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Ciência, tecnologia e mercado

José Adelinos Medeiros

A transferência de tecnologia não é um processo natural e espontâneo, principalmente nos países em desenvolvimento. Suas imensas populações, pobres e marginalizadas, e a escassez de recursos financeiros requerem, mais do que nunca, uma ação eficaz e integrada dos atores da cena tecnológica – o governo, os pesquisadores e os empresários. De nada ajuda rotular o governo de ineficiente, os pesquisadores de lunáticos e os empresários de imediatistas. O que vale é a soma dos esforços e o bom direcionamento dos investimentos, para se chegar a soluções concretas que melhorem, de imediato, a vida das pessoas e sirvam de plataforma para a dinamização de futuros projetos.

Por mais revolucionário que seja, um novo produto não passa de uma simples promessa se, não tiver compradores. E no mercado que as tecnologias são aprovadas por consumidores cada vez mais informados e exigentes. Essa premissa: aparentemente tão cristalina, parece não ter sido bem assimilada pelos atores da inovação tecnológica. Da descoberta científica a um produto no mercado há um percurso sinuoso. As etapas de transformação do conhecimento em novos produtos, processos e serviços precisam ser bem articuladas para não colocar em risco o êxito do empreendimento.

Embora companheiros de jornada, os pesquisadores, técnicos, empresários e governantes não costumam adotar um mapa único que os oriente. Os choques culturais entre cientistas e empresários, por exemplo, inviabilizam projetos promissores. O empreendedor quer resultados rápidos e chama o cientista de sonhador. O cientista vê o empresário como um imediatista que não compreende o ritmo lento da pesquisa. E necessário um ajuste inteligente entre essas duas posições. A busca de novos conhecimentos é árdua e demanda tempo. O coroamento desse esforço científico geralmente não resulta em algo prático, mas em um artigo publicado numa revista ou na “fabricação” de um protótipo em laboratório. Um verdadeiro êxtase para o cientista.

Se o compromisso básico da ciência é com o novo – e disso depende o avanço da pesquisa -, o compromisso da tecnologia é com a utilidade. Cópia e adaptação fazem parte desse universo, onde a busca da verdade e o êxtase científico não importam. O que conta é o mercado e o lucro. Transformar idéias em inovações tecnológicas não é trivial nem barato. Do protótipo ao chamado cabeça-de-série industrial há uma verdadeira via crucis. Para “arredondar” a peça e deixá-la no ponto, as equipes realizam vários testes, consomem tempo e muito dinheiro. Um processo que costuma exigir um montante de recursos várias vezes superior aos próprios investimentos iniciais do projeto.

Além dos aspectos culturais e financeiros, outros tipos de problemas têm emperrado as transferências de tecnologia. Entre eles está a dificuldade de se estabelecerem parcerias duradouras entre governo, empresas e instituições de ensino e pesquisa. Como um “sócio” dotado de poder moderador, o governo deve ter, entre suas atribuições, a tarefa de entender as especificidades de seus parceiros. Isto é, respeitar os referenciais da academia, mas agir em sintonia com as empresas, responsáveis pela produção tecnológica.

Esta tem sido, aliás, a preocupação da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, em seus diversos projetos, como as incubadoras empresariais (centros de apoio às microempresas nascentes) e os pólos tecnológicos. A Feira de Tecnologia (Expotec), programada para agosto de 1993, também se estrutura nessa direção. Ao colocar no mesmo espaço os institutos de pesquisa e as empresas, a Feira tem como objetivo “abrir” a tecnologia, divulgar seus resultados e sensibilizar os parceiros envolvidos e o público em geral para a lógica que rege o processo de transferência de tecnologia.