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Conheça Tupi e Guarani: a estrela e o planeta batizados por brasileiros

União Astronômica Internacional (IAU) promoveu uma campanha mundial para a nomeação de outros sistemas solares — e o Brasil homenageou seus nativos.

Por A. J. Oliveira - 20 dez 2019, 19h55

Ao longo das últimas três décadas, os exoplanetas (planetas que orbitam outras estrelas) deixaram de ser meras previsões teóricas e passaram a perfazer um vasto catálogo com milhares de mundos confirmados. Mais de 4 mil deles já foram revelados pelas observações astronômicas, e esse número dobra a cada dois anos e meio. Só tem um problema: a grande maioria desses exoplanetas ainda leva nomes muito burocráticos.

É que, logo após serem descobertos, eles recebem a designação oficial atribuída pelos especialistas, que nada mais é do que um punhado de números e letras que não significam nada para os leigos. “Tem havido um interesse crescente entre os astrônomos e o público em também atribuir nomes próprios, tal como é feito para os corpos do Sistema Solar”, disse em comunicado Eric Mamajek, da União Astronômica Internacional (IAU).

A IAU é a autoridade que escolhe os nomes dos corpos celestes. Mas como batizar tantos admiráveis mundos novos? Pensando em facilitar a tarefa e, principalmente, torná-la mais democrática, a organização aproveitou as comemorações de seu centésimo aniversário em 2019 para lançar a campanha global NameExoWorlds (NomeieExoMundos, em português). Os resultados foram anunciados nesta terça (17) numa coletiva em Paris.

Mais de 110 países foram envolvidos na iniciativa, cada um deles com seu próprio comitê nacional. O público foi o grande protagonista do projeto, tendo enviado 360 mil ideias de nomes para uma estrela e seu planeta por país, atribuída para nomeação com os critérios de ser visível a partir desse país e suficientemente brilhante para ser observada através de pequenos telescópios. Os comitês escolheram os melhores e abriram a lista para votação.

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Ao todo, 420 mil pessoas no mundo votaram para eleger nomes do sistema exoplanetário “apadrinhado” por sua nação — termos indígenas foram priorizados por 2019 ter sido eleito o Ano Internacional das Línguas Indígenas pela ONU. Nós brasileiros fomos incumbidos de definir o nome de uma das estrelas do Retículo, pequena constelação do hemisfério sul que, até então, tinha só nomes burocráticos. A estrela em questão é a HD 23079, maior e mais massiva que o Sol.

Ela fica a 109 anos-luz da Terra e abriga um planeta gigante gasoso descoberto em 2001, o HD 23079 b. Com 2,61 vezes a massa de Júpiter e 1,18 seu raio, leva dois anos para completar uma órbita em torno da estrela, a uma distância de 1,6 a da Terra ao Sol. Entre junho e setembro, os brasileiros submeteram 977 sugestões de pares de nomes: um para o planeta, outro para a estrela. Uma comissão escolheu 14 e abriu para votação popular.

Entre 15 de setembro e 4 de novembro, mais de 7 mil pessoas participaram, e a dupla eleita recebeu 15% do total de votos. Ficou definido que, de hoje em diante, a estrela HD 23079 passa a se chamar Tupi, e o planeta HD 23079 b recebe o nome de Guarani. Com isso, toda e qualquer nova descoberta de corpos celestes naquele sistema exoplanetário vai homenagear nomes de tribos e etnias indígenas do Brasil.

Na Argentina, a proposta vencedora também veio de etimologia indígena. Um professor e líder comunitário da etnia Moqoit sugeriu o nome Naqaya para o planeta HD 48265b, e Nosaxa para sua estrela, HD 48265. Respectivamente, significam “irmão-família-parente” (referindo-se a todos os seres humanos como “irmãos”) e primavera (literalmente, ano novo) no idioma Moqoit. E há muitos outros exemplos bacanas pelo mundo afora.

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Na Irlanda, que batizou astros da constelação Canes Venatici (os Cães de Caça), os nomes para o exoplaneta HAT-P-36b e a estrela HAT-P-36 vieram de uma lenda irlandesa sobre dois cães mitológicos — Bran e Tuiren, respectivamente. Na Jordânia, os nomes para a constelação da Águia são de antigas cidades e áreas protegidas do sul do país: Wadirum para o exoplaneta WASP-80b e Petra para sua estrela, WASP-80.

Já em Burkina Fasso, que foi designada para batizar o exoplaneta HD 30856 b e a estrela HD 30856, na constelação Erídano (um rio), os nomes vieram justamente dos principais rios locais: Nakambé e Mouhoun. É uma iniciativa que, ao mesmo tempo, torna esses mundos mais próximos de nós, celebra diferentes culturas e estreita os laços dos povos diante da exploração espacial. E que venham novas rodadas de nomeação!

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