agendou conversas com os interessados. Acredito que tenham entrevistado meia dúzia de candidatos. Eu já tinha feito parte do conselho editorial da revista, presidi a Divisão de Ciência Planetária da AAS e publiquei inúmeros artigos na Icarus. Então, já estava bem familiarizada com a publicação.

S: E o que faz, exatamente, uma editora-chefe da Icarus?

RL: Vou tentar resumir: coordenarei o trabalho de um time de editores que recebe dezenas, até centenas de artigos todo mês. Eles selecionam os materiais mais relevantes e convidam um par de cientistas especializados no campo de conhecimento de cada artigo para revisar o conteúdo e sugerir ajustes necessários para a publicação. Esse processo de revisão dos pares dura de 4 a 6 semanas. Se não houver concordância entre os especialistas sobre a publicação ou não do artigo, sou eu quem desempata. No caso de artigos que os editores avaliem de cara como espinhosos, eu mesma participo do processo de revisão.

S: Seus três antecessores são da Universidade Cornell. Sua nomeação indica uma mudança de rumos na Icarus?

RL: Não, absolutamente. Cornell centralizou a chefia de edição da Icarus porque a revista nasceu lá, num tempo em que a informação não fluía como hoje – demorava para um editor se comunicar com colaboradores e pesquisadores. Então, além de Cornell ser um centro de excelência em astronomia, era mais fácil manter a burocracia por lá – minha assistente, inclusive, trabalha em Cornell. Com as facilidades de comunicação atuais, não há o que impeça uma editora-chefe de despachar da Califórnia, na costa oeste dos EUA, com a assistente alocada na costa leste.

S: O que você planeja para fazer jus ao legado de seus antecessores?

RL: Carl Sagan foi um dos fundadores da Icarus e chefiou a revista por 12 anos. Joseph Burns e Phil Nicholson, que passaram 17 e 20 anos à frente da empreitada, foram meus colegas na missão Cassini, que explorou Saturno e suas luas. Quero dar continuidade à excelência e à relevância da publicação, mantendo o rigor científico construído ao longo de mais de 50 anos. Além disso, pretendo aumentar o número de edições temáticas (dedicadas a um assunto específico) e dar mais espaço para estudos sobre exoplanetas (localizados fora do Sistema Solar) e sobre astrobiologia.

S: Quer deixar algum recado para os brasileiros?

RL: Agradeço o contato feito pela SUPER e quero deixar uma mensagem, sim: espero que mais cientistas brasileiros se envolvam com a ciência planetária. Sempre que posso, colaboro com pesquisadores e instituições para que isso aconteça e vou seguir nessa linha. Inclusive, devo passar por Natal e pelo Rio de Janeiro ainda em 2018. Quem sabe a gente possa conversar ao vivo dessa vez.