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Cérebro: faça sua cabeça

Existe uma tendência cada vez mais poderosa na neurologia em estudar o corpo, a mente e o mundo externo de forma totalmente integrada, afirma Benito Damasceno, professor de neurologia da Unicamp.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h45 - Publicado em 30 jun 2006, 22h00

Tarso Araújo

O estudo do cérebro mudou. Depois de ondas de pesquisas mostrando como ele muda o nosso comportamento, os neurologistas estão descobrindo o contrário. Nosso comportamento muda o cérebro. “Existe uma tendência cada vez mais poderosa na neurologia em estudar o corpo, a mente e o mundo externo de forma totalmente integrada”, afirma Benito Damasceno, professor de neurologia da Unicamp. As sinapses são determinadas menos pelos genes e mais pelo que acontece por aí. Costumes culturais, traumas psicológicos, derrames, alimentação, drogas, exercícios físicos, fé e meditação afetam até o tamanho de partes do cérebro. Nosso cérebro possui 100 bilhões de neurônios e cada neurônio pode ter 10 mil sinapses. Mas esses números pouco importam. O que vale mais é a qualidade dessas conexões, que varia de acordo com as experiências do meio externo. “A experiência é que influencia a genética e determina a formação do cérebro”, diz o neurologista Raul Marino Júnior, da USP. Ao lado, veja como dar um upgrade em seus neurônios.

Corpo são, mente sã

Uma pesquisa da Universidade de Wisconsin, em 2003, comprovou que a atividade física influencia o hipocampo, envolvido com os processos de memória e aprendizado. Os exercícios estimulam o aumento da produção de neurônios a partir de neuroblastos, organismos precursores das células nervosas, e das glias, células que colaboram para o bom funcionamento das sinapses.

Experimentos na Universidade de Exeter, na Inglaterra, mostraram que crianças de 10 e 11 anos que têm atividades físicas regulares recebem notas mais altas na escola.

Também se sabe que a atividade física aumenta o número de sinapses, pela multiplicação do número de dendritos e de outras ramificações dos neurônios.

O contrário também funciona: voluntários de uma pesquisa em 2001 passaram 15 minutos por dia só pensando no exercício de bíceps. Em 3 meses, seus braços estavam 13% mais fortes.

Ginástica da cabeça

A parte dorsolateral do córtex, guarda uma espécie de reserva cerebral, segundo o neurologista Collete Fabrigoule, da niversidade de Bordeaux. Essa área substituiria o funcionamento de outras áreas e funções que se enfraquecem com o tempo.

Para o neurobiólogo Yaakov tern, da Universidade de Colúmbia, essa flexibilidade do cérebro não é inata: ela se desenvolve com a educação, a convivência e a prática de leitura.

A atividade intelectual intensa minimiza os sintomas de doenças de degeneração cerebral, como o mal de Alzheimer. O cérebro compensa a morte de neurônios rearranjando as sinapses.

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Comer e não comer

Diante de imagens de comida, mulheres têm uma ativação maior do que os homens do córtex ocipitotemporal, região ligada ao processamento de imagens abstratas. Segundo psiquiatras do King·s College of London, isso acontece por causa da pressão cultural: as mulheres gastariam mais tempo pensando antes de decidir se vão ou não comer.

A dieta afeta o cérebro a curto e longo prazo. Cães com uma dieta rica em antioxidantes, como o betacaro-teno e vitaminas C e E, têm menos neurônios mortos por radicais livres.

O estresse diminui com a ingestão de tirosina, aminoácido necessário para a produção dos neurotrans-missores dopamina e noradrenalina. E uma das melhores fontes de tirosina é o iogurte.

Pular o café-da-manhã reduz o desempenho do cérebro no trabalho e na escola, por causa da falta de glicose, fonte de energia dos neurônios.

Dietas ricas em ômega-3 e outras gorduras poli-insaturadas, contidas em grande quantidade em peixes como salmão, linguado e sardinha, diminuem incidência do mal de Alzheimer.

Cérebro espiritual

Pesquisadores mostraram que o córtex pré-frontal, uma das áreas responsáveis pelo pensamento e planejamento de ações, é mais espesso em pessoas que praticam meditação há vários anos. O mesmo efeito influenciaria outras regiões ligadas à atenção, à introspecção e à sensibilidade, como o córtex insular.

Testes com placebos mostram o efeito do ato de acreditar. Segundo testes da Universidade de Michigan, homens que acreditam ter tomado analgésicos produzem mais endorfinas, neurotransmissores que controlam a dor.

Para o cientista americano Dean Hamer, pessoas com espiritualidade elevada têm um maior fluxo de substâncias envolvidas com as sensações de bem-estar, como a dopamina e a serotonina.

Rezar para si mesmo ou saber que seus amigos e familiares rezam faz seu cérebro produzir mais dopamina. Mas se alguém reza por você, secretamente, não há efeito.

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