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Coloridos cidadãos de coral

Eles vivem nas regiões de corais dos oceanos, dez metros abaixo da superfície. De cores variadas e brincalhões, só atacam quando molestados. Então, são capazes de envenenar os homens.

Coloridos e dóceis, eles se movem lentamente em torno de corais como se fizessem parte de um harmonioso balé submarino. São peixes de coral, diferentes dos outros por suas magníficas cores e por formar uma peculiar comunidade marinha. As características comuns de seus membros são o tipo de vida sedentária que levam e os alimentos que retiram dos corais. Eles são justamente, os responsáveis por suas cores brilhantes, o que lhes permite confundir-se com o ambiente, para proteger-se dos predadores.

“Os peixes de coral pertencem a espécies diferentes de grupos diferentes que optaram por viver em regiões coralinas”, explica o ictiólogo Naércio Menezes, da Universidade de São Paulo. “Em conseqüência, tais peixes desenvolveram caraterísticas comuns relacionadas principalmente à alimentação, proteção e exploração do meio ambiente. Não existe uma categoria especial para incluir apenas peixes de coral.”

Tanto assim que sua forma de reprodução, por exemplo, é igual à da maioria dos peixes: as fêmeas eliminam seus ovos na água para serem fecundados pelos machos. Seu comportamento também é semelhante ao dos outros peixes. A maioria deles, entretanto, não é conhecida popularmente, já que vivem em ambientes específicos e não têm importância comercial.

Vivem nas águas não muito profundas dos oceanos, exatamente porque os corais, seu habitat, se localizam a no máximo 10 metros abaixo da superfície e em zonas tropicais, onde a temperatura é quente, variando de 23 a 25 graus. Excepcionalmente, no entanto, podem existir formações coralinas em profundidades maiores. O professor Menezes conta que, quando viajou em companhia de outros pesquisadores no navio oceanográfico da Universidade de São Paulo para fazer um levantamento dos peixes do Rio Grande do Sul, “encontramos pedaços de coral e formações coralinas a profundidades de 100 a 150 metros, mas eles estavam todos mortos. O interessante é que os peixes ali eram semelhantes aos dos corais próximos da superficie.”

Os corais não sobrevivem em temperaturas frias e esse achado indica que em alguma época do passado as temperaturas naquele ponto do litoral gaúcho foram mais quentes. Por não terem grande mobilidade e serem muito altos algumas vezes, ao contrário de tubarões e atuns, de forma fusiforme, os peixes de coral são presa fácil não só dos predadores como dos caçadores submarinos. Para compensar, a natureza lhes deu formas eficazes de defesa. A arma principal de alguns deles, como o baiacu, consiste em inflar o corpo.

Eles conseguem mudar seu tamanho de forma tão desproporcional que acabam por assustar os predadores. Se isso não surtir efeito, há algo pior. Eles possuem uma espécie de toxina altamente venenosa. No Japão — onde compõem sofisticada iguaria, o fugu — não são raros os casos de gourmets contaminados. Todo cuidado é pouco ao se retirar as vísceras de um baiacu, porque se elas se romperem a toxina contaminará a carne, que uma vez ingerida significa envenenamento na certa. A toxina do baiacu é mortal para o homem, mas não se sabe seu efeito sobre os outros peixes.

Há casos como o do peixe-sabão, que possui uma toxina no muco da pele. Mergulhadores contam que viram esses peixes serem abocanhados por predadores e, ato contínuo, repelidos, provavelmente devido à toxina. Assim, é possível que a toxina proteja o baiacu dos outros peixes. Há ainda o peixe-porco, cuja pele áspera também o livra de ataques. Outros comem algas venenosas que podem intoxicar as pessoas. Como não há meios de saber se um certo peixe comeu ou não algas venenosas, ingeri-los é um risco de vida. Envenenamentos desse tipo são comuns no Caribe.

O espinho da cauda dos peixes-barbeiro, também chamados cirurgiões, assemelha-se a uma lanceta muito aguda — instrumento cirúrgico de dois gumes. Daí o seu nome. Outro que apresenta uma peculiar forma de defesa é o peixe-cofre. Seu corpo está permanentemente encapsulado numa armadura óssea cheia de espinhos. Dessa verdadeira carapaça só ficam de fora parte da cauda e as nadadeiras. Mas nenhum peixe de coral ataca se não for molestado.

Como esses peixes representam as mais variadas espécies, assumem também variadas formas e tamanhos. Os da família dos pomacantídeos — não têm nomes conhecidos popularmente – e os chaetodontídeos — dos quais um exemplo é o peixe-borboleta — são altos, têm a boca pequena e dentes apropriados para arrancar pedaços de corais. Mas há aqueles — como os budiões — cujos dentes formam uma placa como se fosse um bico de papagaio. Por isso são também chamados de peixes-papagaio. Os pedaços de coral que abocanham são triturados graças aos dentes que têm na região da faringe. Nas áreas de corais também são encontradas mantas ou jamantas, que são raias inofensivas, além de estrelas-do-mar e medusas, perigosas e às vezes mortais.

Entre os típicos habitantes das águas coralinas há um, em especial, de hábitos diferentes. Trata-se da moréia, peixe noturno por excelência. Esse boêmio dos corais passa o dia entocado e à noite sai para fazer explorações. As moréias costumam morder os pescadores que se aventuram a enfiar a mão em tocas para pegar lagostas. Bonitos, atraentes, os peixes de coral tornaram-se alvo da pesca indiscriminada, principalmente por parte dos que buscam espécimes exóticos para aquários ornamentais. Os pescadores também estão atrás dos peixes de passagem, que não habitam os corais, mas, como o nome diz, por ali passam — tubarões, cações e atuns. Isso acaba representando um perigo a mais para os dóceis peixes de coral, pouco acostumados à presença humana.

Os peixes de coral existem tanto no oceano Pacifico como no Atlântico. No Brasil, o governo, preocupado com a preservação desses verdadeiros patrimônios da fauna marinha, tomou medidas para protegê-los. O atol das Rocas, por exemplo, localizado no litoral do Rio Grande do Norte, foi transformado em reserva. Não é para menos, pois se trata de um coral circular que contém uma incrível variedade de peixes. O arquipélago dos Abrolhos, no litoral da Bahia, é outro caso. Tornou-se o primeiro parque marinho brasileiro, com seus 91 300 hectares. A ilha de Fernando de Noronha, considerada também uma espécie de aquário precioso, está protegida da pesca predatória por uma série de restrições.

Para saber mais:

Macho, mas por pouco tempo

(SUPER número 3, ano 9)

Deu branco no coral

(SUPER número 5, ano 9)

Colônias em flor

A temperatura quente, entre 23 e 25 graus, é fundamental para a sobrevivência dos corais. Por isso eles são encontrados quase que exclusivamente em águas tropicais cujas temperaturas são mais altas. No Brasil, por exemplo, localizam-se principalmente no Norte e Nordeste. O atol das Rocas, no Rio Grande do Norte, e o Parque Nacional de Abrolhos, no extremo sul da Bahia, são verdadeiros santuários de corais. Já no Rio de Janeiro em direção ao Sul, eles são encontrados apenas esporadicamente, pois as temperaturas mais frias não favorecem seu desenvolvimento. No Sul, as praias são mais arenosas, a plataforma continental é mais ampla e só raramente existem formações de corais e pedras.

Responsáveis pela formação de recifes e atóis, os corais consistem em uma variedade de organismos marinhos invertebrados chamados celenterados, que lembram um vegetal. Por isso são chamados antozoários — do grego anthos, que significa “flor”, e zoon, que quer dizer “animal”.

A maioria dos corais forma colônias e cada indivíduo é um pólipo, semelhante a um tubo fechado em uma das extremidades com uma coroa de tentáculos. Existem várias formas e espécies; alguns têm um colorido brilhante que varia em tons de vermelho, amarelo-claro, laranja etc. Mas a maioria é amarela ou castanho-pardacenta. Os corais são comuns no Caribe, na costa leste da África, no oceano Índico, no Atlântico e no Pacífico, especialmente nas costas das Filipinas, Nova Zelândia, Polinésia, nordeste da Austrália e nas ilhas do leste da Austrália até o Havaí.