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Com muito fogo por baixo

Cientistas demonstram que no interior da Terra existem jorros de lava muito profundos. Eles nascem no núcleo e sobem até a base dos continentes e oceanos.

Flávio Dieguez

A gigantesca coluna de rochas fluidas e ardentes sobe direto do núcleo quentíssimo do planeta até bater no teto, ou seja, nas camadas duras e frias da crosta terrestre. Aí, ativa vulcões, deforma massas rochosas, cria montanhas, ergue planaltos e faz arquipélagos inteiros brotarem no meio do mar. Até este ano, os movimentos subterrâneos de lava mais profundos que se conheciam eram os que aconteciam até 500 quilômetros de profundidade, apenas. Mas diversas pesquisas recentes comprovaram que também existem, lá embaixo, torrentes rochosas muito mais profundas, batizadas de superplumas.

Uma delas, localizada sob a África, nasce 3 000 quilômetros abaixo da superfície, no núcleo da Terra (veja o infográfico à esquerda). Em março, ela foi mapeada pelos sismologistas americanos Jeroen Ritsema e Hendrik van Hijst, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos. Eles confirmaram medidas anteriores, menos precisas, realizadas no ano passado pelos geofísicos Norman Sleep, da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e Cynthia Ebinger, da Universidade de Londres, na Inglaterra (veja SUPER, ano 12, número 11). “As superplumas têm papel decisivo para a Geologia”, disse Sleep à SUPER. “Além da que observamos sob a África, parece haver uma outra debaixo do Oceano Pacífico, na região do Havaí.”

Para o cientistas, esses rios de lava são engrenagens que mantêm o planeta ativo, geologicamente, e não morto como a Lua e Marte. Nesse esquema, a camadas internas do planeta funcionam como um depósito de calor, pois estão aquecidas a cerca de 3 000 graus Celsius, na sua parte mais profunda. Essa energia flui o tempo todo para a superfície, em grande parte acompanhando a ascensão das superplumas até a base dos continentes e oceanos. Na crosta, finalmente, o ardor interno toma a forma de abalos sísmicos, explosões vulcânicas e outros desastres que, apesar das conseqüências terríveis que acarretam, também representam forças criativas da Terra, remodelando sem cessar as suas paisagens.

fdieguez@abril.com.br

Algo mais

O calor interno da Terra é produzido pela desintegração de urânio, tório e potássio radioativos. A descoberta foi do físico inglês de origem neozelandesa Ernest Rutherford (1871-1937), descobridor do núcleo atômico.

Trancos põem continentes em marcha

A descoberta dos jorros gigantes de lava revela uma força nova em ação no interior da Terra. Chamados de superplumas, eles podem ser responsáveis por boa parte dos movimentos que animam o interior do planeta. Essa é a avaliação do geofísico inglês Alessandro Forte, da Universidade Ontário Ocidental, em Londres, Inglaterra. “Acredito que elas causam pelo menos metade da agitação interna do planeta”, disse ele à revista americana Science.

O problema mais importante que os esguichos incandescentes vão ajudar a resolver, nos próximos anos, diz respeito ao deslocamento das placas tectônicas, nome que se dá aos grandes blocos rochosos em que se divide a crosta terrestre. Rígidos e frios, eles flutuam sobre o manto – uma camada de rochas quentes e amolecidas situadas imediatamente abaixo da superfície – sempre em movimento.

Qual é o motor dessa correria?

A teoria atual diz que as placas se mexem porque sempre têm uma extremidade mais grossa do que a outra. Como essa ponta é mais pesada e tende a afundar, ela arrasta o resto do bloco rochoso no processo. Avalia-se agora que, apesar de esse mecanismo explicar o vaivém dos fragmentos da crosta, não é o único responsável pela ação.

Terremotos úteis

Metade da tarefa ficaria por conta das superplumas. Como estão subindo lá do fundo, elas tendem a empurrar os continentes e os leitos oceânicos para cima. Só que, ao se elevar, os blocos também tendem a escorregar para um lado ou para outro, deslizando pela superfície.

No caso da África, o tranco a estaria levando na direção do Oceano Índico e para longe da América do Sul, já que os dois continentes estão se distanciando à taxa de uns 2 ou 3 centímetros por ano. Quando puderem calcular os efeitos exatos das superplumas, os cientistas esperam ter uma idéia mais nítida sobre como funciona o planeta.

Antes, porém, precisam desenhar um mapa mais detalhado do interior da Terra. Por ironia, a melhor maneira de fazer o mapeamento é analisar as ondas de choque criadas pelos terremotos (veja o infográfico à direita). No futuro, os dados fornecidos por essas catástrofes naturais vão ajudar a prever, com segurança, quando e onde elas vão ocorrer, salvando moradores e evitando os prejuízos.

Para saber mais

História da Geologia, Gabriel Gohau, Publicações Europa-América, 1987, Portugal.

Na internet:

http://www.seismo.unr.edu

Esboço inacabado de uma ilha

A Ferradura, como todas as outras ilhas do Arquipélago do Havaí, foi criada por um vulcão submarino. Ela é das menores, com pouco mais de 2 quilômetros de extensão

Fervura no subsolo americano

Rochas tórridas, a 3 quilômetros de profundidade, esquentam a água que espirra pelo gêiser Midway, nos Estados Unidos

Um amazonas de pedra derretida

Um jato colossal de rochas quentes e fluidas é descoberto sob a crosta africana.

Deformação geográfica

Boa parte do relevo africano situa-se a uma altitude de mais de 1 000 metros acima do nível do mar. Essa região fica 0,5 quilômetro acima da média dos planaltos do mundo e está pontilhada de vulcões, entre os quais o vulcão Kilimanjaro, com 5 895 metros de altura.

Sob pressão

A elevação do continente se deve à força de uma superpluma, um rio de lava que atravessou os subterrâneos da Terra há 45 milhões de anos e agora está esquentando e pressionando a crosta.

Origem profunda

Pela primeira vez se tem um quadro do que acontece perto do núcleo.

Um coração liquefeito

Com um raio de 3 500 quilômetros e temperatura de 3 700 graus Celsius, esta massa de ferro líquido constitui o núcleo do planeta. É da sua superfície que a superpluma parte para o alto.

Até este ano não se sabia nada sobre movimentos de lava abaixo de 500 quilômetros. Imaginava-se que ela subia por etapas até a superfície.

As superplumas sugerem que há um fluxo contínuo de rochas pelo interior do planeta. Elas sobem do núcleo até o topo e, depois de esfriar, voltam para o fundo.

Arquipélago em obras

Um imenso esguicho de lava construiu as ilhas havaianas, uma a uma.

Há 5,5 milhões de anos, a pressão subterrânea ergueu o leito do mar e criou vulcões submarinos. Do acúmulo de lava nasceu Kauai, a porção mais antiga do território havaiano.

Aos poucos, a força da torrente profunda empurrou a crosta para a esquerda e Kauai se acalmou. Mas, aí, o calor interno começou a levantar outra ilha, Oahu.

Esse processo repetiu-se a cada 1,2 milhões de anos, em média, gerando também as ilhas de Maui e do Havaí, que dá nome ao arquipélago. Ele ainda está em ação.

Radiografia interna

Ondas de choque criadas por tremores revelam o interior do planeta.

Sismógrafos espalhados pelo mundo estão sempre registrando os abalos e, ao mesmo tempo, as ondas lançadas por eles através do planeta.

Cronometra-se a passagem de cada onda em vários pontos da superfície, pois ela pode se atrasar se houver movimentos de lava em seu caminho.

O resultado de muitas medidas mostra onde há rochas se deslocando. É uma espécie de radiografia interna da Terra.

Chapa quente

Um resto de calor subterrâneo ativa os gêiseres do Parque de Yellowstone, nos Estados Unidos.

Existem aqui cerca de 10 000 fontes de água quente. O solo, instável, fica 1 centímetro mais alto, ao longo do ano. Depois desce de novo.

A causa é um jato de lava que pode ser o resto de uma superpluma. Há 200 milhões de anos ela teria erguido a crosta e agora está morna, quase extinta.

O subsolo contém milhares de fraturas que a água da chuva enche regularmente. A temperatura chega aos 200 graus Celsius.