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Cientistas encontram centenas de geoglifos milenares escondidos na Floresta Amazônica

A descoberta, feita com uma tecnologia que usa lasers, desafia a visão de que a região era pouco habitada em tempos pré-colombianos.

Por Amanda Nascimento 6 ago 2026, 19h14 | Atualizado em 17 ago 2026, 15h02
Cientistas encontram centenas de geoglifos milenares escondidos na Floresta Amazônica Priorizar nos meus resultados Google

Nos idos dos anos 1980, olhando pelas janelas de um avião comercial, o geógrafo Alceu Ranzi identificou a olho nu grandes valas geométricas visíveis entre Rio Branco, no Acre, e Porto Velho, em Rondônia. Intrigado, o pesquisador voltou a sobrevoar a zona, desta vez com uma equipe de pesquisadores e fotógrafos. A operação acabou revelando os primeiros geoglifos da região – enormes símbolos escavados e desenhados diretamente no solo, construídos por sociedades milenares que habitaram a região da Amazônia.

Desde então, cientistas vêm tentando decifrar essas estruturas no coração da floresta tropical. Hoje, avanços tecnológicos tornaram essa tarefa mais fácil. Um novo estudo que contou com pesquisadores brasileiros, publicado no último mês na revista Nature, encontrou 396 geoglifos escondidos nas florestas do sul da Amazônia, invisíveis a olho nu por causa da mata fechada.

A descoberta foi feita com a técnica chamada LiDAR, sigla que vem de Light Detection and Ranging, ou “detecção de luz e alcance”. Ela consiste em, basicamente, drones ou aviões enviando milhões de feixes de laser para o solo. Quando o laser encontra um objeto ou estrutura, ele é refletido de volta para o aparelho. Isso permite criar uma espécie de mapa 3D do relevo abaixo.

Foi assim que o estudo revelou geoglifos no solo que não apareciam nas imagens de satélite. No total, cerca de 4,5 mil quilômetros quadrados foram investigados no estado do Acre, no sul do Amazonas e nas regiões da Bolívia e do Peru. 

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A maioria dos achados vem acompanhada de estruturas notáveis, como estradas e aparentes centros cerimoniais. Em média, os geoglifos ocupam uma área de quase três hectares; algumas estruturas têm nove metros de largura e quase cinco metros de profundidade. 

Os pesquisadores associam sua construção à civilização Aquiry, uma sociedade indígena que habitou o sudoeste da Amazônia entre os séculos 6 a.C. e 9 d.C. Em entrevista à Super, o autor Evandro Ferreira, professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), diz que acredita tratar-se de um povo com conhecimentos avançados.

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“Eles sabiam manejar a floresta. A construção de geoglifos provavelmente era feita por muitos indivíduos, por ser uma tarefa complexa. As nossas escavações mostram que eles tinham selenitas, amendoim, feijão. Eles cultivaram, por exemplo, mandioca”, exemplifica.

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Com a nova descoberta, sobe para 1.700 o número de geoglifos conhecidos na região. Ferreira, porém, suspeita que o número possa ser significativamente maior. “Partindo do número de 396 geoglifos [na área pesquisada] e extrapolando para cerca de 185 mil quilômetros quadrados [a área ocupada pelos Aquiry], podemos esperar encontrar 30 mil possíveis geoglifos”, explica ele. 

Limitações

Um detalhe histórico nesse tipo de estudo importa: as primeiras estruturas geométricas só foram observadas na década de 1980 por causa do desmatamento. Na época, o avanço da atividade pecuária e a construção de estradas como a BR-317 derrubaram grandes faixas da floresta e permitiram que o relevo fosse observado por imagens aéreas. 

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O uso do LiDAR permitiu que regiões com mata densa pudessem ser analisadas, revelando os geoglifos escondidos. Mas mesmo essa técnica tem suas limitações.

“À medida que você avança em direção à Amazônia Central, a floresta é mais densa e a eficácia do laser diminui”, observa o professor Ferreira. Em regiões como esta, diz ele, a precisão do laser pode cair de 10% a 50% por causa da densidade da floresta. 

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Geoglifos mundo afora 

Geoglifos similares foram encontrados em países como o Peru, incluindo as famosas linhas de Nazca. Os desenhos peruanos apresentam formatos de animais, seres humanos, plantas e figuras fantásticas, além de exibirem padrões geométricos. 

A civilização nazca era formada por agricultores avançados, que conseguiam sobreviver em uma região geográfica inóspita, a cerca de 1.700 quilômetros dos Aquiry, na Amazônia.

A presença de milhares de geoglifos na região sudoeste da Amazônia leva arqueólogos a repensar hipóteses sobre civilizações pré-coloniais e seu desenvolvimento. A primeira mudança diz respeito ao tamanho dessas sociedades.

Antes, pensava-se que os grupos indígenas da região da floresta eram relativamente pequenos. Agora, muitos arqueólogos acreditam que o auge populacional dos Aquiry pode ter sido grande: entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes no período entre os anos 100 d.C. e 300 d.C. Isso porque acredita-se que seriam necessárias, em média, 300 pessoas para construir e manter cada geoglifo.

“Imagine abrir uma vala de cinco metros, sem ter tratores, sem ter nenhum equipamento mecânico, sem nem um animal de ação. Provavelmente, havia muitas pessoas para abri-las”, diz Ferreira.

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